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"Hidra inofensiva para heroísmo nenhum" - 'Romance' em fragmentos - Em e-livro no Recanto das Letras
 


 
Após a publicação do meu 3º livro de poemas “Flores do Outono” em 2008, começou em mim a necessidade de publicar mais outro com textos em prosa. Dessa necessidade nasceu “Hidra inofensiva para heroísmo nenhum”, que acaba de vir à luz. Como fiz um número pequeno de exemplares, resolvi colocá-lo como e-livro no Recanto das Letras para que todos os amigos interessados em lê-lo possam ter acesso ao seu conteúdo livremente. A seguir o breve ‘prefácio’ que eu mesma para ele escrevi.    
 
 
 
 
Sobre “Hidra inofensiva para heroísmo nenhum”, por Zuleika dos Reis


 
 
Livro de contos? Alguns textos, creio, podem ser classificados assim. Livro de crônicas? Há textos que o são, crônicas; outros tantos, prosa poética. De vários posso afirmar que não pertencem, claramente, a gênero específico. Relatos ficcionais? Pura miscelânea? Talvez embrião de romance que, na quase totalidade dos escritos, os mesmos personagens reaparecem, a comporem um mosaico, ou um vitral, ou evanescências, como imagens de caleidoscópio. Embrião de romance, coletânea de textos “degenerados”... isto é, nada sendo, desde o título, Hidra inofensiva para heroísmo nenhum.
 

 
   ÍNDICE (textos todos publicados, autonomamente, no Recanto)


 
1 -    A visita da mulher aranha
2 –   Aleph não quer me dar o mundo
3 -   Apátridas
4 –  Asas do desejo
5 –  Até mais, Ofélia
6 -   A reforma da casa
7 –  Cenas de casamentos
8 –  Cidade inaudível                      
9 –  Depoimento a um pai pós-filhos
10– Destessitura
11– Em viagem
12 – Hoje é dia de Cecília, educadora
13 – Indícios
14 – Manuscrito- carta
15 – O estupro
16 – O sétimo lado do cubo
17 – O vitral
18 – Os elementos
19 – Os passageiros
20 – Ouço Segóvia
21  - Prelúdio de Natal para sexteto de cordas
22 -  Propriamente dito

23 -  Turca em retrospectiva
24 -  Um dia um lobo
25  - Um grito enorme que ninguém ouve
26  - Volta para casa
27 – Zoraia – O último capítulo

 


                            Um  texto do livro:

                   ATÉ MAIS, OFÉLIA
                   
 
         A mulher vai passando silenciosa pelo homem que toca violino junto aos mendigos da Estação República.
         Peter Pan encontra a pedra de crack no bolso da calça jeans e se põe a sonhar... Wendy, ao seu lado, também se põe a sonhar...
         O olhar do homem que entra no Franz e aguarda o café expresso não se parece com um céu em chamas. Enquanto toma o café, apenas vê os brancos garçons suspensos por seus fios invisíveis.
        O céu baixíssimo protege a velha biblioteca com seus ratos de outros tempos.
          O palhaço com imensas pernas de pau atravessa o Viaduto do Chá, anunciando... Você só fala, fala, mas não faz nada, diz a balconista, que por um instante largara o balcão e estava à porta da loja.
          Fernando Pessoa cumprimenta timidamente a mulher, que continua a passar silenciosa. Ele lhe faz um gesto como quem diz: Isso também passará. O poeta atravessa a Rua Direita com o chapéu em uma das mãos e na outra um gatinho que acabou de recolher  da calçada.
         O homem que toca o violino vem, cercado pelo séquito de mendigos. O homem que toma café no Franz se cose à parede. Um rato pardo, que acabou de sair do bueiro, tem nos olhos a certeza de que o mundo perfeito não precisa, absolutamente, de queijos. Tento surpreender nele algum ar de mártir cristão ou de monge zen, mas já desapareceu.
          Fernando Pessoa solta o gatinho, despe o casaco e se põe a dançar, frenético. Ele grita Ofélia vem dançar vem dançar vem dançar e a multidão que se dirige à missa também grita Ofélia vem dançar vem dançar vem dançar.
            Ofélia dança e vai soltando, um por um, todos os seus véus e nua, continua a dançar.
          Fernando Pessoa para, veste o casaco, pega o chapéu do chão com o gato dentro e se despede: Até mais, Ofélia.

 


 
 
 
 
Zuleika dos Reis, paulistana, estreia na literatura com Poemas de Azul e Pedra (1984). Em 1989 publica Espelhos em Fuga, pela Editora Objetiva e, em 2008, Flores do Outono (tankas) pela Editora Arte Paubrasil. Participa de As Quatro Estações, haicais, (1991), da Antologia do Haicai Latino-Americano (1993), antologias publicadas pela Aliança Cultural Brasil-Japão / Massao Ohno Editor; também de Natureza – Berço do Haicai (kigologia e antologia), 1° edição em 1996, livro-referência para haicaístas, organizado por H. Masuda Goga e Teruko Oda; em 2006 obtém o primeiro lugar no 18° Encontro Nacional de Haicai e, em 2007, a quarta colocação no Concurso de Haicai do 29° Festival das Estrelas, tradicional festa japonesa que se realiza anualmente no bairro da Liberdade. Sua poesia é apresentada por Nelly Novaes Coelho no Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras (2002), pelo selo Escrituras. Boa parte do seu trabalho em poesia e prosa está nos sites Recanto das Letras e Palavras, todaspalavras.

 
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Um belíssimo poema saudando o "Hidra", por meu muito querido amigo Luís Carlos Facuri. Grata, caríssimo!


CATARSE?... É CATAR-SE!
                                 ...(ainda sem gravuras)...


                                                *

                                         

                          Quando meu moinho mitigado,
                               estava quase cessando,
                           forças de pás alheias ao lado,
                    ajudaram a impelir o vento e girando...

                          De esperança em esperança,
                        havendo desesperança incerta,
                        comparo a uma hóstia profana,
                        ora valendo-se aqui de alerta...

                           Tudo se acabou chegando,
                        quando no retorno insisti crer,
                        igualmente ouvindo e tentando,
                     decifrei um enorme grito se romper...

                           Grito do sentido da vida,
                 não arfado pela mudança da casa,
                   duma tatuagem não mais querida,
                  conseguir removê-la de forma rasa...

                        Tatuagem de imensa idade,
                         porém, hoje sem sentido,
                           seu nome foi saudade,
                       agora é passado, só alarido...

              Quando ganhei e perdi no mundo de outrora,
                          não foi por desmerecimento,
                    outro novo mundo poderá ser agora,
               sem a loucura atenuante, mas com alento...

                  ...alento e ausência do estupro moral,
                    da opção ao repúdio e ao manifesto,
                   da não coincidência das coisas do mal,
           pela assunção às coisas do bem, sem pretextos...

                     Tudo com sua importância e noção,
                 de que incompletos seriam os elementos,
                  não fosse eu minha própria obstrução,
                   único causador dos meus ferimentos...

                         Se não for pelo merecimento,
                            vá, que seja por teimosia,
                              pois não mais sustento,
                        transformar desafios em poesia.

                           Nas asas do desejo me vejo,
                           cavalgando um alado cavalo,
                      levando para o alto e num lampejo,
              a caixa de Pandora com os males dissipados...

                          Tão sensíveis são as paredes,
                       nas ditas cidades surdas doentes,
                 onde sepultado perenemente e com sede,
            encontrei o silêncio gritante do coletivo inconsciente...

                 Também descortinei neste acervo exuberante,
                         de modo perpetuado e emudecido,
                              um sussurro meu e arfante,
                      de um ido tempo perdido e esquecido.

                  Lá, onde a sombra e a umidade se coadunam,
                onde o sol é desnecessário não mais importando,
                       inóspita fronteira entre o ser e a lacuna;
        Cá, com o milagre da semente da esperança germinando...

                        Germinando sem a dissimulação do cínico,
               tampouco a vaidade do clérigo que se mostra portentoso,
            mas com a lucidez e transparência do cético em seu íntimo,
              o que não o torna menos digno ante um crente caridoso...
         
                             Na escalada do insólito esperado,
                               uma rara visão me foi notada,
                              deixaria Franz Kafka alucinado,
                        tamanha a mulher-aranha descortinada...

                           Qualquer lobo solitário como eu sente,
                                o quão se faz na urbe noturnal,
                             cuja auto-defesa jamais desmente,
                               o que poderá ser uma hidra fatal!

                                   Quiçá uma hidra* inofensiva,
                                      para heroísmo nenhum,
                                      ou será então casuísmo,
                                 dum herói surgido para algum?


                                                       *


                                           Luís Carlos Facuri




             REF.: (*) Hidra Inofensiva para Heroísmo Nenhum -

     * título do último e recente livro editado pela autora e poetisa

                                  *   ZULEIKA DOS REIS   *

                                  _____________________
     

 
Zuleika dos Reis
Enviado por Zuleika dos Reis em 09/01/2017
Reeditado em 13/01/2017
Código do texto: T5876420
Classificação de conteúdo: seguro

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