Especulações cinematográficas - Quentin Tarantino

ÓTIMO: para quem aprecia cinema e histórias sobre filmes; as especulações de Tarantino trazem interessantes reflexões e preciosas memórias sobre a sétima arte

Quentin Tarantino - Especulações cinematográficas, RJ, Intrínseca, 2024, 440 páginas

Em Especulações Cinematográficas o diretor Quentin Tarantino, de tantos filmes memoráveis que vi, como Cães de Aluguel (1992) , Pulp Fiction: Tempo de Violência (1994), Bastardos Inglórios (2009), Django Livre (2012), Os Oito Odiados (2015), Era Uma Vez... em Hollywood (2019), analisa, ou melhor, especula acerca de 13 filmes rodados entre 1968 e 1981 (dos quais vi 7 apenas) por diversos diretores, alguns dos mais importantes que passaram por Hollywood especialmente a partir da segunda metade do século XX.

Tarantino especula porque não apenas faz um resumo dos filmes vistos (alguns deles várias vezes), como também diz o que faria no lugar do diretor, ou seja, como dirigiria o filme do outro, mudaria o início ou o final, trocaria tal ator ou atriz por outro ou outra e assim por diante. Destaca a melhor coisa de cada filme, o roteiro, a direção, o desempenho dos atores, trilha sonora, fotografia, cenas fundamentais da película, também trechos desnecessários ou tediosos que cortaria ou mudaria e assim por diante.

É um livro cheio de, digamos assim, spoilers, porque ele conta tudo sobre o filme que está analisando, especulando sobre. Por exemplo, quem nunca viu o excelente Amargo Pesadelo (Deliverance, 1972) mas pretende ver um dia, vai ficar sabendo de antemão das duas cenas capitais do filme, além do seu final, o que vai tirar um tanto do suspense ou mesmo pavor (ou prazer, depende) que essas cenas irão lhe causar. Num outro momento ele se pergunta, e a nós também, E se Brian De Palma tivesse dirigido Taxi Driver no lugar de Martin Scorsese? Pois é...

Eis os filmes sobre os quais ele trata aqui, quase todos com muitas cenas de ação, perseguição, suspense, violência, horror e algum sexo, elementos que depois estariam presentes em sua filmografia:

- Bullitt (idem, 1968), de Peter Yates, com Steve McQueen, Jacqueline Bisset, Robert Vaughn;

- Perseguidor Implacável (Dirty Harry, 1971), de Don Sigel e Clint Eastwood, com Clint Eastwood, Andrew Robinson, Harry Guardino;

- Amargo Pesadelo (Deliverance, 1972), de John Borman, com Jon Voight, Burt Reynolds, Ned Beatty;

- Os Implacáveis (The Getway, 1972) , de Sam Peckinpah, com Steve McQueen, Ali MacGraw, Ben Johnson;

- A Quadrilha (The Outfit, 1973), de John Flynn, com Robert Duvall, Karen Black, Joe Don Baker;

- Irmãs Diabólicas (Sisters, 1973), de Brian De Palma, com Margot Kidder, Jennifer Salt, Charles Durning;

- Daisy Miller (idem, 1974), de Peter Bogdanovich, com Cybill Shepherd, Barry Brown, Cloris Leachman;

- Taxi Driver (idem, 1976), de Martin Scorsese, com Robert De Niro, Jodie Foster, Cybill Shepherd;

- A Outra Face da Violência (Rolling Thunder, 1977), de John Flynn, com William Devane, Tommy Lee Jones, Linda Haynes;

- A Taberna do Inferno (Paradise Alley, 1978) , com Sylvester Stallone. Lee Canalito, Armand Assante;

- Alcatraz: Fuga Impossível (Escape from Alcatraz, 1979), de Don Siegel, com Clint Eastwood, Patrick McGoohan, Roberts Blossom;

- Hardcore: No Submundo do Sexo (Hardcore, 1979), de Paul Schrader, com George C. Scott, Peter Boyle, Season Hubley;

- Pague Para Entrar, Reze Para Sair (The Funhouse, 1981), de Tobe Hooper, com Elizabeth Berridge, Shawn Carson, Jeanne Austin.

Algumas dessas obras, as mais antigas da lista, Tarantino viu em companhia da mãe ainda menino, com cerca de 8 anos de idade (ele nasceu em 1963), daí que a parte inicial de Especulações Cinematográficas se chama O pequeno Quentin assistindo a grandes filmes. A mesma coisa havia acontecido com Al Pacino anos antes, cuja mãe levava Al ao cinema porque não tinham tevê em casa, nem outro tipo de diversão. Quentin depois contava aos colegas de escola os filmes que tinha visto, quase todos impróprios para sua idade, e era invejado por eles.

Ia ao cinema com a mãe e o eventual namorado dela no momento ver sessões duplas, que às vezes combinavam um filme trash (de baixo orçamento, com enredo exagerado, até mesmo escatológico etc.) com outro de nível melhor (mesmo tendo boa memória é claro que ele teve de rever alguns deles, bem adulto, para poder escrever este livro). Depois, adolescente, maratonava pelos cinemas de Hollywood, em busca de filmes do gênero blaxploitation, que eram protagonizados e realizados por atores e diretores negros, tendo como público-alvo, principalmente, os negros norte-americanos.

Tarantino conta que às vezes ele era o único espectador branco dentro de um cinema lotado em que os demais pagantes vibravam com filmes blaxploitation, especialmente se fosse protagonizado pelo astro negro Jim Brown, descrito aqui elogiosamente como um "filho da pita com puca grossa" (troquei as vogais, claro). Falar nisso, palavrão é o que não falta no livro: Tarantino diz, a toda hora, um monte deles para elogiar ou criticar filmes, enredos, diretores e atores.

De volta ao que importa, ainda adolescente, mas já sabendo com certeza o que queria fazer na vida adulta, quando trabalhou numa locadora de filmes conversava com seus colegas "sobre o tipo de filme que queria fazer e as coisas que queria fazer dentro desses filmes. E usava como exemplo a cena de abertura de Matador, do Almodóvar." O filme espanhol de 1986 tinha logo de início um personagem se masturbando enquanto assistia a cenas sangrentas de filmes B de terror. Pois é...

Bem, tem tanta coisa em Especulações Cinematográficas que este pequeno resumo (e não resenha) do livro nem de longe seria capaz de dar uma ideia mais precisa de todo o seu conteúdo. Assim, outros tantos filmes, diretores e atores são citados, situações e algumas histórias longas sobre Hollywood, outras sobre ele mesmo, são contadas enquanto Tarantino especula sobre os 13 filmes listados acima, que parece que você está lendo uma série de narrativas, como se fossem contos, pelo menos assim se deu comigo.

Por isso eu não poderia dar menos que cinco estrelas para Especulações Cinematográficas. Obra que dialoga com outro ótimo livro sobre cinema a partir dos anos 1970 (a época da chamada Nova Hollywood), Como a Geração Sexo-Drogas-e-Rock'n'Roll Salvou Hollywood, de Peter Biskind, citado por Tarantino, tão imperdível quanto o livro dele.