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A GRACIOSIDADE DE “BRANCA DE NEVE E OS SETE ANÕES”

A GRACIOSIDADE DE “BRANCA DE NEVE E OS SETE ANÕES”
Miguel Carqueija



“O que tive foi o reconhecimento do desenho animado. É difícil convencer a todos. Sinceramente, minha alegria não era ter dinheiro. É a última coisa em que penso. Só sei que preciso de dinheiro para poder criar. Acho que eu era o sujeito mais “duro” de Hollywood.”
(Walt Disney)


O lançamento de “Snow white and seven dwarfs” em dezembro de 1937 revolucionou o cinema mundial. Não foi o primeiro longa de animação — há notícia de dois que foram produzidos na Argentina na década de 1910, mas com certeza, além de serem mudos e em preto-e-branco, deviam ser bastante toscos tendo em vista os recursos técnicos da época. E não ficaram muito conhecidos. Mas “Branca de Neve”, além de ser o primeiro desenho longo falado, musicado e colorido, já apresentava a grande novidade da câmara multiplano, que emprestava profundidade e relevo às cenas. Ganhou um Oscar e sete miniaturas de Oscar, e jamais saiu de circulação. Hoje é visto em DVD acompanhado de bônus, inclusive depoimentos com a voz de Walt Disney.
Walt, com sua grande e maravilhosa equipe, conseguiu realizar uma obra-prima indiscutível de elevado bom gosto, um cinema de arte, de mensagem e de entretenimento (ou seja uma obra completa) a partir do conto de fadas dos Irmãos Grimm, adaptado de maneira genial. Apesar de algumas cenas assustadoras Disney conseguiu suavizar a história de maneira adequada ao público infantil, pois os sete anões (que aparecem como seres horrendos e sem nome nas ilustrações de um livro infantil que li em criança e me espantei com isso pois já conhecia os personagens nos quadrinhos e no desenho de Disney) embora não sejam propriamente bonitos são simpáticos, pois afinal de contas são vistos como anões ou “homenzinhos”, enquanto o príncipe também sem nome (mesmo no desenho) é desenhado como um apolo quase juvenil.
A história é encantadora e prima por detalhes magníficos, como a presença abundante de animaizinhos da floresta, que se tornam amigos e colaboradores da princesa fugitiva, ajudando-a até mesmo a cozinhar para os anões. Os detalhes do interior da casa de floresta dos anões, como o órgão tocado pelo Zangado. Um minimalismo envolvente perpassa a projeção inteira. Você não consegue abarcar de uma vez a cena por completo, com bichinhos se movendo em várias partes da tela (e eles são expressivos), coisas desse tipo.
Como o Príncipe, a Rainha sem nome, madrasta de Branca de Neve e bruxa nas horas vagas, tem uma aparência meio primária, rígida, mas julga-se a mulher mais bonita do mundo e julgar-se tal parece ser a razão de ser de sua vida. Viúva, por ciúme transforma a princesa, sua enteada, em serviçal e quando o gênio do espelho lhe diz que agora Branca de Neve superou sua beleza, resolve simplesmente matá-la. A história é bem conhecida: ela contrata um caçador, ordena-lhe matar a moça e trazer como prova o seu coração. O caçador, compadecido, leva o coração de um porco que, coitado, foi sacrificado no lugar de Branca de Neve. Quando descobre o que aconteceu a Rainha, presa à ideia fixa de eliminar sua suposta rival, entra no seu antro subterrâneo de feitiçarias, transforma-se na horrorosa bruxa de roupa negra e prepara a maçã envenenada.
Um grande achado, sem dúvida, são as personalidades dos anões, vinculadas aos seus nomes que parecem ser apenas apelidos: Mestre, Zangado, Feliz, Soneca, Atchim Dengoso e Dunga, este último o mudo da turma. Ao que se revela no bônus, ele ficou sendo mudo apenas porque faltava um dublador que o encarnasse. Afinal, Walt Disney passou por apertos financeiros para conseguir realizar sua primeira animação de longa-metragem. E precisou enfrentar os preconceitos da época.
Eis os nomes originais dos anões:
Mestre (líder do grupo)........................Doc
Zangado (o mais rabugento)................Grumpy
Dunga, o mudo e meio biruta..............Dopey
Feliz, o mais alegre...............................Happy
Soneca, o sonolento..............................Sleepy
Dengoso, o envergonhado....................Basuful
Atchim, o que vive espirrando.............. Sneezy


Provavelmente todos os filmes de ficção apresentam falhas se forem examinados a pente fino. Isso inclui o cinema de arte, portanto também “Branca de Neve e os sete anões” permite muitos questionamentos:
— Onde está a população do castelo? A Rainha convive na tela apenas com sua enteada, seu corvo e o escravo do espelho. Cadê os serviçais, os soldados do palácio?
— De onde era o Príncipe? Ele vem não se sabe de onde e nem fala ao que conste com a Rainha para pedir a mão da jovem. Não tinham relações diplomáticas?
— O que aconteceu com o reino após a morte da rainha? Branca de Neve não era a herdeira, não deveria assumir em vez de simplesmente acompanhar seu príncipe amado para o outro reino?
Mas tais questões passam batidas diante da beleza da fita, e as crianças então é que não se preocupam com tais quesitos.

FICHA TÉCNICA

“Snow White and seven dwarfs” – Estados Unidos, 1937.
Produção: Walt Disney. Distribuição: RKO. Adaptação do conto de fadas dos Irmãos Grimm. Supervisão de direção: David Hand. Diretores de sequências: Perce Pearce, Larry Morey, William Cottrell, Wilfred Jackson e Ben Sharpsteen. Supervisão: Hamilton Luske, Vladimir Tytla, Fred Moore e Norman Ferguson. Adaptação da história: Ted Sears, Otto Englander, Earl Hurd, Dorothy Ann Blank, Richard Credon, Dick Rickard, Merrill de Maris, Webb Smith.
Música: Frank Churchill, Leigh Harline, Paul Smith.
Animadores: Frank Thomas, Dick Lundy, Arthur Babbitt, Eric Larson, Milton Kahl, Robert Sottokes, James Algar, Al Eugster, Cy Young, Joshua Meador, Ugo D’Orsi, George Rowley, Les Clark, Fred Spencer, Bill Roberts, Bernard Garbuft, Grim Natwick, Jack Campbell, Marvin Woodward, James Culhane, Stan Quackenbush, Ward Kimball, Woolie Reitherman (mais tarde conhecido como Wolfgang Reitherman), Robert Martsch.
Principal diretor de arte: Albert Hurter.
Adriana Caselotti.......................................voz de Branca de Neve
Harry Stockell............................................voz do Príncipe
Lucille La Verne.........................................voz da Rainha/Bruxa
Miguel Carqueija
Enviado por Miguel Carqueija em 03/08/2017
Código do texto: T6073569
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Miguel Carqueija
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 69 anos
1858 textos (81716 leituras)
41 e-livros (3996 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 17/12/17 07:54)
Miguel Carqueija