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Claro Enigma -- Resumo Geral - Literatura: pesquisa geral - diversos autores



Claro enigma,  de 1951 – temas, contextos, poemas, opiniões de teóricos.

Aula 31 - Claro Enigma -- Resumo Geral - Literatura - Loucos Por Saber - Professor Emerson – “O impossível é uma questão de opinião”

https://www.youtube.com/watch?v=WUDq3LpH5Gs
ENIGMA+ CLARO – PARADOXO ou forma ou figura paradoxal ou contraditória
ENIGMA: INCOMPREENSÍVEL, obscuro, MISTÉRIO – INDECIFRAVEL
POEMA A MÁQUINA DO MUNDO: melhor poema do século XX
Claro: ter clareza, objetividade, descoberta, ciência, saber que desvenda os sentidos, que dá clareza pelo conhecer e investigar.
Veja o exercício do professor: acima no Youtube - O livro pertence ao MODERNISMO BRASILEIRO DA SEGUNDA FASE: 1930-1945 – O fusionismo é uma das características (do barroco) do poema de Drummond e não da poesia toda dele. O livro não é só de soneto, nem é a primeira produção do poeta.
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Claro Enigma - Gazeta do Povo - Prof. Giba
https://www.youtube.com/watch?v=Cut-K35vZs8

Drummond é da Geração de 1930. Ele faz uma ruptura com o engajamento anterior como em Rosa do Povo e outros poemas seus. É ujm desencanto com o mundo (característica pós-moderna: desengano ou desilusão com a modernidade.)
Homenagem a Mário de Andrade, Camões, etc.
Versos livres, também chamados irregulares, em língua portuguesa definem-se como versos que não possuem restrição Métrica. Origina-se do francês vers libre, donde seu uso sistemático é chamado de versilibrismo. ... http://pt.wikipedia.org/wiki/Verso_livre
Versos brancos são os que possuem métrica, mas não utilizam rimas. Desde o século XVIII temos como exemplo o poema "O Uraguai" (1769) de Basílio da Gama e no século seguinte os românticos também o empregaram como Álvares de Azevedo e Fagundes Varela.
Linguagem coloquial
Desencanto com a modernidade – conflito eu-mundo
Temática filosófica e clássica – O poema é paradoxo (como um enigma pode ser claro? Trata-se da crise ou fim da fase engajada do poeta: desiludido com a modernidade e o poeta está pensando na morte.) retoma Os Lusíadas (Vasco da Gama conquista o mundo e a ele é revelado o funcionamento do mundo cojmo uma máquina ou ciência ou saber) em A Máquina do mundo. O eu mais amargo, mais filosófico, questiona mais, retórico, Claro enigma volta a temas clássicos e ao soneto camoniano. Camões é um autor clássico e sonetista latina. O poema A mesa é uma rememoração ao pai que não gosta de festa. O poema Amar é a condição do homem.
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Carlos Drummond de Andrade – de Schneider e Thiago Minani.  Disponível em: http://videversos.blogspot.com.br/2012/08/analise-de-claro-enigma-carlos-drummond.html>. Acesso em: 30/07/2016.
Claro Enigma" abandona o tom coloquial e aproxima-se de temas mais abstratos “Les événements m’ennuient", ou "os acontecimentos me entediam". A epígrafe, de autoria do poeta francês Paul Valéry, prenuncia a temática predominante em Claro Enigma (1951), a melancolia e o desencanto com a vida que se encaminha em direção à morte. Desenganado com a capacidade de intervir no mundo, Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) experimenta o fim da esperança engajada que conhecera em meados dos anos 40, no seu outro livro A Rosa do Povo.
 "O poeta volta-se para os seus mitos, dá razão ao inato transcendentalismo, colocando-se a par dos grandes poetas do idioma. Não mais a lírica admiração do próprio ego, mas o descortino dos arquétipos", na opinião do crítico Massaud Moisés.
É a poesia metafísica, para Affonso Romano de Sant’Anna, "une o choro individual ao coletivo".  Este sombrio retrato é feito do sentimento de culpa que oprime o poeta e da visão crepuscular que dá o tom da obra: a noção da impossibilidade, estabelecida entre o transitório e o definitivo, a essência das coisas e seu fracasso diante do tempo. Marca-se, também, a volta definitiva de um tema fundamental: o amor, descrito sempre como vivência dolorosa.
Do ponto de vista formal, Claro Enigma afasta-se do estilo livre e coloquial dos modernistas; divide-se em seis partes: Entre Lobo e Cão; Notícias Amorosas; O Menino e os Homens; Selo de Minas; Os Lábios Cerrados; A Máquina do Mundo.
Aqui o poeta se mostra mais atento à métrica e à forma dos versos, atitude tomada pela crítica da época como um retrocesso. Mas logo comprovou-se que Drummond tinha plena consciência dos riscos de alienação existentes na arte pela arte. A releitura de formas antigas fortificou seus versos.
A Máquina do Mundo é considerado por muitos o maior da literatura brasileira. Esse título faz alusão ao trecho de Os Lusíadas em que a Vasco da Gama é revelado o funcionamento da máquina do mundo, após o navegador ter conquistado o caminho para as Índias. Todo composto em tercetos, a versão do poeta mineiro mostra o eu-lírico que, durante um fim de tarde, recebe a visita da máquina. Circunspecto, ele a desdenha friamente. Então a experiência, que a princípio parecia grandiosa, se desfaz: "(...) baixei os olhos, incurioso, lasso,/ desdenhando colher a coisa oferta/ que se abria gratuita a meu engenho".
Revela-se aí o conflito fundamental eu-mundo, presente em toda a obra de Drummond, a recusa que faz da tentativa de entender a história, tal como experimenta em A Rosa do Povo. "É o clímax da trajetória do gauche (palavra francesa que significa ir contra a... ser do contra..., ser oposição), quando sujeito e objeto se fundem, a aparência e a essência se integram", diz o crítico Affonso Romano de Sant’anna.

O CLARO ENIGMA DE UM TÍTULO:      Tieko Yamaguchi Miyazaki (UNEMAT)      Julieta Haidar (ENAH) AMAR, DE DRUMMOND DE ANDRADE
 Amar, este poema de Drummond de Andrade, em  Claro enigma,  de 1951, juntamente com outro poema do mesmo autor, O enterrado vivo, d’ O fazendeiro do ar,  de 1954, foram objeto de um ensaio publicado  na  Revista de Letras,  da Universidad de Puerto Rico, em Mayagüez, em 1975.
Uma das razões de reunir em um mesmo trabalho poemas foi a disforia (disforia: substantivo feminino – psicopatológico estado caracterizado por ansiedade, depressão e inquietude.) marcante em ambos, de enunciação contundente no segundo e amargurada no primeiro.
A antipoeticidade das palavras cruzadas, para Greimas parte de um inventário de definições de sentido para chegar-se ao não-sentido das denominações, a linguagem poética parte do aparente não-sentido para o sentido. Essa figura estilística: a distância entre duas expressões diferentes de um mesmo conteúdo. Esta conceituação pressupõe, de um lado, a dicotomia expressão vs conteúdo e, de outro, a dicotomia equivalência vs distância.
O trabalho do leitor consiste na identificação da distância, isto é, das expressões diferentes e, a seguir, na supressão dela através da identificação de um mesmo conteúdo.
A figura estilística é, portanto,  uma figura que se dá no discurso,  lugar de encontro do significante e do significado,  lugar também de distorções devidas às exigências contraditórias da liberdade e das injunções da comunicação, às oposições das forças divergentes da inércia e da história. (GREIMAS, 1966, p.42, trad.nossa).
Em todo discurso, as unidades sintáticas servem de quadro a um tipo específico de  isotopia: uma isotopia gramatical que se manifesta graças à concordância e à recção. Constituída de um pequeno número de classemas, a isotopia gramatical se encarrega não propriamente da manifestação do conteúdo,  mas de sua  transmissão. Greimas identifica  essa função gramatical com a função fática jakobsoniana
A mesma isotopia gramatical liberada pela identidade posicional, sintática dessas duas definições continua a manifestar-se no final da estrofe: (amar....)  e o que , na brisa marinha,             É sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia. Ao lado dessa identidade, duas diferenças se impõem: primeiro, a substituição das predicações funcionais por predicações qualificativas; depois, a importância do sintagma preposicionado na brisa marinha.          As expressões  sal, precisão de amor, simples ânsia são equivalentes quanto à posição sintática e o são também quanto à localização no verso. As três  expressões segmentam a unidade formal do verso em partes bem determinadas. A distância entre elas se situa na motivação semântica direta de  mar-praia-brisa-marinha-sal , e na motivação metafórica  – hipotática das duas outras. Entre  brisa marinha - sal  há uma relação hiponímica, de parte para parte no todo  mar.  Isso não acontece entre  brisa marinha - precisão de amor - simples ânsia.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
ANDRADE, C.D. de .      Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar. 1988.
BANDEIRA, M.               Poesia e prosa. 2ª Ed. Rio de Janeiro; Aguilar. 1967.
GREIMAS, A.J.               Sémantique structurale. Paris: Larousse. 1966.      Du sens- Essais sémiotiques. Paris: Seuil.1970. _____________ et alii      Essais de sémiotique poétique. Paris: Larousse. 1972.
HAIDAR, J. e MIYAZAKI, T.Y.   Dos poemas de Carlos Drummond de Andrade. In: Revista de Letras. Porto Rico, 25-26, p. 18-56.
O Exercício da Lucidez em Claro Enigma Cristiane Escolastico Siniscalchi Universidade de São Paulo (USP) Mestrado em Letras sinisescol@uol.com.br Estudiosos da poética drummondiana têm, freqüentemente, assinalado a investigação existencial de tom impessoal como a nota mais forte de Claro enigma (1951) e dos livros habitualmente associados à sua poética — Novos poemas (1948), Fazendeiro do ar (1954) e A vida passada a limpo (1959).
José Guilherme Merquior (1972), um de seus principais críticos, chega a nomear como “Quarteto metafísico” o subcapítulo em que discute a hipertrofia das questões de ordem filosófica nos livros mencionados e sua realização em estilo puro.
 Outros críticos, como John Gledson (1981) e Affonso Romano de Sant’Anna (1992), eximem-se de fixar, categoricamente, o período como “metafísico” ou “filosófico”, mas apontam a presença de um conteúdo intelectual marcante nos poemas e suas possíveis “bases filosóficas”.
Considerando o conjunto de discussões oferecidas pela fortuna crítica (termo publicitário ou técnico para o conjunto de reflexões e artigos científicos e literários ou acadêmicos), conclui-se que a identificação de uma tendência “filosófica” ou “metafísica” na poesia de Drummond decorreu de três fatores principais:
1) o abandono de temas ancorados na matéria histórica em nome de reflexões aparentemente universais e atemporais;
2) o conteúdo fortemente cerebral; e
3) a substituição da stilmschung, que caracterizara a poesia anterior, sobretudo de José (1942) e A rosa do povo (1945), pelo estilo “puro”, que supostamente se presta a temas mais nobres.

De fato, introduz-se uma abordagem mais central e intelectualizada dos assuntos, que, confrontados com as emoções figuradas pelo discurso, tornam-se objetos do raciocínio.
Cristiane Escolastico Siniscalchi (1976), uma perspectiva ontológica, Drummond preocupa-se em estabelecer procedimentos que lhe permitam o conhecimento da realidade última dos seres e o julgamento das idéias falsas que confundem o pensamento, rejeitando certezas e crenças estabelecidas, buscando explicações para o que o cerca e analisando como o mundo aparece para a consciência. Esse movimento cerebral não implica, contudo, uma limitação da subjetividade, pois a experiência objetiva é vivida pelo sentimento, que impregna a linguagem e determina a confecção da rede imagética do texto. O poeta está atento à dimensão ética dos eventos, que observa atentamente e digere com muita propriedade, não raro expressando o movimento coletivo na primeira pessoa do singular e emoções individuais na primeira pessoa do plural, superando lapsos entre individualismo e parceria. Não obstante, parece preferível o uso da expressão “poesia de investigação existencial” a recorrer aos adjetivos “metafísica” ou “filosófica” para descrição dessa poética.
O Exercício da Lucidez em Claro Enigma falaciosas e explicita sua percepção de uma temporalidade vazia, mas condói-se pela impossibilidade de entrega à idealidade e à expressão mitopoética.
Nesse sentido, é importante notar que Drummond não escolheu para assumir a voz oracular e fazer revelações sobre o mundo a figura do eirón, isto é, do sujeito lúcido. A lucidez do eu lírico de “Cantiga de enganar”, responsável por tantas revelações, é colocada em xeque por sua caracterização inicial como alazón, mostrando que toda a cautela do sujeito, que enxerga e denuncia inúmeras ciladas, não garante que veja aquela em que vai cair: a crença em poder defender-se contra o mundo. A voz que revela o mundo será aquela que proclama o silêncio dele e da poesia através de uma fala que pouco conserva de grandioso. No lugar da autoridade do poeta-rapsodo, portanto, está o poeta fracassado, que tenta arrastar seus despojos para fora do tempo e apontar o dedo irônico para o mundo.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia e prosa. 8 ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992. GLEDSON, John. Poesia e poética de Carlos Drummond de Andrade. Trad. do autor. São Paulo: Duas Cidades, 1981.
MATOS, Olgária C. F. O iluminismo visionário: Benjamin, leitor de Descartes e Kant. São Paulo: Brasiliense, 1993.
MERQUIOR, José Guilherme. A astúcia da mímese. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1972.
NIETZSCHE, Friedrich. A gaia ciência. In: Obras completas. Trad. Rubens R. Torres Filho. São Paulo: Editora Nova Cultural, 1996. p. 171-207.
SANT’ANNA, Affonso Romano de. Drummond: o “gauche” no tempo. 2 ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.
SARTRE, Jean-Paul. A náusea. São Paulo: Nova Fronteira, 2006.
SCHÜLER, Donaldo. A dramaticidade na poesia de Drummond. Porto Alegre: Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1979.
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AS FACES DA PALAVRA EM CLARO ENIGMA - Kelley Dias Foini (CES/JF)    e   Thereza da C. A. Domingues (CES/JF)
Em Claro Enigma existe uma relação que exagera em uma dimensão filosófico - existencial, de constituição depurável, arquitetado sob a administração do inegável rigor poético, que, numa linguagem reveladora da mais alta realização estética, conjuga pensamento e emoção criativa.
Esse trânsito entre linguagem e leitor é, a propósito, uma leitura que se realiza a partir de outras estruturas semânticas, a poesia que dialoga com a arte, esse contágio entre as palavras é onde uma obra de arte, em qualquer linguagem, ao tocar a sensibilidade de um criador, produz nele um impulso para a criação de sua própria linguagem. É como participar de um jogo.
Em Claro Enigma há uma reconciliação com o passado, e a memória familiar é a guia; há um corporificar da palavra, e essa corporificação se deixa mostrar viva, existindo de todos os modos; é um início de melodia que se encadeia sobre diferentes estrofes, demonstrando uma analogia mais tênue entre o som musical e o som articulado, pois esses poemas apresentam efeitos em relação às palavras/ idéias: “A linguagem não é apenas um elemento de cultura. Ela é a base de todas as atividades culturais, e, portanto, o caminho mais fácil para chegar-se ao conhecimento das características de qualquer grupo social” (LEITÃO, 1988, p. 13).
Às almas, não, as almas vão pairando, e, esquecendo a lição que já se esquiva, tornam amor humor, e vago e brando o que é de natureza corrosiva. N’água e na pedra amor deixa gravados seus hieróglifos e mensagens, suas verdades mais secretas e mais nuas. E nem os elementos encantados sabem do amor que os punge e que é, pungindo, uma fogueira a arder no dia findo. (ANDRADE, 1995, p. 51)
Discursos e Identidade Cultural O poema “Memória”, em Claro Enigma é analisado por Affonso Romano de Sant’ Anna: “a partir dele o poeta aprende a amar tudo aquilo que perdeu ou vai perdendo no atrito com o tempo” (SANT’ ANNA, 1972, p.185). Há uma “sensação de perda da lembrança insistente das pessoas e coisas que ficaram para trás no espaço (província) e no tempo( morte)” ( Ibid).. Efetivamente, à medida em que sua poesia avança, há uma intensa sensação de perda e desgaste que envolve a trajetória poética em direção a uma inspiração ou revelação que está sempre a insinuar sem nunca mostrar de todo sua face. Então, é através da memória que se busca a linguagem, pois Drummond usa a língua de uma nação, o seu léxico é todo elitizado, sua estrutura juntamente com o som dão corpo às palavras e é esse tom que substitui o falar sobre o corpo pelas lembranças, como no poema “Memória”: Amar o perdido deixa confundido este coração. Nada pode o olvido contra o sem sentido apelo do Não. As coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão. Mas as coisas findas, muito
Perfurando os obscuros canais de argila e sombra, ela iria contando que vou bem, e amo sempre e amo cada vez mais a essa minha maneira torcida e reticente, e espero uma resposta  [ ...] ( Ibid., p. 105-106). É um sentimento evidentemente fracassado que o leva a se apresentar de maneira a tomar conta de uma desrazão que a vida suporta, como uma resposta talvez às inquietudes que já se faziam ouvir.
No poema “Perguntas em Forma de Cavalo -Marinho”, o poeta nos propõe essas nossas inquietudes, aflições, esses nossos questionamentos, mostrando-nos o lado da razão: Que metro serve para medir-nos? Que forma é nossa e que conteúdo? Contemos algo? Somos contidos? Dão-nos um nome? Estamos vivos? A que aspiramos? Que possuímos? Que relembramos? Onde jazemos? (nunca se finda nem se criara. Mistério é o tempo, inigualável.) (Ibid., 1995, p. 21). Como uma resposta talvez à procura da poesia, que ele sabia além, muito além, dos acontecimentos do próprio corpo, do pensar, e do sentir. Convém frisar o poema “Oficina Irritada”, com a necessária ousadia do autor em também escrever palavras duras que nos fazem pensar e sentir: Eu quero compor um soneto duro como poeta algum ousara escrever. Eu quero pintar um soneto escuro, seco, abafado, difícil de ler. Quero que meu soneto, no futuro, não desperte em ninguém nenhum prazer. E que, no seu maligno ar imaturo, ao mesmo tempo saiba ser, não ser. Esse meu verbo antipático e impuro há de pungir, há de fazer sofrer, tendão de vênus sob o pedicuro. Discursos e Identidade Cultural Ninguém o lembrara: tiro no muro, cão mijando no caos, enquanto Arcturo, claro enigma, se deixa surpreender.! (Ibid., p. 42) Os poemas se carregam de sentido, se dilatam nessas palavras longas, elásticas e se acentuam numa tensão extrema, pois elas possuem uma existência palpável, corporal, dando - lhes força definitiva e aos personagens às vezes construídos pelo poeta, uma existência propriamente física para quem os lê. A grande lição da poesia de Drummond é não pretender dar exemplo de nada. Drummond deixou rastros que apontam para muitos caminhos. Nesses caminhos pode-se encontrar o poeta que destrói e constrói com suas palavras. Claro Enigma é uma espécie de síntese de sua poesia, purificado e sóbrio, onde, nesse jogo de palavras o precário expressa na existência do homem. A representação consciente da memória, presente de forma explícita em Claro Enigma, é substituída pela tradição. Toda a produção de Carlos Drummond de Andrade expõe, de várias formas, uma atividade lúdica da razão, e registra o abalo que o passado exerce sobre a consciência, corroborando a sensação de descaso em relação ao conhecimento adquirido.
Os versos de Carlos Drummond de Andrade são de um sujeito ativo, que manifesta a vontade ardente de ver e de fazer ver, de um poeta de vasto sentimento pelo mundo, pelas pessoas, por sua terra natal e pela memória, poeta do sensível, poeta do obstáculo, poeta ativo, não um poeta livre e assujeitado, pois, é assim que, a perfeição do verbo que se traduz em Claro Enigma, se compreende então porque é uma arte universal.
O autor que se segue resume o que estamos afirmando: Não acredito em sujeitos livres nem em sujeitos assujeitados. Sujeitos livres decidiriam a seu bel- prazer o que dizer numa situação de interação. Sujeitos assujeitados seriam apenas um ponto pelo qual passariam discursos prévios. Acredito em sujeitos ativos, e que sua ação se dá no interior de sistemas em processo (POSSENTI, 1996, p. 37).
Entretanto a nossa sensibilidade não pode descartar nenhuma das percepções do dividir do poeta, como nenhuma de tantas outras sínteses que pretendem apanhar o “sentido do ser poeta”, da palavra poética ou do fazer poesia. E para encerrarmos basta esta citação que exprime com soberania o que é poetar: “E talvez, enfim, a cisão, a clivagem e a busca de unidade possam ser expressas neste verso: E com todo esse pus, faz um poema puro” (SANT’ ANNA, 1984,306).
VOCABULÁRIO:
• Clivagem (linguística) - divisão de uma oração em duas.
• Clivagem (política) - separação ou diferenciação dos grupos sociais, por razões ideológicas, religiosas, culturais, econômicas ou étnicas.
• Edição de genoma - engenharia genética sobre o genoma a partir do ADN (DNA).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ANDRADE, Carlos Drummond. Claro Enigma. 10 ed. Rio de Janeiro: Record, 1995.
BOSI, Alfredo. Reflexões sobre a arte. 7 ed. São Paulo: Ática, 2003.
LEITÃO, Eliane Vasconcellos. A mulher na língua do povo. 2 ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1988.
POSSENTI, S. O sujeito fora do arquivo: as múltiplas faces da linguagem. Brasília: UNB, 1996.
SANT’ ANNA, Affonso Romano. Drummond: gauche no tempo. Rio de Janeiro: Lia, 1972.
SANT’ ANNA, Affonso Romano. O canibalismo amoroso: São Paulo: Brasiliense, 1984.
https://www.youtube.com/watch?v=WUDq3LpH5Gs e http://videversos.blogspot.com.br/2012/08/analise-de-claro-enigma-carlos-drummond.html
Enviado por J B Pereira em 30/07/2016
Reeditado em 30/07/2016
Código do texto: T5714203
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
J B Pereira
Piracicaba - São Paulo - Brasil
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J B Pereira