O Terror da Ditadura em “Eu Ainda Estou Aqui”

O filme é um tapa na cara dos negacionistas do golpe de Estado e um chute no saco daqueles que chamam 64 de “revolução democrática”. Sob a lente de Walter Salles, no auge como diretor, vemos um domínio absoluto de seu ofício, extraindo atuações brilhantes de todo o elenco — até das crianças —, numa mise-en-scène impecável que rendeu a Fernanda Torres o prêmio de Melhor Atriz.

 

A opção estética de Walter Salles é oferecer um retrato intimista de como a ditadura pode devastar uma única família, ao mesmo tempo em que traça uma visão abrangente do terror da época: torturas, desaparecimentos e arbitrariedades cometidas contra os opositores do regime. Sem dar spoilers e apenas relatando fatos históricos conhecidos, o filme é baseado na história real do desaparecimento do ex-deputado Rubens Paiva, levado de sua casa à sede do DOI-CODI para prestar depoimento.

 

Seu desaparecimento permaneceu cercado de mistérios. Embora as evidências apontassem para sua morte, o caso foi encoberto por anos. Apenas em 1996 foi emitida sua certidão de óbito. Em 2014, a Comissão da Verdade revelou que ele foi torturado e morto por agentes da ditadura, com o corpo ocultado. Durante anos, a versão oficial afirmava que ele havia fugido após um ataque de militantes armados, mas a verdade veio à tona muito tempo depois.

 

O filme de Salles narra essa história trágica, enfocando especialmente como Eunice, a esposa de Rubens — brilhantemente interpretada por Fernanda Torres —, enfrentou o sequestro repentino do marido, seu desaparecimento e a angústia de não ter notícias concretas, lidando com todos os indícios de morte sem nenhuma comprovação. Walter Salles conduz essa narrativa de forma magistral, reconstruindo um Rio de Janeiro dos anos 70 com precisão e um toque quase lúdico. É, talvez, a melhor representação histórica da cidade que já vi no cinema.

 

A obra se divide em dois momentos distintos. O primeiro, de extremo júbilo, retrata uma família de classe média alta, com uma filha prestes a viajar para Londres para estudar sociologia, e mostra como a família era unida. Esses momentos transbordam alegria e vivacidade, com cenas de dança, música, praia e felicidade. A paleta de cores em tons beges vibrantes reforça essa estética setentista que reverbera extrema leveza e alegria.

 

Entretanto, quando Rubens é capturado pela ditadura, o filme assume contornos sombrios. Tudo se torna escuro e opressivo. A ditadura não rouba apenas o pai da família, mas também a alegria e as cores do lar. A estética de Salles reflete essa transição de forma impactante.

 

Os dias em que Eunice é interrogada são especialmente angustiantes, com sons de tortura ao fundo e detalhes visuais que sugerem a brutalidade do local: sangue espalhado, descaso com os prisioneiros e a escuridão opressora. Quando Eunice finalmente sai, ela precisa lidar com a ausência do marido, assumir as responsabilidades da família e encarar a incerteza sobre seu destino.

 

O filme retrata com maestria como uma mulher de fibra enfrentou o terror da ditadura, sustentando a família enquanto lidava com a perda e a ausência de respostas. É um papel grandioso, que Fernanda Torres interpreta magistralmente, merecendo todos os prêmios que recebeu, incluindo o Globo de Ouro.

 

No final, temos a participação de Fernanda Montenegro, interpretando a filha mais velha, já idosa. Embora sua aparição seja breve, ela brilha nesses momentos, mostrando a força de sua presença em cena.

 

Agora, sobre a possibilidade de o filme ganhar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro: aqui cabe uma breve digressão filosófica. Platão idealizou o “mundo das ideias”. Quando avaliamos uma obra — seja um filme, um livro ou uma música —, fazemos isso comparando-a ao modelo ideal que temos em nossa mente. Esse modelo não existe no mundo real, mas sim em nossa imaginação, e é com base nele que julgamos todas as obras.

 

Neste caso, Ainda Estou Aqui se distancia um pouco do meu modelo de filme ideal. Ele se alonga um pouco no segundo ato, tornando-se mais melodramático e, para meu gosto pessoal, menos envolvente. No entanto, isso não é uma falha do diretor ou do roteirista, mas uma exigência da própria história, que pedia esse desenvolvimento. Histórias redentoras como essa costumam agradar ao Oscar, mas talvez o ritmo mais lento do filme não o favoreça tanto na premiação.

 

De qualquer forma, o filme reflete a maturidade artística de Walter Salles e denuncia de forma crua, mas intimista e sóbria, o terror que foi o período da ditadura militar no Brasil.

DAVE LE DAVE II (Sim Ele Mesmo)
Enviado por DAVE LE DAVE II (Sim Ele Mesmo) em 13/01/2025
Reeditado em 13/01/2025
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