A modelo na banheira de Hitler

Elizabeth "Lee" Miller, também Lady Penrose, conhecida apenas como Lee Miller. Aos dias de hoje teria sido aclamada como supermodel.

Durante a década de vinte do século passado foi uma das mais requisitadas de grifes famosas. Aí fez um comercial sobre a higiene na menstruação (provavelmente de "modess") e as grandes marcas a colocaram no ostracismo (lacração - Argh! Que palavra feia!). Não queriam associar suas grifes a uma coisa "nojenta".

Tornou-se então fotografa de moda e mudou-se pra França. Aí, o filme "Lee" começa.

Kate Winslet faz uma Lee Miller matrona, embora a verdadeira Lee na época continuava bela e esguia. Uma valquíria dos sonhos de Richard Wagner.

A história já mostra que sempre existiu seres formidáveis, Lee Miller é um desses. O que parece a priori um enaltecimento a figura feminina é simplesmente aquele ditado de estar no lugar certo na hora exata e aproveitar a oportunidade. Só que Lee fez isso acontecer.

Se torna correspondente de guerra da revista Vogue e é hostilizada pelo carmemirandista Cecil Beaton.

Não vou descrever aqui como isso aconteceu. É um clichê. Mas vale a pena se deliciar com a força de atuação de Winslet. Num certo momento um dos personagens comenta que Lee incita os homens a fazer coisas impossíveis por ela. E a Kate faz isso parecer tão real na atuação que eu roubaria a montanha de Maomé por ela.

Agora vamos ao horror que Hanna Arendt determinou como a banalidade do mal. A indiferença de um ser humano pelo sofrimento do outro.

Lee registrou fotograficamente isto, antes de Hitchcok que apenas filmou civis alemães carregando cadáveres de judeus a serem enterrados.

Kate/Lee fotografou os cadáveres amontoados que seria jogados nas fornalhas e também os que já estavam putrefatos dentro dos vagões em Dachau . Sim, estas fotografias são dela.

Nesse mesmo dia, ela com as botas enlameadas do campo de concentração (imaginem o cheiro) acompanhada de outro correspondente de guerra judeu, conseguem entrar no apartamento de Hitler e Eva Braun. Lá tinha se tornado local de descanso dos oficiais americanos.

Aqui vemos o que é estar no lugar certo na hora exata e fazer acontecer. O que Lee fez foi de uma brilhante e ousada inspiração.

Ao entrar no banheiro, compôs o cenário, se despiu e chamou o colega pra fotografá-la se banhando na banheira. Winslet posa com tal naturalidade como Lee deve ter feito.

A reprodução do banheiro é tão perfeita que pensamos que o dito ainda exista. O detalhe das manchas da lama de Dachau no tapetinho é explicitamente igual.

É extraordinário comovente quando o colega judeu se dá conta que aquela mortandade era implícita a seu povo e as autoridades a mantiveram escondida das sociedades.

Durante as cenas, Kate faz uma Lee de expressão impassível. Lágrimas veio aos meus olhos e quando ela olha a foto da meninhiha que se acua num canto ao Lee/Kate se aproximar dela. A expressão ainda é impassível, mas toda a fúria é representada pelo sutil tremor do músculo ao lado da narina. Sem derramar uma lágrima.

Como Winslet conseguiu isso? Não é atoa que foi indicada.