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"Desaparecido, um grande mistério” (Missing)

"Desaparecido, um grande mistério” (Missing)




Dentre as coisas fundamentais que você precisa saber sobre Missing, destacam-se:

a. Você vai assistir um filmão. Lembra disso? Filmão.

b.  Trata-se de uma aula. Uma aula elegante.

Konstantinos Gavras, ou se preferir Costa-Gavras é um daqueles diretores que entendeu de modo pleno que o cinema além de arte denota a capacidade de instruir um bocado. Mas para tanto precisa ser bem feito. Costa-Gavras faz bem feito.

Rodado em 1982, Oscar de Melhor Roteiro Adaptado (Costa-Gavras e Donald Stewart) no ano seguinte e baseado no livro, de 1978, The Execution of Charles Horman: An American Sacrifice, Missing é um programa atemporal esclarecedor, em especial para algumas parcelas do galinheiro que no tempo presente agitam as penas e cacarejam golpe pra lá e pra cá, uns fogem, outros querem, outros afirmam, a aula de Gavras possui um foco amplo no assunto sem  perder um único segundo com nomes, teorias políticas, inclinações, bla-bla-blá e etecéteras vazios.

Colaboram sobremaneira para o espetáculo Jack Lemmon, Sissy Spacek e John Shea, o desaparecido, filho de Jack Lemmon na trama, cujo nome na vida real é Charles Horman.

Comecemos pois, pelo Charles, um cara que estava na casa dos 30 anos, idealista, tinha idéias para desenhos animados, escrevia pequenos artigos para grandes jornais norte-americanos, morava numa casinha com sua esposa Sissy Spacek em Santiago, cultivavam sonhos, eram uma dupla cansada do establishment, só isso, não usavam máscara de esquiador ou armazenavam explosivos debaixo do colchão.

Gavras abre o filme dizendo ser esta uma história verídica e que alguns nomes foram trocados a fim de preservar vidas.

Durante os 122 minutos de projeção  a palavra golpe é usada duas vezes, os nomes dos principais atores políticos do episódio deflagrado no Chile em 11 de setembro de 1973 não são falados, aliás, nome nenhum, o que por si só já edulcora a proposta, assassinos não merecem sequer a menção de suas existências.

Charles passa uma noite num hotel da capital, devido ao toque de recolher. Da janela do seu quarto ele divisa uma festa de gala, homens de smoking e mulheres repletas de jóias, um jipe verde oliva, desses com metralhadora calibre pesado no assento traseiro passa em frente ao local e os ocupantes saúdam os festivos. Ele fecha a cortina, irá sumir dentro em breve.

Duas semanas após o sumiço de Charles, Jack Lemmon, o pai, desembarca em Santiago no propósito de resgatar o filho baseado na crença de que tudo não passa de uma bobagem, de um mal entendido e sua nora, Sissy Spacek, sempre tão arredia face a "ordem ideológica, econômica, política e legal que constitui uma sociedade ou um Estado” irá finalmente relaxar e eles viverão felizes para sempre.

Fica difícil atestar de onde vieram certas situações, se do livro ou do roteiro adaptado, vide o cavalo branco em disparada por uma avenida nobre, tarde da noite, perseguido por mais um jipe verde oliva e seus ocupantes, quiçá embriagados, vide a blitz num ponto de ônibus, e o semblante do inquisidor, mais um detalhe na indumentária, deve ser divertido fazer direção de arte para cinema, o oficial tira duas mulheres do ponto, pega uma faca e corta as roupas delas, proclamando que a partir de hoje nenhuma mulher mais usa calças compridas, só saias.

A interação de Lemmon com a nora inicia na base da culpa, ela é a culpada, os dias vão passando, a história vai se construindo, a relação deles transcende do antagonismo ao solidário, depoimentos de terceiros começam a descortinar cenários como por exemplo o Estádio Nacional, que virou depósito de cadáveres, nas mãos do diretor a atmosfera da cidade não poderia ser mais precisa, algo paira nos hotéis, hospitais, ouve-se tiroteios constantes nas ruas, surgem os flasbacks de Charles em Vina del Mar, onde proseou despreocupadamente com oficiais da inteligência ianque, daí sua morte. Não se trata apenas de que “ele sabia demais” porque de fato ele pouco sabia, aliás uma balela já que se tratava de um segredo de polichinelo o fato dos USA darem largo suporte a troca da chefia chilena. Charles bateu as botas porque na engrenagem pública existem alguns elementos com a equivocada noção de decretar vida e morte sobre os outros. Isso no dia a dia, imagine numa situação como essa. É o tal do poder. Basta ver um exemplo bizarro desta doença na atitude do embaixador americano na época do evento, Nathaniel Davis, sequer citado no filme, porém tão logo ele foi lançado o diplomata entrou com uma ação de 150 milhões de dólares contra o cineasta e o estúdio. Não deu em nada.

Sogro e nora peregrinam por Santiago até que finalmente pessoas ligadas a Washington confessam que o rapaz havia subido para o andar de cima. Ambos desmontam a casa do casal, Lemmon faz uma pasta com os desenhos e escritos do filho, houvera muita esperança ali, estavam apenas no lugar errado, Charles queria ser escritor. Seu pai, ao regressar para  Nova Iorque, abriu um processo contra o governo norte americano. Não deu em nada.

Para o leitor desavisado, Missing pode ganhar o rótulo de um filme baixo astral, tarja enganosa se você não está em coma em janeiro de 2017 e cultiva o hábito de assistir os noticiários locais, nacionais e internacionais. Melhor ainda se vez ou outra você passeia pela programação da TV a cabo bocejando diante de Velozes e Furiosos 15, Mercenários 7, Zumbis 22, etc., e consegue constatar que o cinema está prestes a se tornar, de modo totalitário,  numa fábrica de dopping que se presta a tudo que não presta. Missing, além de não conter cenas de violência, serve também de aviso aos que cacarejam sandices no galinheiro.

Costa Gavras hoje conta 83 verões, deixou um legado de cinema de verdade, incontestável. E como tudo passa nesta vida, resta a fé para que episódios como esse não se repitam, e que todo homem, mulher e criança possam suspirar sem receio face a substância  do que não se vê.

"Tivesse eu os céus bordados por tecidos envolvidos por luz dourada e prateada, tecidos claros e escuros representando o dia e a noite, eu os espalharia sob os seus pés. Mas, como sou pobre, tenho apenas meus sonhos, Espalhei meus sonhos sob seus pés. Caminhe suavemente,
Você está pisando em meus sonhos". (Yeats)
Bernard Gontier
Enviado por Bernard Gontier em 11/01/2017
Reeditado em 12/01/2017
Código do texto: T5879236
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Bernard Gontier
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Bernard Gontier