A obra do "Esperançar" de Paulo Freire
Paulo Freire, patrono da Educação do Brasil, um dos mais importantes educadores do mundo, reafirma no seu livro "Pedagogia da Esperança" seu compromisso com a educação libertadora e popular. Publicado no ano de 1992, o livro é uma reflexão sobre sua obra Pedagogia do Oprimido, lançada em 1968, e uma resposta crítica a leitores, estudiosos e detratores de seu pensamento. Mais do que um complemento às suas ideias anteriores, a obra é uma revisão, um aprofundamento e um testemunho de suas experiências pessoais, especialmente durante o exílio.
Os inúmeros problemas vividos no contexto político brasileiro que o levaram ao exílio não foram suficientes para ofuscar a sua esperança pois, como ele mesmo afirma, pois segundo Freire, não é possível viver a existência humana e a necessária luta para fazê-la melhor, sem esperança e sem sonho. A esperança é necessidade ontológica (íntima do ser) em contraponto a desesperança, a amargura e ao desespero.
Freire enfatiza que a esperança é um imperativo existencial e histórico, sem o qual a luta pela transformação social torna-se impossível.
Freire reitera que a esperança precisa estar associada à práxis, à consciência crítica e à ação transformadora, que deve ser uma concretude histórica, ou seja, significa que o desejo de um mundo melhor deve ser acompanhado por atitudes concretas que promovam mudanças reais. Para o autor, a desesperança é imobilizadora, leva à conformidade e ao fatalismo.
Ao longo de sua obra, Freire entrelaça suas memórias pessoais com reflexões pedagógicas. Ele recorda sua experiência no SESI (Serviço Social da Indústria), que foi uma experiência fundamental para a concepção da Pedagogia do Oprimido, e lembra os anos do exílio, primeiro no Chile, depois nos Estados Unidos e Europa, e compartilha aprendizados adquiridos nesses períodos. Ele narra momentos de diálogo com operários, camponeses, estudantes e professores, e então, ele reforça a importância do saber popular e da educação como instrumento de emancipação.
A obra também aborda algumas críticas recebidas por Freire ao longo de sua trajetória. Uma delas foi a acusação de que sua linguagem seria machista, pois em Pedagogia do Oprimido utilizava frequentemente a expressão "homens" para se referir à humanidade. Diante dessas críticas, Freire reflete sobre o poder da linguagem e a necessidade de superá-la para promover uma educação verdadeiramente libertadora e inclusiva. E ora, quando ele menciona sobre os homens, obviamente, que a emancipação também é para as mulheres, no sentido de humanidade, e de maneira alguma as marginalizou, sempre as respeitou com ternura e admiração, principalmente, as guerreiras trabalhadoras e ativistas, e às mulheres em geral, de serem compreendidas na sua dignidade, direitos e lutas, que são legítimas nas suas aspirações.
Outro ponto central do livro é a discussão sobre a luta de classes. Freire reforça que a opressão é um fenômeno histórico e social, mas que a superação da opressão não se dá apenas pela consciência da luta de classes, e sim por um processo educativo que estimule a consciência crítica dos sujeitos. A educação, segundo ele, não transforma o mundo sozinha, mas potencializa as transformações sociais por meio da tomada de consciência dos sujeitos oprimidos, como também consciência dos opressores pela conversão de mentalidades, e possíveis consensos democráticos e de última análise, pela luta de direitos legítimos por uma sociedade mais justa e igualitária.
Freire também compartilha experiências que viveu na Europa e em outros países, onde teve a oportunidade de dialogar com imigrantes, trabalhadores e intelectuais. Ele percebeu como a opressão se manifesta de maneiras distintas em diferentes contextos e reafirma a universalidade de sua proposta pedagógica.
Outro ponto relevante é o diálogo que Freire estabelece entre sua prática pedagógica e outros pensadores contemporâneos, e assim busca ampliar sua compreensão sobre a educação e a realidade social. O autor reforça que a educação deve ser um ato de amor e coragem, nunca de imposição ou domínio.
A obra "Pedagogia da Esperança" é um livro escrito com até raiva, mas também com amor, sentimentos que Freire considera fundamentais para manter viva a indignação e a esperança. O livro defende a radicalidade na defesa dos direitos humanos sem sectarismo, a tolerância sem conivência, e a necessidade de resistência a um mundo neoliberal excludente.
Em suma, Pedagogia da Esperança é um livro essencial para compreender a trajetória de Paulo Freire e a atualidade de seu pensamento que repercute no mundo. Não é à toa que é o terceiro pensador intelectual mais citados nas Ciências Humanas em várias universidades e faculdades pelo mundo. Seu chamado à esperança não é um apelo ingênuo, mas uma convocação para a luta consciente e transformadora. Trata-se de um livro que inspira e desafia, e reafirma que a educação é um ato político e que a esperança deve ser a força propulsora da ação libertadora, não no sentido de esperar, mas "esperançar".
O livro é incrível, magnífico e totalmente recomendável sua leitura para se informar, conhecer, inspirar e se motivar para lutar por um mundo melhor através da educação.