Estava escrito!
ESTAVA ESCRITO!
Miguel Carqueija
Resenha da coletânea “Maktub (estava escrito!), de Malba Tahan. Subtítulo: “Contos orientais”. Editora Conquista, Rio de Janeiro-RJ, 7ª edição, 1955. Tradução e notas do Professor Breno Alencar Bianco.
É curioso como durante tantos anos Malba Tahan — na verdade o Professor Julio Cesar de Mello e Souza — passou por ser um verdadeiro árabe. Até a editora colocou no pórtico do livro (e de outros do mesmo autor) esta afirmação: “traduzido diretamente do original árabe”. Porém o fabulista Mello e Souza era brasileiro. O que pode ter traduzido o Professor Breno? Caso essa tradução (e não creio que o Professor Julio Cesar, embora estudioso da cultura árabe, tenha realmente escrito em árabe, a ponto de precisar de tradução) seja fictícia, o Professor Breno participa de fato somente com uma nota explicativa de quatro parágrafos, da palavra “maktub”: particípio passado do verbo “ktab” (escrever), é a expressão do fatalismo muçulmano. MAKTUB significa “estava escrito” ou melhor, “tinha que acontecer”.
Os contos de Malba Tahan são deliciosos. O primeiro, “A pequenina luz azul”, é uma sátira à hipocrisia humana e à ambição por riquezas e recompensas. O sultão El-Khamir, de Hedjaz, observando, da janela, a cidade à noite, ficou intrigado com uma distante luz azul. Ao tentar saber a origem da luz esbarrou com diversos indivíduos (inclusive de alta reputação) que pretendiam ter velado a noite inteira por razões patrióticas. Em meio a essa mixórdia de mentiras somente um não mentiu, informando-o que a tal luz era de um novo farol, só isso.
“O sábio da Efelogia” mostra como as aparências podem enganar. Um homem misterioso, vindo da Rússia e hospedado num hotel do Marrocos, em conversa com outros hóspedes mostra o que parece ser uma grande erudição. No entanto seus conhecimentos profundos limitavam-se a palavras com a inicial F, porque, preso durante anos, só teve para ler o volume de uma enciclopédia referente à letra F...
“A última vontade do Rei Hibban” mostra a esperteza desonesta de um conselheiro que consegue falsificar, a seu favor, a última vontade do rei agonizante.
“A glória de Chan-na-li”, outra pequena obra-prima, é uma história cruel sobre um sábio chinês que, embora respeitado e prestigiado, vive pobremente e passando fome, sem que o governo sequer tomasse conhecimento desta situação, ainda que lhe conferisse honrarias que não podiam ser trocadas por comida — como exemplo: o rei confere a ele o título de “grande sábio do Império Chinês” e — pasmem — a regalia excepcional de usar doze botões em sua roupa”. Dinheiro mesmo, nem em sonho.
“O nariz do Rei Mahendra” é outra prova do fino humor do fabulista. Esse rei arrogante e vaidoso possuía um nariz grande e feio, e deu-lhe na veneta mandar pintar o seu busto. E aí o terrível dilema: quem pintasse o rei com realismo, mostrando o nariz como era, arriscava a cabeça...
“Os calções de Salim” é outro conto sarcástico, onde uma gafe atinge o protagonista tão intimamente – caírem-lhe os calções na cerimônia de seu casamento – que, não suportando a zoação geral, ele foge da cidade, abandonando a noiva. História tragicômica, genial.
“O elefante do Sultão” é outra narrativa divertida, na qual o povo da capital do Marrocos vive em polvorosa por causa do bichinho de estimação do sultão, o Bukira, um elefante selvagem que de vez em quando fugia do alojamento e “devastava os pomares e jardins das casas particulares”. O pior é que a população tinha mais medo do sultão que do elefante, e ninguém tinha coragem de reclamar ao governante.
“O vendedor de conselhos” mostra como um trapaceiro e ladrão utiliza hábil jogo de palavras com segundas intenções.
“A lenda dos Bactiaris” já se passa na época das ferrovias e exploração de petróleo e fala da origem de um povo da Pérsia.
“O pescador de pérolas” vê o Islã pela ótica de um inglês. Percebemos que Malba Tahan, mesmo aficcionado pela cultura muçulmana, está consciente das suas idiossincrasias. Pois quando o protagonista faz uma pergunta aparentemente inocente a um marujo, este responde em inglês, e a tradução é esta: “É melhor que eu me cale. Estamos entre muçulmanos intolerantes. A prudência é o escudo dos que se sentem inseguros.”
“Os gansos de Natal” já é uma história ocidental, passada na Espanha; é uma das brincadeiras matemáticas de Malba Tahan, onde um mestre-escola deve calcular a divisão de seis gansos (um deles já assado e os outros cinco vivos) por sete pessoas, ele próprio uma delas. O texto mostra como ele consegue levar vantagem na divisão; ele começa argumentando que “ganso assado e ganso vivo são quantidades de espécies diferentes, isto é, heterogêneas, e não podem figurar, em conjunto, numa divisão”.
“O colecionador de coincidências” é outra diversão com números, no caso relacionados a pessoas, mas inclui também outros fatores.
“Devoradores de reis” é conto enxadrístico e brinca com o equívoco de tomar expressões ao pé da letra.
“A lenda do País Perdido” é um entrecho significativo: guerreiros terríveis de uma tribo do deserto, ao voltarem de um raide já não encontram sua cidade, aparentemente soterrada por violenta tempestade de areia. Assim sem seu reduto e famílias, ficam errantes pelo deserto e são presa fácil dos inimigos que antes venciam facilmente: “Eles eram valentes, generosos e bravos; e só se deixaram vencer, quando já não tinham por quem combater na vida: nem Pátria, nem Família!”
“O elefante furioso” (subtítulo “Parábola hindu”) é uma vinheta patética, que mostra como é melhor ser prudente do que esperar que Deus faça milagres para nos satisfazer.
“Sassevasá” é um mini-conto sobre loucura: o sujeito que falava as palavras de trás para diante.
“O castigo” volta a mostrar o ser humano como um ser caviloso e falso.
“O homem maravilhoso” é outro entrecho patético, sobre um sujeito que ia sempre à biblioteca e era tido como um grande erudito, mas... as aparências enganam. Malba Tahan é um mestre da ironia.
“A primeira pedra”, vinheta apresentada como uma lenda oriental, parece uma releitura da famosa parábola de Jesus Cristo.
“O Clube dos Silenciosos” é outra ironia, onde um homem que se julga amante do silêncio é recusado no clube que dá título ao conto, e isso porque portava um relógio com seu quase inaudível tic-tac.
“A sopa” – que se inspira no folclore árabe – é história filosófica sobre a proporcionalidade das punições em relação ao tamanho das faltas.
“As mercadorias do diabo” é conto sobre o sábio El-Khidhr, que encontra na estrada, indo para Babilônia, nada menos que o diabo, conduzindo seus camelos e com mercadorias. Indagado sobre a quem ele pretendia vender, o maligno responde: “Venderei a Injustiça aos magistrados; os ricos de mim comprarão a Avareza; a Vaidade será adquirida pelas mulheres; a Perfídia pelos políticos; o Egoísmo será para atender aos poderosos; e a Ambição será comprada, na certa, pelos mercadores.”
“A lenda da vela azul” lembra o ditado “pimenta nos olhos dos outros é refresco”. O Rei Hassan Kamir, com a ajuda de um feiticeiro, quer promover uma mágica para ridicularizar seus próprios convidados numa festa; mas recua desse propósito ao saber que a própria rainha seria prejudicada.
“Cão três vezes” mostra os vários significados que pode ter uma única palavra.
“O palácio das mil e tantas luzes” é outro conto anedótico onde, só por falar nos sonhos em voz alta, é confundido com um príncipe.
“A fumaça vendida” é outra pérola de sabedoria, sempre utilizando o modo de falar cheio de salamaleques dos muçulmanos. Fala de um cheique ganancioso que se julga com o direito de cobras pela fumaça de um assado de carneiro.
“O gato do cheique” mostra que a ambição pode resultar em efeito contrário, como no ditado “quem tudo quer, tudo perde”.
“Bom, mas não muito” parece um esquete de rádio, com o “Seu Concordino”, que concordava com tudo o que se dizia.
“Meu Natal em Bagdá” conta em forma pitoresca a verdadeira origem da inspiração de um poeta – algo que não se pode pagar com dinheiro.
“O sonambulismo do rei” é uma vinheta bastante pessimista em relação ao que se pode esperar de um governante – mesmo que ele esteja dormindo.
“As três sentenças do bom juiz” é outro conto que brinca com as circunstâncias e como elas podem resultar em situações difíceis até para um juiz. No caso o personagem Chafik é atingido violentamente na vista por uma bola arremessada num jogo entre três sujeitos: um alfaiate, um caçador e um flautista. Não se sabe qual deles causou o acidente. Que fará o juiz para satisfazer o queixoso? E que têm a ver com o caso as profissões dos jogadores? É uma boa pergunta.
“O oleiro e o poeta”: outro singular caso jurídico, onde o poeta queixa-se de ter os seus versos deturpados pelo oleiro. Como o juiz resolverá isso?
“O padre pulava um número”, outro conto que brinca com a matemática, matéria da qual Malba Tahan era professor, não esqueçam; fala de um sacerdote budista que dá um recado sutil ao pular o número 32 numa contagem regressiva. Aqui o autor refere-se a uma estátua de Buda como ídolo, mas isso me parece equívoco pois os budistas, que eu saiba, não adoram Buda, que é afinal de contas um homem, o fundador de sua religião.
Em “Pelo amor de uma estátua” um mendigo pretende ser o herói representado na referida escultura.
“São Tomé e o Doutor Papagaio” é outro conto patético, onde um freguês é tapeado e compra um papagaio julgando que o mesmo é um sábio e sabia falar muitas coisas; só que o vendedor espertamente trocou várias vezes o papagaio da vitrina, e cada um dizia uma frase diferente, mas eram iguais na aparência.
“Os sósias do rei” fala nas semelhanças físicas e nas semelhanças morais; outra interessante fábula filosófica.
“O príncipe e o filósofo” trata do encontro entre Confúcio e o Príncipe Hi-Chang-Li – uma vinheta bem rápida.
Passamos para “O conselho árabe”, que focaliza uma atividade criminosa pouco conhecida no Brasil: o roubo de camelos!
“Ingratidão exigida” é outra história que explora com maestria as contradições da espécie humana. E de quebra conta uma fábula clássica das Mil e uma noites, a do pescador e o gênio da lâmpada.
“Não é verdade, nem mentira” é um jogo de lógica e de palavras, muito hábil, algo bem Malba Tahan.
O último conto, “Plante árvores pela estrada”, é extraído do folclore árabe. É uma joia de sabedoria, na interpretação de um conselho paterno. O personagem Omar Nejm, ao partir para uma longa viagem, julga que seu pai está demente, por ter este recomendado ao rapaz que plantasse árvores pela estrada e fizesse uma casa em cada vila, aldeia ou cidade que visitasse. Só que o conselho era simbólico, e não para ser seguido ao pé da letra.
Em suma, Malba Tahan, nosso grande fabulista — mesma família literária de Esopo, Irmãos Grimm, La Fontaine, Perrault, Cônego Schmidt, Andersen e Oscar Wilde — é um mestre do conto curto e filosófico.
Rio de Janeiro, 21 a 27 de setembro de 2024.