Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Tempo de Inleição

ESTUDO DE TEXTOS POPULARES
 SEMINÁRIO SOBRE LITERATURA DE CORDEL
1- OBJETIVOS- a)Refletir sobre a dimensão da linguagem popular como enriquecedora da produção literária
b)Distinguir em texto popular os mesmos elementos lingüísticos e literários de uma obra clássica.
c)Conhecer o cordel em seus elementos literários, mórficos e discursivos
d)Demonstrar que a língua “culta” pode e deve coexistir harmoniosamente com a linguagem popular.
2 -METODOLOGIA- Exposição de idéias, encenação de um cordel, análise literária e discursiva do texto.
3 - RESUMO: Este seminário propõe analisar o Cordel do ponto de vista discursivo e literário, onde serão focados o tema, o enredo, os personagens, a linguagem em seus aspectos morfossintáticos, discursivos e poéticos. A linguagem popular será tomada com base na teoria de Bakhitin¹ acerca da obra de Rabelais².A linguagem poética se fundamentará em Wellech & Warren³. Neste trabalho serão apresentados o estereótipo do caipira preguiçoso e a figura da mulher, na perspectiva do diálogo,como constituintes básicos do cordel.

4-JUSTIFICATIVA-O cordel é uma linguagem viva e significativa. Isto pode ser notado na atualidade, nas apresentações em feiras livres, em teatros.A recente inauguração da Casa do Cordel, em Natal, por iniciativa de Erivaldo Leite de Lima, o poeta de Abaeté, que já escreveu e publicou mais de cem cordéis, além de entidades como A União dos Cordelistas do Rio Grande do Norte (Unicodern) e a Academia Brasileira da Literatura de Cordel (ABLC), criada pelo imortal Antônio Francisco Teixeira de Melo, são provas cabais da importância literária e histórica do cordel.
Sendo a história do povo contada de forma poética, o cordel deve ser inserido nos meios acadêmicos como objeto de investigação científica, visando à ampliação dos estudos literários e à afirmação da diversidade lingüística como instrumento de inclusão e mobilidade social.

5 –INTRODUÇÃO - A literatura de cordel é típica do Nordeste brasileiro, fruto da imaginação popular retratando a realidade através de temas ligados ao cotidiano e interessantes para a comunidade.Na constituição dos cordéis é importante a distinção de elementos básicos constitutivos, como o ritmo melódico produzido pelas rimas, métrica bem definida e a ludicidade produzida pelos jogos de linguagem e pela musicalidade dos versos. No campo discursivo, pode-se notar, a figura da mulher, os estereótipos, a religiosidade, a luta do bem contra o mal, o poder,
1. Filósofo e lingüista alemão que deu grande contribuição aos estudos da Ling6uística e da Análise do Discurso.
2. Escritor francês, autor de Gargântua e de Pantagruel..
3.A partir do estudos de René Welleck e Austin Warren, a Teoria da Literatura ganhou “status” de ciência e firmou-se como disciplina dos cursos de Letras nos anos 60.
o dinheiro, elementos estes que produzem efeitos de sentido nos interlocutores, instigando-lhes a imaginação.Na interligação dos elementos mórficos e discursivos retratada nos personagens, traz para o texto o imaginário popular e o ambiente hilariante de brincadeira.
 

6 - OBJETO DE ESTUDO- TEMPO DE ELEIÇÃO de Jailda Santana*

7- FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA-A análise do Discurso apresentada se baseia na perspectiva materialista de Pêcheux, onde são consideradas a historicidade e a ideologia como elementos constitutivos do cordel. Essa perspectiva teórica busca compreender os efeitos de sentidos e explicar o funcionamento discursivo por meio de uma análise não subjetiva, sendo a linguagem afetada pelos efeitos ideológicos, manipulada conscientemente para transmitir a mensagem. Considera-se ainda, a Semântica Discursiva (sentido conotativo e denotativo da linguagem) (Fiorin 2002) e a Sintaxe Discursiva, (frases) (idem,ibidem) demonstrando a presença do discurso direto e indireto no objeto analisado. Quanto à linguagem popular será analisada sob a visão de Bakhitin acerca do Vocabulário da Praça Pública na Obra de Rabelais, já que o cordel é uma expressão popular, a princípio produzida para ser apresentada nas praças, nas feiras, em forma recitada ou cantada. Entre os elementos rabelaisianos, revela Bakhitin que a projeção de excrementos é conhecida na literatura antiga, citando Ésquilo, em “Os Ajuntadores de Ossos”, descrevendo o lançamento de um penico na cabeça de Ulisses, e este mesmo episódio em Sófocles (O banquete dos Aqueus). Estes exemplos provam que a projeção de excrementos é um gesto tradicional de rebaixamento conhecido pelo realismo grotesco e também pela antiguidade. Segundo Bakhitin, este gesto e expressões “degradantes”, em Rabelais, têm natureza ambivalente. O “rebaixamento” ligado à zona baixa corporal, toma esta zona também como sinônimo de “fecundidade”, “nascimento”, “luz”, “renovação”. É esse aspecto positivo, que está vivo na época de Rabelais e sobrevive ainda hoje no cordel.
Em relação ao “estereótipo”, tomado como aquilo que é constituído por uma idéia pré-formada e simplificada que se impõe como sendo fixa aos membros de uma coletividade ou a cada indivíduo, nota-se que a representação de sentido não se constitui numa relação direta entre palavras e coisas, linguagem e mundo. É justamente por isso que a representação é imaginária e o estereótipo, no cordel, se configura como um dos seus aspectos jocosos. O estereótipo do caipira preguiçoso circula no imaginário social. Pode-se encontrá-lo na Literatura: Jeca-tatu (Monteiro Lobato), no Cinema Mazaroppi (inspirado no “adorável vagabundo”, Carlitos, de Chaplin) e na música “O ABC do preguiçoso” de Xangai.
Quanto á análise literária, em resumo, consiste em decompor o texto em seus elementos constitutivos, visando à percepção do valor e do relacionamento que trazem entre si para melhor interpretar e sentir a obra como um todo completo e significativo, a partir da intenção e dos recursos lingüísticos e literários usados pelo autor. Os elementos literários em seus aspectos mórficos e figurativos, serão analisados com base na teoria de Welleck &Warren, que, apesar de contestarem a essência do literário dos formalistas russos, defenderam elementos constitutivos próprios da linguagem literária distinguindo-a assim de outros tipos de linguagem. É neste ponto que serão identificadas as figuras do texto literário, no objeto de estudo.

 
*Autora do livro A Ti, Companheiro. JOTANESI Editora. Rio de Janeiro 1988 e do livro inédito Face à Poesia, em vias de publicação.

8- OBJETO DA ANÁLISE–TEMPO DE ELEIÇÃO

 
NARRADOR1-       Eu contar pra vocês
                         Um episódio irritante
                         Que acontece toda vez
                         Nesse tempo intolerante
                         É tempo de eleição
                         E todos ficam na mão
                         De gente tão importante
 
NARRADOR2-Nesta querida Bahia
                          Cidade do interior
                          Vira praça de folia
                          Foguetório, redevô
                          Palanque pra todo lado
                          E o povo azuretado
                          Pergunta: a onde eu vô?

NARRADOR1-        A prefeitura mais parece
                          Com casa de mãe Joana
                          Pois todo mundo carece
                          Dentadura e até cama
                          Todo mundo quer arrego
                          Precisando de emprego
                          Do prefeitinho “bacana”.
 
NARRADOR2-        É um tal de lufa-lufa
                          Um toma lá e dá cá
                          É tanto fio da puta
                          Quereno a gente comprá
                          Quereno vivê no manso
                          E é os mermo todo ano
                          E nóis tudo no currá.

NARRADOR1-        É sempre a mesma merda
                          Só promessa nada mais
                          Aquilo que o povo herda
                          É somente o “nada faz”
                          É preciso consciência
                          Chega de tanto demência
                          Gente precisa é de paz.

NARRADOR2 -       Os home bate nas portas
                           É um toc-toc amuado
                           E cum tapinha nas costa
                           Vai ganhano eleitorado
                           Vai o povo iludino
                           No seu direito divino
                           De  votá e sê votado

NARRADOR1-        Quando ocorre a eleição
                          Povo fica afragelado
                          Corre atrás de avião
                          Besta e maravilhado
                          Querendo ver o doutor
                          Que a sua mão molhou
                          Naquele pleito passado

NARRADOR2-       É duído tanta gente
                         No mêi dessa caganêra
                         Os ‘’ome arreganha os dente
                         No circo da discursêra
                         O home vira inté bicho
                         Cum a vergonha no lixo
                         Seno vindido na fêra.

NARRADOR1-        É moça virando quenga
                          Homem vendendo a mulher
                          E dentro dessa moenda
                          Gente vira um qualquer
                          Cumpôca o povo vai dar
                          Sua família, seu lar
                          Tudo que o Poder quer.

NARRADOR2-        Falá qui o povo vota
                          Pruquê é pobre, coitado
                          Num cridito nessa mota
                          Tem muito dotô comprado
                          Pobreza não justifica
                          Vergonha é qui isprica
                          Êtha! Zome discarado

NARRADOR1-        O povo tem que saber
                          Ele é quem manda na praça
                          Político tem que comer
                          Na mão do povo na raça
                          Mas tudo é invertido
                          E o eleitor “tão sabido”
                          Comendo bosta de graça.

NARRADOR2-        E vamo agora narrá
                          A histora do Antero
                          Cum sua muié Dadá
                          Qui é um caso bem séro
                          Num deixa se abatê
                          Mermo pobre sem cumê
                          Ela tem os seus mistéro
               
NARRADOR1-        E ela pensa diferente
                          Do marido puxa-saco
                          De preguiçoso é doente
                          E tem uma vida de gato
                          Só pensa em rede e mesa
                          E vivendo na pobreza
                          Não dá um prego em sapato.

NARRADOR2-        No tempo da inleição
                          A terra treme danada
                          Dadá num qué votá não
                          Nos home da palancada
                          É truvejo todo dia
                          É tanta sucurumia
                          Uma zuêra retada.

NARRADOR1-       Lá vem eles se chegando
                         Eu vou é capando o gato
                         Pra não ver eles brigando
                         Feito boi e o carrapato
                         Que eles falem por si
                         O que eu comecei aqui
                         Pra vocês verem de fato.

                (ENTRAM DADÁ E ANTERO)

          DADÁ-     Marido! Seu disgramento!
                        Donde tu vem nessa hora?
                        Já foi buscá o cimento
                        Qui te prometeu a Flora?
                        Toma vergonha na cara
                        Não se venda a essa cabra
                        Prefeitinha nove hora.

     ANTERO-      Ô muiê discumungada!
                       Tu fica quéta num canto
                       Não me venha cum lapada
                       Qui eu já num guento tanto
                       É tempo de inleição
                       E um pratim de feijão
                       Nóis só ganha nesse ano.
       
          DADÁ-   Tu devia é trabaiá
                      Dexá de ser baba-ovo
                      E dexá de imbostá
                      Nessas cunversa do povo
                      É fêi um home pidi
                      Se rebaxá... sai daqui!
                      Pistiado priguiçoso.

    ANTERO-     Muiê vê se tuma jeito
                     Seja mais mansa cumigo
                     Vô votá para prefeito
                     No Zé, da Flora o marido
                     Ele vai me dá imprego
                     E nóis vai tê mais sussêgo
                     Prá acarmá nosso isprito.

       DADÁ-   Imprêgo? Pra qui imprêgo?
                   Tu num é de trabaiá
                   Tu nunca foi um sujeito
                   De uma força butá
                   É lerdo cuma uma lesma
                   Só sabe tumá celveja
                   E de noite furunfá.

 ANTERO-     Muiê me dá  djutóro
                  Tu é a minha valença
                  Dê um voto ao Zé Libóro
                  Ou vote na sá Vicença
                  Largue mão de ser treitêra
                  Sei qui  tudo é mulequêra
                  Mas o dinhêro é  bença.

     DADÁ-    Tu me dêxa apirriada
                  Vontade de te largá
                  Mas tenho aguniada
                  Medo de Deus castigá
                  Ah! se pudesse, seu cão!
                  Pegava a mão-de-pilão
                  Pra tua cara rachá.

ANTERO-      Dadá, muié inxirida
                  Se aquiete, dêxe disso
                  Tu é bem mais atrivida
                  Qui a Dadá de Curisco
                  Se tu dexá de sê minha
                  Tu vai morrer bem mortinha
                  Muiê largada é um bicho.

     DADÁ-    Tu tá bom de trabaiá
                  E dexá dessa lezêra
                  Tu só gosta no fuá
                  Num pensa mermo na fêra
                  Quem cridita in canidato
                  É barrido atulemado
                  Só véve no orivêja.

ANTERO-    Ô muiê tu num me xinga
                 Mais eu fis uma apostinha:
                 Uma garrafa de pinga
                 E umas sete galinha
                 Eu sei que num vô perdê
                 Zé Libóro vai vencê
                 Vai sê bom! Vixe mainha!

    DADÁ-   O qui tu tem na cabeça
                Num pode saí dos trio
                Tu parece uma besta
                Do mermo jeito do tio
                Tu nada tem pra postá
                Cumé qui tu vai pagá?
                Só se dé eu e teus fio.

ANTERO-    O canidato vem em casa
                 Pra cum você prusiá
                 Seja boa e lhe dê asa
                 Vá uma galinha matá
                 Dêxa o home cumê bem
                 É isso qui me convém
                 Pro meu imprego ganhá.

   DADÁ-    Tu tem arguma galinha
                Para cuzê pro dotô?
                Tem uma ôia de farinha
                E merda qui tu cagô
                Òia aqui: ô meu marido
                Qui num venha o atrivido
                Pois mélo ele de cocô.

ANTERO-     Não é assim que se trata
                 Um home tão importante
                 Dê beijinhos num martrata
                 Mermo sem a musga, dance
                 Deixa o home  bem filis
                 E vê lá o qui tu diz
                 Pois tu é muito falante

   DADÁ-    Oxente seu disgramado
                Tu qué qui eu beije ôto ?
                Tá ficano mariado
                Ô tá quereno sê corno?
                Num sô muiê de quenguice
                E se tu qué levá chife
                Pricisa casá de novo
.
ANTERO-     Eu já tô discabriado
                 Vou é pru bá do Bidó
                 Pois eu já tô é cansado
                 Tu fica aí falano só
                 Eu vô tumá uma pinga
                 Vô é inchê a muringa
                 Pois é muito mais mió.

    DADÁ-    Antão survêta pistiado!
                 Izala daqui, cagão
                 Pau d”água incanzinado
                 Cara de jegue, bundão
                 Vai bebê tua surrapa
                 Mais sem fazê arruaça
                 Sinão eu te pico a mão.

               (ANTERO SAI)

   DADÁ-    Vocêis viro cuma é?
                In tempo de inleição
                Tem qui sê muito muié
                Pra guentá infernação
                Parece qui tudo pode
                É homem virano bode
                E muié virano o cão.

                Agora veja mininos
                Votá pur um empreguim
                E eu aqui me cunsumino
                Suzinha no meu cantim

                Vocêis num vão criditá
                E o imprego qual será?
                Qui vão dá pro Antero?
                Mais ele bem qui merece
                Tá morto mermo e carece
                Sabe o qui ele vai sê
                Se Zé Libóro vencê?
                Portêro do cimitéro.
 
               
                 9-ANÁLISE DO DISCURSO-Através das marcas textuais pode-se compreender o funcionamento discursivo da linguagem. No objeto apresentado é possível observar através do percurso discursivo a existência de três estágios :1º , apresentação do tema na voz dos narradores; 2º , desenvolvimento da temática na voz de Antero e Dadá; 3º conclusão na voz de Dadá.O percurso formulado é trabalhado para que a personagem Dadá seja configurada como exemplo social, a ser transmitido no meio onde circulará o cordel e é formulada a partir de sua concepção política diferente da idéia geral que o cordel deixa transparecer, que é a compra de votos e os expedientes usados para este fim. A voz social da mulher aparece também atrelada às idéias de pecado x punição, demonstrando a religiosidade típica do cordel. O estereótipo, “caipira preguiçoso”, inter-texto para o cordel, faz com que a autora apenas coloque os sentidos já existentes sobre a figura de Antero. A repetição de palavras entre os verso (palavras em negrito) “É um tal de lufa-lufa: Um toma lá e dá cá; É tanto fio da puta “Quereno a gente compra; Quereno vivê no manso” e as rimas alternadas produzem a melodia efeito de brincadeira. Esse efeito é constituído por meio do funcionamento do ritmo e permite que o cordel, mesmo tratando de um assunto polêmico, que é a política, circule de maneira mais amena entre os interlocutores (público). Os elementos de Rabelais estão presentes em “Comendo bosta de graça” , expressão despida de maldade, usada corriqueiramente,especialmente no Nordeste significando “esforço infrutífero”, ou em “ “Mélo ele de cocô”, onde a ambivalência de que fala Bakhitin demonstra que longe de se revestir de um sentido deprimente, a expressão significa o repúdio e a revolta de Dadá contra os métodos escusos e mesquinhos que alguns políticos usam para conseguirem votos, reafirmando assim a sua ideologia política, contrária ao senso comum demonstrado pelos narradores. Na literatura é assim: “cocô” pode significar dignidade e pureza de caráter.
Quanto ao lugar de fala, a autora se desloca e este deslocamento é notado nas marcas de língua culta deixadas intencionalmente na fala do Narrador1. Depois há marcas textuais pouco usadas na fala popular como a inversão de termos como em “Zé, da Flora o marido” e a supressão de letras (“Os ’ome arreganha os dente) para manter a fidelidade às leis da métrica e consequentemente ao ritmo que caracteriza o cordel. Outro argumento para a mudança do lugar de fala da autoria é a criação de personagens a quem é delegado o poder de discurso, para transmitir uma ideologia e o compromisso da fala no narrador 1 onde se nota predominância da linguagem culta. O direito de discurso outorgado aos personagens cria um efeito de sentido, pois quando se coloca a própria pessoa se significando, através da sua voz, torna a mensagem muito mais expressiva, do que se fosse um outro falando da vida de quem ele observa.
.  A intimidade com palavras e expressões populares nos dá o entendimento de que fazem parte do universo em que a autora convive e que o caráter ficcional dos personagens tem bases na mimese (Aristóteles) da realidade. Dadá e Antero são tipos inspirados nas vivências e no senso observador e crítico. Em Dada, é expressa a não-aceitação da submissão da mulher a seu companheiro e o desejo de que todas as mulheres se libertem pessoal e politicamente. O nome “Dadá”faz uma referência à “Dada” de Corisco,figura feminina ligada ao cangaço e consequentemente ao cordel brasileiro. “Antero”, só para fins estilísticos (rimas). Os dois nomes são comuns no Nordeste.
10-ANÁLISE LITERÁRIA

I-Tema- Política brasileira e suas mazelas, recortada à pequenas cidades.
II_+Enredo- Desenvolve-se através de uma briga de casal, ensejada pela política partidária.
III-Recursos discursivos- a)Narração:
                         “Eu contar pra vocês
                         Um episódio irritante
                         Que acontece toda vez
                         Nesse tempo intolerante
                         É tempo de eleição
                         E todos ficam na mão
                         De gente tão importante”
 
b)Diálogo
“-Eu já tô discabriado
                       Vou é pru bá do Bidó
                       Pois eu já tô é cansado
                      Tu fica aí falano só
                      Eu vô tumá uma pinga
                      Vô é inchê a muringa
                      Pois é muito mais mió.

                   -Antão survêta pistiado!
                    Izala daqui, cagão
                   Pau d”água incanzinado
                   Cara de jegue, bundão
                   Vai bebê tua surrapa
                   Mais sem fazê arruaça
                   Sinão eu te pico a mão”.
 
IV-Foco narrativo- 1ª pessoa do singular tanto na narração como nos diálogos, o que revela o caráter intimista do cordel.Na Narração: “Eu contar pra vocês” (...) “ Pra vocês verem de fato”. No Diálogo: “Eu já tô discabriado
                      Vou é pru bá do Bidó(...)

V- Personagens- Antero e Dadá
                          Aspectos Físicos- Por ter perspectiva intimista, o cordel não declara os caracteres físicos dos personagens.
                          Aspectos psicológicos – Antero: a) Preguiçoso, indolente e bajulador
                           “Tu devia é trabaiá
                            Dexá de ser baba-ovo
                            E dexá de imbostá
                            Nessas cunversa do povo
                            É fêi um home pidi
                            Se rebaxá... sai daqui!
                            Pistiado priguiçoso”.
b)Mau-caráter-  -   “Muiê me dá  djutóro                        Sei qui tudo é mulequêra
                          Tu é a minha valença                             Mais o dinhêro é bença”
                          Dê um voto ao Zé Libóro
                          Ou vote na sá Vicença
                          Largue mão de ser treitêra
 c)Inconvincente- Todas as falas de Dadá)
 d)Fraco:               “ Antão survêta pistiado!
                          Izala daqui, cagão
                          Pau d”água incanzinado
                          Cara de jegue, bundão
                          Vai bebê tua surrapa
                          Mais sem fazê arruaça
                          Sinão eu te pico a mão”.
 
Dadá- a)Corajosa- “Tu devia é trabaiá
                            Dexá de ser baba-ovo
                            E dexá de imbostá
                            Nessas cunversa do povo
                            É fêi um home pidi
                            Se rebaxá... sai daqui!
                            Pistiado priguiçoso”.
b)Contestadora- Todas as falas
c)Irônica-         “Vocêis num vão criditá
                         E o imprego, qual será?
                         O que vão dá pro Antero?
                         Mas ele bem qui merece
                         Tá morto mermo e carece
                         Sabe o qui ele vai sê
                         Se Zé Libóro vencê?
                         Portêro do cimetéro”.
d)Politicamente consciente- “Tu tá bom de trabaiá
                                         E dexá dessa lezêra
                                         Tu só gosta no fuá
                                         Num pensa mermo na fêra
                                         Quem cridita in canidato
                                         É barrido atulemado
                                         Só véve no orivêja”.
VI-Espaço- Algum lugar do interior da Bahia.
VII_Tempo- Período que precede as eleições municipais.
VIII-Aspectos Mórficos:a) Tipologia Textual- Versos heptassílabos (contém sete sílabas poéticas ou pés), formando estrofes de sete versos, excetuando-se a última estrofe que possui doze versos, também contendo sete pés.
b)Rimas – apresentam-se sob o aspecto: ABABCCB com exceção da última estrofe, cujo aspecto formal é ABABCCDEEFFD
XIX-Elementos típicos do cordel –a) Religiosidade “Mas tenho aguniada Medo de Deus castigá”, argúcia dos personagens e o poder do dinheiro
                                      “Muiê me dá  djutóro
                                       Tu é a minha valença
                                       Dê um voto ao Zé Libóro
                                      Ou vote na sá Vicença
                                      Largue mão de ser treitêra
                                       Sei qui  tudo é mulequêra
                                      Mas o dinhêro é  bença”.
 b)Submissão da mulher. O poder masculino típico do cordel é contestado por Dadá.
                                    “Oxente seu disgramado
                                     Tu qué qui eu beije ôto ?
                                    Tá ficano mariado
                                    Ô tá quereno sê corno?
                                    Num sô muiê de quenguice
                                    E se tu qué levá chife
                                    Pricisa casá de novo”
X- Figuras de Linguagem- a)Aliteração( repetição de palavras e sons no início dos versos)”Tu num gosta de trabaiá . Tu mum foi um sujeito de uma força botá;”
b) Metonímia-“pratim de feijão” toma a parte pelo todo, significando qualquer alimento;
c)Substantivação- (Mudança da classe gramatical de uma palavra ou termo por intermédio da anteposição de um artigo definido. ”Aquilo que o povo herda É somente “o nada faz”
d)Hipérbole- ( exagero de expressão como reforço de sentido)  “corre atrais de avião...”
e)Metáfora-  (Comparação intrínseca) “O circo da discusêra” (A autora compara os comícios à palhaçada, pilhéria);
f)Prosopopéia- (Atribuição de caracteres humanos a seres inanimados)” A terra treme danada”.
g)Onomatopéia- ( Reprodução de sons e ruídos) “ É um  toc-toc amuado”
h)Neologismo-  (Palavras criadas a partir da necessidade momentânea) “palancada” e “mota”, criadas para efeito de rima.
i) Símile- ( Igualdade ou aproximação de duas idéias, por meio de uma preposição) “feito boi e carrapato” “ é lerdo cuma uma lesma”.
j) Pleonasmo- ( Reforço de expressão por meio da repetição “T u vai morrer bem mortinha”
l) Ironia- representada pelas aspas em “Desses homens “importantes” e”  E o eleitor “tão sabido”
m)Antítese- (aproximação de idéias contrárias) “Sei qui tudo é mulequêra mas o dibhêro é bença”
É importante notar que no último verso da 3ª estrofe (Do prefeitinho “bacana”.) há um efeito idêntico ao que há na música “Cálice” de Chico Buarque”(...) Silêncio na cidade não se escuta. De que me vale ser filho da santa Melhor seria ser filho da outra”. Nota-se em Chico que, ao invés de “filho da outra” pensa-se na palavra óbvia ( puta) que rimaria com luta, bruta, escuta mas que não foi autorizada devido à época em que a música foi criada. No cordel, a palavra “bacana”, face à liberdade de expressão atual poderia ser “sacana”, mas, deliberadamente a autora deixou a dedução para o leitor.

11- CONSIDERAÇÕES FINAIS
Espera-se que este trabalho tenha contribuído para os estudos da Literatura de Cordel no sentido de se fugir à visão equivocada de que a linguagem da cultura popular é tosca e pobre. No decorrer das análises procura-se evidenciar, tanto do ponto de vista literário quanto discursivo que os elementos e imagens focados no texto são os mesmos que podem ser identificados numa obra clássica, sacramentada pelo mundo dito “culto.
8 -REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
ORLANDI. Discurso e texto, formulação e circulação dos sentidos. Ed.Pontes, Campinas 2002.
PÊCHEUX, M.(1988) Semântica e Discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. Editora
MOISÉS. Massaud. A Análise Literária. 14ª edição. Editora Cultrix. São Paulo.Sp 1996.
WELLECH &WARREN. René e Austin. Trad. L.C. Borges.Teoria da Literarura e Metodologia dos Estudos Literários. Editora Martins Fontes. Campinas.SP.2003
BAKHITIN, Mikhail. O Vocabulário da Praça Pública na Obra de Rabelais. In BAKHITIN, Mikhail. A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento. No contexto de Rabelais, 5ª edição de S. Paulo SP. Hucitec 2002 PP 125-169.
BAGNO. Marcos. Preconceito Lingüístico:o que é, como se faz Editora Loyola. São Paulo-SP2002.
FIORIN. José Luiz. Linguagem e Ideologia. 8ª edição. Editora Ática. São Paulo.SP.2002.
KAYSER. Wolfgang. Análise e Interpretação da Obra Literária. Trad. De ArMênio Amado. 6ª edição. Editora Coimbra. São Paulo.1976.

 



Vivianna di Castro
Enviado por Vivianna di Castro em 07/11/2010
Reeditado em 07/11/2010
Código do texto: T2602134
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Vivianna di Castro
Irecê - Bahia - Brasil
260 textos (21016 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 19/11/19 20:00)