Confiança e medo na cidade

Zygmunt Bauman (1925-2017) foi, sem dúvida, um dos maiores sociólogos da atualidade. Suas obras tinham como objeto principal o que muitos autores chamam de pós modernidade. Bauman no inicio de sua longa produção científica usou o conceito de pós-modernidade, mas ao cunhar o termo modernidade líquida, efetivamente passou a considerar a inadequação deste conceito. Assim, no Brasil suas obras – quase sempre traduzidas pela Zahar – tratam da multiplicidade de aspectos relativos à modernidade liquida.

No livro Modernidade líquida, Bauman apresenta seus principais conceitos e introduz várias temáticas que, de fato, serão desenvolvidas em outros livros. Não é fácil ler seus livros, pois além de novos conceitos, ele também dialoga com autores cujas obras não foram traduzidas no Brasil.

No livro Confiança e medo na cidade (Zahar, Rio de Janeiro, 2009) ele reúne conferências sobre como a modernidade líquida é vivenciada no âmbito das cidades. Com um capítulo para cada conferência, são abordadas temáticas fundamentais para a compreensão da centralidade das cidades no mundo da modernidade líquida, já que a imensa maioria da população humana tornou-se parte da urbis.

No capítulo I – Confiança e medo na cidade - o autor afirma que o medo sempre esteve presente como fato constitutivo da vida nas cidades, e isso não diminuiu durante a modernidade. O próprio Estado nasce com o poder de ‘controlar’ o medo e criar, por sua vez, a sensação de segurança e ordem em seu território. O medo não existe no vazio, ele é produzido pela interação social, por interesses contraditórios, ideologias e no dia a dia das pessoas se faz presente em sua subjetividade.

Quando o medo existe, necessariamente haverá pessoas/grupos identificados como os responsáveis pela sensação/realidade de insegurança. Quase sempre o medo se manifesta com relação aos diferentes, àqueles/as que não pertencem aquele lugar e, sequer podem contar com alguma forma de proteção social. Não é à toa que os imigrantes (migrantes internos e internacionais) são associados às mazelas e crises.

A crise, seja de que ordem for, já estava instituída nas cidades (no território do Estado), e isso se explicita no desemprego, na existência de ‘classes perigosas’ e sem lugar social fora da marginalidade. Numa Europa em expansão – no contexto da modernidade – foi razoavelmente prático – livrar-se do excedente populacional (os sem lugar) para as colônias, para ‘além mar’ e, ao mesmo tempo, suprir a sociedade local de matéria prima e mercado consumidor de seus produtos.

Com a globalização não há mais espaço para envio e descarte dos indesejáveis locais e, para agravar esse cenário, nas antigas colônias, hoje países relativamente autônomos, as elites locais precisam de alguma forma ‘se livrar’ da parcela da população que não está integrada ao sistema. Assim, do sul global partem constantemente levas migratórias rumo ao norte global (a parte rica do sistema neoliberal). E obviamente esses novos imigrantes são indesejáveis em sua grande maioria, seja por sua baixa qualificação profissional, seja pelas diferenças culturais, seja pela pressão que provocam ao ‘estado de bem estar social’, supostamente existente como uma das marcas do progresso e do sucesso da economia neoliberal.

Não é por acaso o crescimento exponencial das atitudes xenofóbicas (medo/pavor ao estrangeiro) e a ampliação de politicas restritivas à imigração e/ou a concessão de direitos humanos aos estrangeiros residentes (legais ou indocumentados). Plataformas políticas xenofóbicas obtêm a cada dia ‘vitórias eleitorais’, novas leis anti-imigração e, até mesmo a recusa a atribuir nacionalidade aos filhos de imigrantes nascidos no local.

Entre outras questões atinentes às cidades – o autor apresenta as dificuldades locais em resolver ou tratar de situações originadas da própria globalização – fica a certeza de que é no âmbito do urbano que as contradições sistêmicas explodem e, curiosamente, também podem encontrar alguma solução humanizante. O poder local, apesar de limitado e muitas vezes ineficiente, é a arena onde grupos sociais se digladiam e/ou se unem na formulação de inovações no campo da sociabilidade, da produção de bens duráveis e de consumo, na construção de utopias do bem viver.

No capítulo II – Buscar abrigo na caixa de Pandora: medo e incerteza na vida urbana – o autor segue com sua argumentação sobre a centralidade, até mesmo planetária, das cidades no horizonte do que é a vida humana. A arquitetura e a própria organização do espaço urbano refletem todas as contradições de uma realidade em crise. O ‘vizinho’ não carrega as memórias de uma infância e adolescência partilhadas comunitariamente. Agora, em inúmeros casos, ele (o vizinho) é um estrangeiro, um não ‘nativo’ desconhecido e até mesmo ameaçador.

Espaços segregadores são criados como inovações, bem vindas, em prol da segurança e da proteção. Sim, pululam propagandas de prédios com câmeras e presença de guardas 24 horas, carros blindados etc. Lugares exclusivos são criados: escolas fundadas na política segregacionista; shoppings que ‘afastam’ os indesejáveis, condomínios exclusivos, praias e hotéis que aberta ou ‘sigilosamente’ selecionam seu público consumidor.

Para o autor toda essa parafernália é ineficaz diante da realidade, pois não trata as questões relativas à convivência humana, a política, a economia e a vida numa ‘cidade’ de modo a reduzir a intolerância e a xenofobia. Essas ações segregadoras só ampliam o fosso existente, amplificam o medo e a insegurança, e por fim, degradam nossa própria humanidade.

Caminhando para uma conclusão do livro o capítulo III – Viver com estrangeiros – apresenta a proposta do autor na busca de solução dos impasses apresentados até aqui. Bauman é otimista ao afirmar que nada está perdido, ainda que as atitudes xenofóbicas pareçam triunfar em vários lugares do mundo. Ele não está ‘cego’ ao crescimento da extrema direita e de seus arautos a proclamarem sua ‘distopia’.

É localmente que as relações – face to face – acontecem e, é aí que tudo pode começar a ser diferente. O vizinho não precisa ser visto como um inimigo ou alguém que contagia tudo o que toca ou usa. Melhorias nos equipamentos públicos (hospitais, escolas, creches, meios de transporte, manutenção e criação de ambientes públicos) resulta em bem estar coletivo. Isso beneficia a todos, nacionais ou imigrantes (legais ou indocumentados). A mixofilia (conviver bem com o diferente, o estrangeiro) é o caminho a ser seguido na construção de uma coexistência segura, pacífica e amigável.

É obvio que isso não apaga ou oculta as diferenças existentes entre as pessoas. O imigrante ainda terá costumes ‘estranhos’, uma linguagem característica, bem como seus hábitos alimentares, roupas e no conjunto, suas tradições. Mas é exatamente nesta diversidade que está a riqueza de possibilidades, o inusitado e ao mesmo tempo gratificante encontro. É no mútuo aceitar das diferenças (o que eu sou e o que o outro é) que cotidianamente torna mais humana a comunidade dos homens/mulheres que somos.

Bauman não tem dúvidas sobre o que historicamente constituiu nossa humanidade, “a sociedade humana nasceu com a compaixão e com o cuidado do outro...”. Quanto mais humana, mais dialogante e fraterna a sociedade pode ser. E isso não depende de uma pessoa gostar ou não, é o único caminho que nos permite superar os impasses, as crises e o ódio ao diferente. Precisamos começar por algum lugar: por nós mesmos, em nossa casa, no bairro, na igreja/religião com a qual nos identificamos, na cidade em que vivemos e sonhamos que ela seja melhor e acolhedora. Em algum momento, no dizer de Baumam, isso se traduzirá numa escala planetária. Tudo isso, nos conduz para o bem viver, para o viver bem e feliz de toda a humanidade!

William Andrade
Enviado por William Andrade em 02/02/2025
Código do texto: T8255539
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