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A vida dos outros, de Florian von Donnersmarck

A vida dos outros, de Florian von Donnersmarck

Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy

A obsessão com o controle sobre as pessoas, e seus atos e pensamentos, suspeitos ou não, é tratada em A Vida dos Outros (Das Leben der Anderen), dirigido por Florian von Donnersmarck. O enredo também explora o jogo de influências e opressões que marca as ditaduras, com foco episódico na Alemanha Oriental da década de 1980. É um filme de época para tempos de subversão de valores. Isto é, trata-se de um filme para todos os tempos.
O argumento centra-se na espionagem sobre um jovem e bem sucedido escritor de peças de teatro. Questiona-se sua lealdade ao regime. A dúvida, no entanto, resultava menos de uma preocupação política consistente, do que o interesse lascivo e pessoal de um Ministro de Estado. O desfecho sugere uma antropologia positiva: pode-se constatar que o mais frio dos espiões e interrogadores consegue se convencer de que o mal que pode fazer é infinitamente menor do que o bem que pode propiciar. Há redenção na atuação humana. O mote do filme, no entanto, revela-nos o arquétipo de quem usa o Estado para a obtenção de seus fins pessoais. Esse tipo de gente está em todo o canto.
O enredo desdobra-se no início dos anos 80, num contexto de muita decadência. Um diretor de peças de teatro, Georg Dreyman (protagonizado por Sebastian Koch), vive romance com uma famosa atriz, Crista-Maria Sieland (papel vivido por Martina Gedeck). Nessa obra de ficção, não há evidências de que as personagens fossem aliadas do regime ou da estrutura midiática. O distanciamento com o poder lhes causaria problemas.
O fictício Ministro da Cultura da Alemanha Oriental interessou-se pela famosa atriz. Designou um agente secreto, cujo nome era Weisler (protagonizado por Ulrich Müle), agente da temida STASI, polícia secreta da Alemanha Oriental, para que espionasse o casal. Tinha em mente obter informações privilegiadas sobre Georg, que utilizaria para chantageá-lo, ou mesmo para intimidar Crista-Maria. Tem-se a impressão de que a vida do casal fascinava Weisler, que os monitorava, intermitentemente; o histriônico Ministro bufão aproveitou-se da situação.
Ao longo do filme percebe-se uma mudança radical nas atitudes do agente das estruturas de segurança e informação. E se nas primeiras cenas ele se revelava como um inquisidor implacável, fidelíssimo ao regime, constata-se uma alteração em seu comportamento, cujo clímax é atingido em uma das últimas cenas, na qual ele dá fim à única prova que poderia incriminar o diretor Georg Dreyman: uma máquina de escrever utilizada na composição de textos negativos sobre a Alemanha Oriental, que teriam sido divulgados no exterior.
Três dimensões de critério jurídico também podem ser problematizadas a partir de A vida dos outros: a proteção da intimidade, os limites do poder público e o nível de resistência do indivíduo às investidas dos poderosos. Neste último caso transita-se no delicado campo do assédio moral, e de certa contrapartida,da coação moral irresistível.
Em A vida dos outros a violação da intimidade  é escandalosa. Agentes da STASI acompanham cada minuto da vida dos artistas. Tem-se a impressão que se tem uma denúncia a todas as ditaduras que se valem de serviços de informação, e do modo como tais dados são posteriormente manipulados. Percebe-se também referência muito explícita ao modelo engendrado pelo comunismo real, afastando-se na prática de um regime autoritário as utopias que estimularam várias revoluções, a exemplo do avanço do leninismo na Rússia de 1917.
 Em A vida dos outros é nítida a inexistência de limites em um Estado autoritário. A arrogância dos donos do poder, a falta de escrúpulos e o total descompromisso para com um ideal comum são características de um mundo de absurda violência simbólica. O que vale é apenas o interesse do chefe, e de seus companheiros. Verdades são criadas, fatos são estabelecidos; dissocia-se totalmente o sentido político da vida real. O que denominamos de pós-verdade é um ingrediente expressivo na construção do roteiro dessa interessante fita.
Intriga, no entanto, a atitude da atriz, assediada pelo Ministro da Cultura. Não se sabe exatamente até que ponto sua resistência inicial não se transformou em fonte insuspeita de prazer. Não se pode avaliar se Crista-Maria realmente sentiu-se ofendida, se o assédio lhe excitava ou se agia daquela forma, na tentativa de proteger o amado.
A reação de Georg revela homem superior, conhecedor dos instintos e fraquezas que nos marcam. Na busca de seu benfeitor, o agente Weisler, há também, por parte de Georg, a essência de uma atitude verdadeira humanista. O legado moral do filme é o próprio agente, prova mais absoluta de alguma percepção rousseauniana, que vê no homem um ser originariamente puro, corrompido pela sociedade. Weisler lembra-nos que inclusive nas mais sanguinárias ditaduras há ainda pessoas de fibra, e merecedoras de admiração.


Título original: DAS LEBEN DER ANDEREN
Diretor: DONNERSMARCK, FLORIAN HENCKEL VON
Elenco: Ulrich Mühe, Martina Gedeck, Sebastian Koch
Ano de produção: 2006
País de Produção: Alemanha
Gênero: CINEMA EUROPEU
Duração: 132 minutos

Arnaldo Godoy
Enviado por Arnaldo Godoy em 12/12/2019
Reeditado em 12/12/2019
Código do texto: T6817491
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Arnaldo Godoy
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 58 anos
71 textos (1445 leituras)
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Arnaldo Godoy