Um mundo melhor e os desafios contemporâneos - uma resenha do livro A Mente Moralista de Jonathan Haidt.

Como muitas outras pessoas, tenho me preocupado sobre como colaborar para um mundo melhor. Como muitas outras pessoas, tenho me desiludido com o ser humano e me angustiado com as notícias.

Nesse tempo em que tantas vezes nos deparamos com a violência, a crueldade, o trauma, são bem-vindos os textos que nos auxiliam a compreender a sociedade, as ações humanas e organizar o pensamento. A leitura do livro “A mente moralista”, de Jonathan Haidt, trouxe luz para esse início de 2025.

Não é possível entender o ser humano em sua relação com o social sem pensar a moralidade. Haidt define o capital moral como aquilo que permite “à comunidade suprimir ou regular o egoísmo e possibilitar a cooperação”. O autor, através da apresentação de seis matrizes morais, possibilita-nos compreender de que modo os diferentes agrupamentos humanos organizam-se e, também, conflituam movidos por esse conjunto de alicerces, formando os grupos políticos que compõe a nossa realidade social.

Para mim, o livro representou a confirmação de algumas percepções que a própria convivência social havia demonstrado, mas que uma certa tendência ao racionalismo tantas vezes fez com que eu tivesse dificuldade de compreender. A primeira confirmação foi que a moralidade se liga primeiramente e intuitivamente a um processamento afetivo/emocional das informações, e só em um segundo momento buscamos a razão, e em geral para apoiar o que já julgamos. Conforme Haidt “quais as chances de as pessoas pensarem de maneira exploratória e imparcial quando o interesse próprio, a identidade social e as fortes emoções as fazem querer ou até necessitar chegar a uma conclusão predeterminada?” (HAIDT, p. 87).

O segundo ponto que destaco é que o altruísmo do ser humano tende a ser paroquial, ou seja, amor dentro dos grupos. “Seria bom acreditar que nós humanos fomos criados para amar todos incondicionalmente. Bom, mas pouco provável do ponto de vista evolutivo” (HAIDT, p. 262). Ou seja, temos mais dificuldade em sermos altruístas com aqueles que não compartilham das nossas matrizes morais.

Nesse sentido, quando falo sobre um mundo melhor, devo compreender que, embora eu desejasse, não estaremos todos de acordo. Mas sei que muitos, como eu, que têm como uma das matrizes morais o alicerce do Cuidado, preocupam-se e são sensíveis aos sinais de sofrimento, desejam cuidar daqueles que sofrem e rejeitam a crueldade.

Não devemos esperar um mundo sem conflitos ou uma panaceia para todos os males. Há tantos problemas que afetam o ser humano e o meio em que vivemos, alguns mais, outros menos dentro do nosso controle – catástrofes naturais, doenças, guerra, violência, fome. Frente a isso, trago uma colocação que permeia o pensamento budista: o mundo é perfeito como é. Parece confuso e estranho trazer a ideia de perfeição logo após apontar tantos aspectos que falam de males e sofrimento, mas trago a frase no sentido de pontuar que o mundo é exatamente como é, que é como deveria ser considerando todas as forças atuantes, considerando tudo o que veio antes. Olhar para o passado, entender como o estado atual surgiu, equilibrando com o olhar para o próximo momento, nos ajuda a entender quais as escolhas e ações do agora podem trazer um resultado diferente.

Olhar para a realidade como ela é envolve aceitação - das nossas forças e fraquezas como seres humanos. Mas considero ser importante nossos ideais – aquilo para o qual nos lançamos em um movimento de busca. A contemporaneidade nos presenteia com muitos desafios sociais. Frente à falta de referências e às trágicas notícias, por vezes somos tocados pela desilusão, desmoralização, desesperança. Em nosso país, temos visto representantes do povo cometendo agressões graves em plena rede televisiva. Isso não fala apenas deles, isso fala de nós. Podemos dizer: o ser humano é agressivo, não há o que fazer. Ou podemos tentar jogar o ponteiro da nossa bússola moral um pouco mais para cima: existe agressividade no ser humano, mas devemos buscar a capacidade de lidar com nossas emoções de modo mais socialmente construtivo.

Nesse sentido, entendo que existam circunstâncias em que as oposições sejam importantes e necessárias, mas há também aspectos das polarizações que às vezes apenas nos afastam de diálogos construtivos e das lutas mais urgentes. Há que se questionar até onde cabe o diálogo e onde se faz necessário uma oposição forte, e quais são as lutas prioritárias neste momento.

Escrevo esse texto com alguns sentimentos como pano de fundo: um interesse em compartilhar sobre o livro que me ajudou, uma esperança de que possa ajudar outras pessoas, uma preocupação quanto ao futuro. Esse ano me propus melhorar em um aspecto, considerando valores pessoais: maior participação social – para mim é um desafio e me desacomoda. No cotidiano representa lidar com conflitos internos (a busca de realizar meus valores x a preguiça, o cansaço, o medo e outros fatores que podem interferir no dia-a-dia). Tentarei, começando aqui, no que é próximo, comigo, na minha comunidade.