Maigret vai à Holanda

 

MAIGRET VAI À HOLANDA

Miguel Carqueija

 

Resenha do romance policial “Maigret e o crime na Holanda”, de Georges Simenon. Livros do Brasil, Lisboa-Portugal, sem data. Coleção Vampiro 394. Tradução: Paulo de Mello Barreto. Capa: A. Pedro. Título original: “Un crime en Hollande”. Copyright 1963 de Georges Simenon.

 

Belga de nascimento, Georges Simenon é um gigante do romance policial do século 20, com uma longa série de romances habilíssimos na singular figura do corpulento, tranquilo e inteligente Inspetor Maigret, da polícia parisiense.

Tudo gira em torno do assassinato de Conrad Popinga, professor da Escola Naval em Delfzijl, vila situada no norte da Holanda. Jean Duclos, professor da Universidade de Nancy, na França, por infelicidade era hóspede de Conrad, sendo visto como suspeito. Ele avisou a universidade e de algum modo a Polícia Judiciária da França resolveu enviar um dos seus melhores homens, isto é, Maigret, para auxiliar na investigação.

Maigret tem métodos peculiares e nunca se apressa. Os leitores podem não enxergar, mas ele calmamente vai varando a barreira que oculta a verdade.

O inspetor local, de nome difícil de pronunciar, Pijpekamp, parece ter certo ciúme da presença de Maigret. Estando um tanto “tocado”, ao ver Maigret descobrir que o barqueiro, Bijpekamp estava na área quando o crime foi cometido, não pareceu muito satisfeito em ser passado para trás pelo investigador estrangeiro.

“Por causa do “bagaço” a voz de Pijpekamp era mais forte do que de costume; os seus gestos, mais violentos e as suas decisões ressentiam-se desse estado de excitação anômala.

Queria mostrar-se categórico. Estava perante um colega estrangeiro e empenhava-se em salvar a sua reputação, ao mesmo tempo que a da Holanda.”

O caso se resolverá numa reconstituição. Já se sabia que Popinga, homem casado, estava de caso às ocultas com certa jovem chamada Beetje, aliás ele estava tentando se livrar desse relacionamento que poderia arruinar a sua reputação.

Curiosamente, quando Maigret mostra que não está satisfeito com os indícios circunstanciais que parecem indicar o citado barqueiro, Jean Duclos faz um pequeno discurso de inversão de valores, dando a entender que era melhor se a verdade não fosse descoberta e a polícia se contentasse com um culpado de conveniência para a sociedade local:

“Desconheço a opinião de Pijpekamp, mas sei que é um inspetor muito estimado em Groningen e também aqui. E sei também que seria preferível, para toda a gente (sic), que ele pudesse anunciar esta noite que o assassino do Professor Popinga foi um marinheiro estrangeiro que esteve na vila, de passagem, e que as investigações prosseguirão, pelas vias competentes. Para toda a gente, repito: para Madame Popinga; para toda a sua família e em particular para seu pai que é um intelectual de renome; para Beetje e para o lavrador Liewens (obs. pai de Beetje)... mas, sobretudo, para os habitantes das pequenas casas da vila que observam o que se passa nas casas grandes do lado oposto do Amsterdiep e estão dispostos a seguir todos os maus exemplos, mais facilmente do que os bons... O senhor, comissário, quer descobrir a verdade apenas pela verdade... pela gloríola de resolver um problema difícil...”

Esse estranho discurso poderia ser traduzido e resumido dessa forma:

“Comissário Maigret, não é conveniente revelar aos habitantes locais escândalos de família de gente rica, é melhor arranjar um bode espiatório, um marinheiro que nem mora aqui, e deixemos a verdade de lado.”

Felizmente Maigret é um policial totalmente íntegro e não caiu nessa.

 

Rio de Janeiro, 17 de janeiro de 2025.