São Tomás e o "Compêndio de Teologia"

SÃO TOMÁS E O “COMPÊNDIO DE TEOLOGIA”
Miguel Carqueija

Resenha do livro “Compêndio de Teologia”, de São Tomás de Aquino. Editora Presença, Rio de Janeiro-RJ, 1977. Tradução, prefácio e notas: Dom Odilão Moura, OSB.

São Tomás de Aquino, chamado o “Doutor Comum”, e que faleceu em 1274, até hoje é geralmente reconhecido como o maior teólogo e filósofo de todos os tempos, e segundo Dom Marcos Barbosa OSB, a sua obra nunca foi superada. Seu trabalho mais conhecido é a monumental “Suma Teológica”, composta de muitos volumes, mas existem outros títulos na obra deste grande luminar da Igreja Católica.
O “Compêndio de Teologia”, mesmo sendo um livro de volume considerável, é considerado um dos seus opúsculos. São mais de 300 páginas onde a doutrina da Fé é exposta de maneira científica, sóbria e concisa. Devemos reconhecer também que a introdução e as muitas notas espalhadas pelo monge beneditino Dom Odilão Moura (a quem conheci pessoalmente) são profundamente esclarecedoras.
Advirto que um livro como esse deve ser lido com muita atenção e sobretudo cuidadosamente. No seu esmerado prefácio Dom Odilão comenta: ”O Compêndio de Teologia está prenhe de doutrina filosófica, e nele estão expostas as teses fundamentais do tomismo: a intuição e a realidade do Ser; o ato e a potência, a essência e a existência como princípio do Ser; a divisão deste em substância e acidente; a matéria e a forma como princípios essenciais do ser corpóreo; o conhecimento sensitivo e o conhecimento intelectivo; a unidade e as potências da alma humana, a unidade de Deus e os seus atributos”.
Foi de fato lendo este volume magnífico que eu compreendi melhor — dentro é claro, e bem dentro, dos limites do fraco entendimento humano — a natureza de Deus e a explicação da Santíssima Trindade como diferença apenas de relação nos atributos principais do ser divino: Deus em sua essência de Criador eterno (Pai), seu pensamento ou verbo eterno (Filho, o Verbo) e, conhecendo-se perfeitamente e conhecendo toda a Criação, ama a si e aos seres criados — o Amor divino (Espírito Santo).
O estilo do teólogo pode ser seco mas é claro e límpido, sem subterfúgios. Ele se demora um pouco, por exemplo, na questão da bondade divina. É uma questão importante, visto que os antigos cultos pagãos insistiam na visão de “deuses” impiedosos, que exigiam sangue humano (leia-se “Salambô”, de Gustave Flaubert). E mesmo entre os cristãos essa bondade substancial foi às vezes substituída pela figura de um Deus carrancudo e implacável no castigo dos pecadores, quando o próprio Cristo declarou que há mais alegria no Céu por um pecador que se arrepende que por 99 justos que perseveram (Lc 15,7). E eis o que diz São Tomás:
“O que inere essencialmente a alguma coisa não lhe pode faltar, como também não se pode tirar o gênero animal da espécie humana. Por isso, nem é possível Deus não ser bom. Tomemos um exemplo mais adequado: assim como não é possível que o homem não seja homem, também não é possível que Deus não seja perfeitamente bom.”
Assim temos no “Compêndio de Teologia” uma leitura altamente aconselhável para todos os leitores capacitados para absorver estudos doutrinais mais aprofundados.

Rio de Janeiro, 10 a 24 de dezembro de 2016.