TRILHA ABSC 16 - SONETOS COM TEMA: AMOR PLATÔNICO

*A UMA PASSANTE*

Andava indiferente à multidão sem rosto,

Mas nem sequer me lembro aquilo em que pensava,

Porque trazia o sangue ardendo feito lava

E um ar febril de alguém doente e maldisposto.

Até que vi, surgindo alheia ao meu desgosto,

Aquela deusa que entre os homens caminhava,

Com olhos claros, tez de alvura escandinava

E um belo riso em tom discreto e bem-composto.

Em êxtase, admirei a tão fugaz passante,

Que fez meu coração parar, por um instante,

Enquanto fomos dois estranhos, lado a lado.

Porém, ao ver sumindo a sua etérea sombra,

Senti no peito a dor mortal, que então me assombra,

De ter perdido um grande amor sem ser amado!

RAFAEL FERREIRA

*PRISÃO PLATÔNICA*

Na escala progressiva do capricho,

O imaginário voa num segundo,

Recebe o impulso de ideais, o esguicho

De fantasias na razão do mundo!

Imagens vêm de um prazeroso nicho

Que a mente libertária - mar profundo -

Transforma o ser no mais bravio bicho

Preso à corrente de um ardor fecundo!

A fixação de imagens sempre ilude

E a consciência diz, em tempo, "mude!"...

E enquanto não mudar, virá a insônia

Com a fantasmagórica neblina

Que mais seduz e muito desatina

Quem vive na platônica colônia!

Ricardo Camacho

*PLATONICAMENTE*

Maria, nos teus vales, suave rio,

Deslizo, nau buscando o pleno mar!

Embala-me, num sonho assaz macio,

A luz que sigo acesa em teu olhar!

Maria, nos teus montes, vou buscar

a seda perfumosa em arrepio!

E, extasiado, em frente ao teu altar,

Venero o sol que aquece o intenso frio.

A densa noite em teu cabelo espelha

Um salpicar de estrelas luzidias,

Que ao pálio celestial muito assemelha.

E fico, então, perdido em mim, Mulher,

Escravo das sonhadas alegrias,

Sem ter de ti um mero olhar sequer.

Fernando Antônio Belino

*IMACULADO*

Alguns dirão que nunca aconteceu…

mas considero intensa a nossa história,

vivida em sonho (sobretudo, meu),

com cenas carimbadas na memória.

A nossa voz, a fada emudeceu…

o olhar tagarelava, em oratória,

selando com sorrisos o apogeu

(assim, trilhamos bela trajetória).

O nosso amor surgiu na travessia

da escola em que o destino já previa

que as artes traçariam meu traslado.

Paramos, no preâmbulo, o romance,

e, ao abortar no tempo a tal nuance,

permaneceu em mim, imaculado!

Elvira Drummond

*TEMPO SEM GLÓRIA*

Amei-te intensamente, toda a vida,

Desde que te avistei a vez primeira,

Então passaste a ser a flor ungida

Capaz de manobrar-me a mente inteira.

Tentei fugir de ti, pois sem guarida

Sentia a tua ausência rotineira...

E tantos foram meus sinais, querida!

Para que me notasses... Eu sem eira.

Em vão, corri atrás do teu carinho...

Busquei quebrar-te o gelo, mas sozinho

Deambulei, sem paz, por antagônico

Ensejo que jamais logrei gozar...

Tanto me dei sem nada conquistar,

Exceto o meu amor, porém, platônico.

José Rodrigues Filho.

*SOUVENIR DO AMOR PROIBIDO*

Conservo o seu retrato na carteira,

relicário legítimo e sofrido

de um desejo platônico e contido

de uma paixão ingrata e verdadeira.

A vida toda tenho convivido

com essa angústia, eterna companheira,

de seguir lhe querendo a vida inteira,

sem poder confessar o amor sentido.

Eu sinto, assim, a vida se arrastando

e arrastando, com ela, essa paixão,

que eu vivo no meu peito sufocando.

E sigo assim, guardando o seu retrato,

amando eternamente, em solidão,

sem conseguir amar você de fato.

Arlindo Tadeu Hagen

*AMOR OCULTO*

O amor na adolescência vem risonho,

sem oponência às flechas do cupido.

Sobre o ente amado, o olhar embevecido

se estende ao pensamento entregue ao sonho.

Exime-se, entretanto, de alarido

um sentimento oculto e assaz bisonho.

O dia,”lento,” torna-se enfadonho;

cálida, a noite tem bem mais sentido.

Introvertido, o impasse da existência…

No âmago eclodem chamas da eloquência,

somente extravasadas na poesia.

E tal poeta, frente a uma acuidade,

quando o sentir habita na saudade:

– do seu imenso amor, um só sabia!…

Lucília A. T. Decarli

*AMOR PLATÔNICO ANIMAL*

Amava vê-lo ali em pleno pantanal,

boiando no tapete aquático do rio.

À margem, o aprecia e até, não desconfio,

quisera se privar desse instinto animal...

Levita o jacaré, em gozo colossal,

não sabe que um voyeur fareja em desvario

e o vê como ração, amor, talvez desvio

que a natureza uniu, paixão descomunal.

O amor platônico é, nos dois, um solilóquio,

inconfessável fala em forma de Pinóquio,

enquanto aos dois a fome atiça e trama a luta.

E assim ambos, no rio, em visceral disputa,

se enfrentem numa guerra em plena força bruta

e, sufocado, o amor adia seu colóquio.

Carlos Alberto Cavalcanti

*TOLA ESPERA*

O sangue ferve quando o olhar se deita

no rosto de feições angelicais

e o mundo se apequena até demais

porque venero, plena, minha eleita.

O lume do sorriso me deleita,

revela o mais formoso dos fanais,

embala apaixonados madrigais,

mas a vereda enxergo tão estreita...

A rude indiferença me intimida,

sufoca meu protesto e, perseguida,

a graça de sentir o teu carinho

resiste, nutre o grito da quimera

de alguém que, dominado pela espera,

decide amar, ainda que sozinho...

Jerson Brito