PERIFERIAS - CARLOS QUIROGA

“E porque te tomo como pretexto final, para se um dia quiser que saibas. E porque o movimento da escrita antecede a idade da razão. Porque o banido como irracional na verdade se organiza. E fundamenta as nossas construções ditas racionais. Tal e como os fractais confirmam. Assim.”

Três personagens, três tempos, três travessias com destino a Lisboa... Um romance. Em Periferias, Carlos Quiroga desenvolve narrativas que provocam a vigília de portos distantes e aproximam seres num único e vasto oceano atemporal, a profundidade do ser em busca de si próprio, a procura do significado das incorporadas palavras nas trajetórias subjetivas.

A relação de pátria e exílio permeia as três narrativas e desenvolve um núcleo comum, síntese da segunda narrativa, quando o protagonista galego narra sua viagem de Santiago de Compostela a Lisboa. Um caminho tortuoso, em vias desconhecidas, que irá marcar definitivamente a vida do homem em busca de uma identidade, com o medo e as descobertas, e as migrações reais e imaginárias do filho, do neto... Uma herança confessional que irá influir na existência dos descendentes de forma definitiva.

“Um galego que necessita reconhecer-se nalgum lado, sem pátria, com mátria, querendo só frátria. Inexistindo na periferia da periferia, resistindo a ser apagado.”

A viagem do jovem estudante para Lisboa, cidade simbolicamente fundadora e guardiã do idioma, é definitiva para o amadurecimento da personalidade do protagonista narrador. Uma estrada que une mais do que duas cidades, marcadas pela fronteira de dois países e pela proximidade de seus idiomas.

À margem das orlas dos continentes, a escrita torna visíveis ilhas soberanas nas revelações poéticas do pai galego, autor do primeiro relato datado em 1499 e historiado na busca da norte-americana, filha de brasileiros, que, na metafórica procura da “arcaica” flauta transversa em Lisboa, irá se reencontrar com a história do falecido genitor e conceber no ventre a recriação do centro do que antes era apenas periferia.

O resgate histórico será possível na abrangência do idioma e possibilitará, à personagem que oficialmente nasceu em território norte-americano, a descoberta de que “já era brasileira”. A jovem, contextualizada no final do século XXI, poderá optar por um novo futuro para sua descendência além do exílio representado pelo “país das maravilhas”. Longe das fronteiras desbravadas é apenas a “herética língua” do pai, “o último vestígio da sua identidade”, que poderá recuperar alguma verdade.

O escritor galego Carlos Quiroga apresenta as periferias com profundidade, caberá a cada leitor a missão de percorrer seus arrabaldes e encontrar o próprio centro no fértil território da língua portuguesa.

Carlos Quiroga é professor de Literatura na Universidade de Santiago de Compostela. Publicou os livros: ‘G.O.N.G’ (poesia e fotografia), ‘Periferias’ (prêmio Carvalho Calero 1999), ‘A espera crepuscular’ (poesia, fotografia e narrativa), A lagoa do castelo de Antela’ (teatro), ‘O regresso a arder’ (fotografia, poesia e narrativa) e ‘Inxalá’ (narrativa premiada em 2006). Em 2006, Periferias foi lançado no Brasil pela Editora Horizonte.

Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 26/09/2006
Reeditado em 26/09/2006
Código do texto: T249870