Espelhos das Estações
Epígrafe:
“O tempo é um espelho de muitas faces. Cada estação, uma verdade.”
***
Introdução
Espelhos das Estações é uma travessia poética pela jornada interior de um ser que contempla sua existência à luz das quatro fases do ano.
Primavera, Verão, Outono e Inverno tornam-se reflexos da juventude, da paixão, da maturidade e da velhice — e cada espelho revela não apenas a imagem do tempo,
mas a verdade que floresce, arde, declina e permanece em cada estação da alma.
***
Espelho da Primavera
Olhei-me um dia, em manhã tão serena,
e o rosto era uma fonte que brotava.
Nos olhos, o calor da flor amena,
nos lábios, a promessa que encantava.
A pele, intacta, era canção macia;
o peito, um campo a abrir-se à ventania.
Amar, então, doía — mas doía
como doem os frutos na alegria.
Sonhava mais do que podia ser,
mas mesmo o irreal me parecia perto.
Não temia o amor, nem o sofrer…
E hoje entendo o brilho tão desperto:
é que o espelho, em sua luz de abril,
só mostrava o que era mais sutil.
***
Espelho do Verão
No espelho vi meu corpo em fogo aceso,
as veias como rios em correria.
O mundo, em mim, pulsava em cada peso
de amar sem freio, e dar-se em valentia.
O rosto tinha o traço da ousadia,
o peito era tambor de algum tropel.
Amor não era súplica — era via
de guerra e gozo, amargo e doce mel.
Toquei o que sonhei, mas sem medida,
e o tempo, que me via tão febril,
deu-me vitórias… mas feriu a vida.
Ainda assim, que brilho tão sutil:
arder por tudo, amar a própria queda,
e ver na dor a flama que me herda.
***
Espelho do Outono
O rosto outrora firme agora é brando,
as mãos que amavam, hoje mais vazias.
O tempo, sem remorso, vai levando
as cores que me foram alegrias.
Mas não me assusta o traço que ele escreve,
nem a demora em cada amanhecer
pois se a beleza um dia foi mais breve,
o amor que dela veio...soube ser.
As rugas que me habitam são memórias,
o corpo já cansado é testemunha
de tantas lutas, perdas, tantas glórias -
e no silêncio que a saudade arranha,
a alma me sorri com mais histórias
do que o espelho pode ver...ou sonha.
***
Espelho do Inverno
No espelho, vi meus olhos mais cansados,
mas neles, paz que nunca antes tivera.
Os dias, como livros já fechados,
guardavam sombras mansas da quimera..
A boca não buscava mais respostas,
e os gestos se faziam mais contidos.
As dores? Ja doiam bem mais postas,
como o silêncio dos amores idos.
Não era amargo o tempo em mim vivido -
era um jardim que resistiu ao gelo.
E mesmo o não ter sido...era sentido.
Senti-me enfim completo no espelho:
sem juventude, mas com alma acesa,
como uma luz que brilha na leveza.