Antes de 1984

 

ANTES DE 1984

Miguel Carqueija

 

Resenha do romance “Um pouco de ar, por favor!”, de George Orwell. Editora Pé da Letra, 2021. Título original: “Coming up for air”. Capa: André Cerino. Tradução: Carlos Kiss.

 

Especialmente conhecido por seu romance distópico “1984”, várias vezes filmado, e pela fantasia alegórica “Animal farm” (A fazenda dos animais), conhecida no Brasil como “A revolução dos bichos”, Orwell deixou outras obras que agora estão chegando por aqui. Ele escrevia um mundo sórdido, com personagens mal resolvidos, egoístas e profundamente infelizes.

O personagem central de “Um pouco de ar, por favor!”, George Bowling, de 45 anos, narra na primeira pessoa. Ele é o que se poderia chamar um cidadão comum e até medíocre, e a sua visão do mundo e de si mesmo não é das melhores. É gordo e embora se defenda, dizendo “E eu não sou o que chamam um gordo nojento, pois não tenho uma daquelas barrigas que caem até os joelhos” e que é “aquele tipo ativo e saudável de homem gordo que chamam de gordinho, gorducho, o cara que dá vida ao lugar, é a alma da festa”, mesmo assim sua auto-estima parece baixa: “Nenhuma mulher olharia duas vezes para mim, a menos que eu pagasse”.

O eixo da história é que George, um homem de classe média, ganha um dinheiro extra na corrida e resolve esconder isso de Hilda, a sua esposa. Dá para notar que ele não é muito entusiasmado nem pela esposa nem pelos filhos.

Entre as muitas coisas que o narrador conta do seu passado numa pequena cidade do interior, tem o lance em que o pai resolve tirá-lo da escola e pô-lo a trabalhar por causa das dificuldades que estava atravessando. Em resumo, o grande comércio estava sufocando o pequeno, sem que os comerciantes pequenos, acostumados com um mundo parado, entendessem o que realmente se passava:

“— George, meu garoto, eu tenho que lhe dizer. Eu estava pensando sobre isso, e já é hora de você sair da escola. Receio que terá de trabalhar agora e começar a ganhar um pouco para ajudar em casa. Escrevi para o Sr. Wicksey ontem à noite e disse a ele que você terá que sair da escola.

Isso era normal: escrever primeiro para o Sr. Wicksey antes de me dizer. Os pais naqueles dias, como é óbvio, sempre decidiam tudo sem consultar os filhos.”

A visão de Orwell é bastante pessimista em relação à natureza humana. Isto se manifesta na decepção de George ao voltar, na viagem clandestina que faz escondendo da família — pretextando viagem a serviço — para rever suas origens. A cidade mudou ao ponto de ficar irreconhecível; quase todo mundo morreu; a garota de quem ele gostava tornou-se uma adulta despida de atrativos, e nem sequer o reconheceu. E até a lagoa secreta, onde abundavam peixes grandes, foi descoberta pelas multidões.

Em poucos anos — dos anos imediatamente antes da guerra de 1914-1918 e os imediatamente posteriores — o mundo mudou para pior e George ainda vive assombrado com os bombardeios que virão — e pelo que o texto dá a entender, o bombardeio aéreo sobre a Inglaterra — que realmente veio em 1941 — era um pensamento aterrador então comum aos ingleses: a nova guerra virá e os aviões do inimigo nos atacarão.

Acho estranho o personagem-narrador dizer que nunca encontrou uma pessoa que realmente cresse na vida após a morte. Creio que George Orwell era ateu, para fazer o seu xará-protagonista emitir uma afirmação absurda como essa.

O livro tem umas 270 páginas com algumas fotografias (como do Rio Tâmisa com o Castelo de Windsor) e é fundamentalmente um livro britânico e muito detalhista e trabalhado.

 

Rio de Janeiro, 2 de novembro de 2022.