Sergio Moro e a luta contra a corrupção

 

SERGIO MORO E A LUTA CONTRA A CORRUPÇÃO

Miguel Carqueija

 

Resenha do livro “Contra o sistema de corrupção”, de Sergio Moro. GMT Editora, Rio de Janeiro-RJ, 2021. Foto de capa: Mauricio Nahas.

 

Sergio Fernando Moro – juiz, ministro da justiça, senador – é hoje uma figura lendária. Em torno dele há muitas polêmicas e sempre se destacou por sua postura comedida.

Nesta interessantíssima obra com mais de 300 páginas ele traz importantes revelações sobre os bastidores da Operação Lava-Jato e o governo de Jair Bolsonaro, entre outros assuntos relevantes, inclusive sobre como funciona o mecanismo da corrupção, bem como a antiga impunidade.

Como escritor, o estilo de Moro é sóbrio, enxuto e digno, evitando excessos verbais e procurando fundamentar bem as suas argumentações. Na verdade o livro é fascinante e envolvente e fala de coisas estarrecedoras.

Na capa de trás o próprio Moro resume o assunto da obra:

“Posso dizer que tive dois dos empregos mais desafiadores do mundo. Primeiro, como juiz da Lava Jato, atuando em casos de grande corrupção em um ambiente de impunidade. Figuras importantes da política e do mundo empresarial foram processadas, julgadas e presas. A pressão para que os processos não prosperassem, as dificuldades de investigação, prova e tramitação das ações foram imensas, assim como os ataques pessoais. Foi o preço a pagar para aplicar a lei frente a poderosos interesses.

Em um segundo momento, como Ministro da Justiça e Segurança Pública, buscando, contra a corrente, consolidar os avanços contra a corrupção, que demandavam reformas mais profundas. (...)”

O relacionamento com o Presidente Jair Bolsonaro – homem de atitudes instáveis, mas que contou com alguns ministros ótimos, como Tarcísio Freitas e Damares Alves – foi tenso e difícil:

“Sempre que podia Bolsonaro dava alguma declaração para me causar constrangimento, como a de que eu seria preterido em eventual nomeação para o cargo de ministro do STF ou a de que o projeto de lei anticrime não era prioridade do governo.”

Mas Moro também contrariou poderosos esquemas da esquerda, como se viu na questão da nomeação de Lula por Dilma Rousseff, para o cargo de ministro da Justiça. Com objetividade Moro defende a divulgação, feita na época, dos processos da Lava Jato:

“Os críticos diziam que queríamos fazer sensacionalismo e julgar os casos com base na opinião pública. Os hipócritas, aqueles que pagavam ou recebiam suborno, assim como seus aliados, alegavam que queríamos criminalizar a política. Nada mais falso, já que apenas cumpríamos a Constituição. Ou seria preferível varrer tudo para baixo do tapete a fim de que ninguém soubesse?”

Assim, em decorrência da divulgação de conversa telefônica entre Lula e Dilma, a nomeação de Lula para um ministério foi cassada pelo STF:

“Alguns analistas políticos disseram que a divulgação daqueles áudios acelerou o processo de impeachment de Dilma Rousseff, embora os motivos formais de impedimento da presidente nada tivessem a ver com o esquema criminoso da Petrobrás ou mesmo com essa aparente tentativa de obstruir a ação da Justiça. A queda da presidente foi motivada pelo que ficou conhecido como “pedaladas fiscais”, o atraso proposital do repasse de dinheiro aos bancos públicos para artificialmente ocultar o rombo orçamentário.”

Muita gente discorda de Moro, porém mesmo essas pessoas fariam bem em ler este livro e conhecer o pensamento e a argumentação – a meu ver bastante respeitável – de um homem que não temeu contrariar poderosos interesses de mais de uma vertente política.

 

Rio de Janeiro, 25 de maio de 2024.