Enfim, Cuba (XII)

continuação....

NOTÍCIAS DO PT

Milionário vai para Miami. Intelectual para Paris. Petista vai para Varadero.

A gente aqui pensava que o PT que estava ganhando as eleições municipais era cor de rosa. Pelo menos era o que a grande imprensa noticiava. A revista Veja, por exemplo, traz na capa de seu número 41 a foto da candidata à Prefeitura de São Paulo, com a estrela do PT e o destaque “O PT COR-DE-ROSA” e a reportagem informa: “ ...Os petistas de agora dizem que não são xiitas, não estão interessados em fazer a revolução ou promover disputas de ideologias políticas. Em vez disso, querem dialogar, governar, tratar dos problemas reais das comunidades. (....) Sai das urnas, portanto, um PT social-democrata, talvez o único partido verdadeiramente social-democrata do país, (...) Com a consagração nas urnas dessa linha moderada, novos apelidos do PT proliferam: “PT Rosa”, “PT chanel”, PT burguês”. São epítetos que, ao contrário do que acontecia num passado recente, não parecem constranger o PT, pois nada é mais rosa, chanel ou burguês que o fenômeno eleitoral Marta Suplicy em São Paulo...” .

Em Cuba, a vitória petista teve grandes destaques na TV. A todo momento a informação que a estrela vermelha do socialismo estava sendo vitoriosa no Brasil. O semanário Granma Internacional assim noticia:

“BRASIL – Esquerda triunfa nas eleições municipais.

.A maioria das cidades brasileiras que elegeram novos prefeitos, nas eleições de Domingo 29 de outubro, ficaram povoadas de bandeiras vermelha, e houve multitudinários folguedos populares, até as primeiras horas da segunda-feira, para celebrar o triunfo esmagador da esquerda, segundo noticiou a PL.

No segundo turno das eleições municipais, o Partido dos Trabalhadores (PT) venceu em 13 das 16 cidades em que disputou a prefeitura, incluindo cinco capitais: São Paulo, Porto Alegre, Recife, Goiânia e Belém...

A vitória esmagadora do PT em São Paulo, onde a candidata Marta Suplicy obteve 58,51% dos votos, enfrentando Paulo Maluf, que aglutinou o voto conservador direitista, levou milhares de simpatizantes com bandeiras vermelhas a lotarem a avenida central da maior cidade da América do Sul.

Este PT, o das lutas sociais, que emerge hoje com a vitória – disse, tremendo de orgulho, a carismática psicanalista, de 55 anos de idade – é o PT vermelho, o da estrela da esperança.

Sem experiência administrativa, mas com uma imagem respeitável de mulher digna e honesta, Dona Marta, como é chamada pelos seus parceiros, contou com apoio maciço de uma ampla coligação de forças políticas paulistas, que desejam restabelecer a honradez na administração pública.

Por isso, nas suas primeiras palavras de agradecimento aos mais de três milhões que a elegeram, indicou que o seu triunfo ia mais para além das forças do Partido dos Trabalhadores.

A noção geral de honradez e administração eficiente consagrou o sucesso de Tarso Genro, com 63,51% dos votos em Porto Alegre, onde o PT inicia o seu quarto período de governo sucessivo.

O partido da estrela vermelha conquistou pela primeira vez a prefeitura nordestina Recife, capital de Pernambuco, retomou o controle de Goiânia, capital de Goiás, onde se encontra o Distrito Federal, e Belém, no nortenho estado do Pará, com o qual agora vem marcando presença nos quatro cantos do país.

As eleições municipais de domingo, segundo analistas locais, estão definindo o palco político em que decorrerão as eleições presidenciais de 2002.

As urnas ficaram pintadas de vermelho do PT e do Partido Comunista do Brasil, o vermelho das esquerdas, disse o comentarista Teodomiro Braga, no influente Jornal do Brasil.

Segundo os observadores, estes resultados deixam transparecer o sentimento de insatisfação que hoje paira nas megacidades do país, onde abunda o desemprego, a pobreza e a violência.

Após um trabalho árduo e pormenorizado na constituição de governos locais caracterizados pela eficiência, e qualificado de a força política mais ética do país, o Partido dos Trabalhadores recebeu uma mensagem de aprovação que justifica a celebração, sem medo de exibir as suas bandeiras vermelhas” (5 de novembro de 2000 – ano 35, nº 45);

E não é que os nossos petístas, após as eleições, foram mesmo descansar em Cuba. Segundo a imprensa tupiniquim, houve até um sorteio “Vá a Cuba Com Lula”, que foi feito para angariar fundos para a campanha eleitoral em São Paulo. O líder petista seria um atrativo da empreitada. Êta gente idealista! A viagem reuniu 203 pessoas, sendo 10 da cúpula do partido, 3 ganhadores do concurso, com seus acompanhantes, petistas, simpatizantes e jornalistas que pagaram R$1.090,00 pelo pacote. O grupo ficou dois dias em Varadero e quatro em Havana, onde foi recebido por Fidel para uma conversa e um banquete. Este deve ter sido ótimo, pois consta que Fidel, ao contrário de seus compatriotas, é excelente cozinheiro. Outrossim, para efeitos políticos, parece que o líder máximo do partido dos trabalhadores ficou de saias justas. Diante da insistência do Comandante Supremo de que a situação brasileira teria semelhanças com a de Cuba antes da revolução (1959), Lula foi firme em responder que ao Brasil os exemplos cubanos eram apenas os dos projetos sociais nas áreas de saúde, educação, esportes e cultura. Nada de se comprometer. Tá certo o homem.

A MOEDA CUBANA.

A moeda oficial cubana, o peso, é motivo de piada. Só serve para adquirir a cesta básica e produtos que ninguém quer. O que o povo quer mesmo é o dólar. Também serve o peso conversível, que tem o mesmo valor que a moeda americana. Não me atrevo a falar sobre a política econômica e monetária da ilha. Seria necessário ser gênio para entendê-la. Pode-se dizer que, oficialmente, 1 dólar compra 27 pesos. Mas ninguém quer os pesos. Em alguns bares, no caminho de Varadero, vimos anúncios: “ aceitamos moeda nacional”. Pode?

E como adquirir o dólar? Vale tudo. É conto do vigário por todo lado. Todo mundo rouba. Mas de forma simpática. Também não tem outro jeito, pois o cubano recebe seu salário em pesos, mas tem que comprar em dólares. Daí a merda. Sorte que os refugiados de Miami ajudam enviando a moeda forte. Os turistas, principalmente aqueles que buscam sexo, esparramam suas gorjetas pela ilha. Fidel sempre condenou a prostituição nos seus intermináveis discursos. Chegou a dizer que somente eram bem vindos a Cuba turistas que queriam diversão sadia, praias paradisíacas e uma porção de balela. A gente é obrigado a dizer: - cala a boca Comandante! A putada tá salvando Cuba. São um bilhão de dólares por ano que os turistas trazem. Se acabar com as putas, esta renda cai para menos da metade. Daí vai ser o colapso. Portanto, puta tem que ser elevada à categoria de instituição nacional. Merece estátua em praça pública.

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Mas o que é que o cubano pode comprar com o seu salário em pesos?

Apenas uma cesta básica, que dura uma semana. As lojas que vendem produtos nacionais são poucas e sem mercadorias. Vimos em suas prateleiras rolos de papel higiênico, palhas de aço, pregos enferrujados, recipientes de plásticos, panos de chão, roupas usadas, bolsas de papelão, enfim, um monte de porcarias. Tudo cheirando a velho e sem embalagem. Dá pena. Pode-se adquirir nos mercados públicos, em quantidade limitada por pessoa, o mínimo do básico: arroz, feijão, fósforo, cigarro, sal, café, legumes horríveis, açúcar e mais nada. Carne? Nem pensar. Sabonetes, xampus, dentifrícios? Só nas tiendas, em dólar, ou no mercado negro, onde o cubano tem um “jeito” de arrumar a mercadoria. Leite? Só para crianças.

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Desde 1993, o governo permitiu ao povo o acesso ao dólar. Ele que se vire para buscá-lo. Aquele que consegue, passa a viver melhor. Tá virando burguês. Êpa! Será que vai ter mudança? Parece que está surgindo uma classe diferenciada, privilegiando aqueles que conseguem autorização do governo para iniciar um pequeno negócio próprio. É o caso dos paladares e de outros que exploram sua casa como pensão. Cobram em dólares dos fregueses e pagam seus empregados em pesos cubanos. Exploração capitalista com a complacência do Estado, que também se aproveita. O novel empresário tem que pagar um imposto, em dólares, mais dez por cento do lucro que auferir, ao governo.

Há ofertas de parcerias para estrangeiros. Mas cuidado! Por trás das propostas pode haver conto do vigário. Quem me contou foi um nosso deputado federal, cujo nome vou omitir. Ele, entusiasmado com o socialismo, visitou várias vezes a ilha. Ficou amigo de um artesão que produzia instrumentos musicais de percussão e cordas pulsadas, que também era músico. Tomaram juntos muitos daiquiris. Logo veio a proposta: - por que não nos associar-mos? Em Cuba temos mão de obra especializada e barata. Nossos instrumentos são famosos no mundo todo. Podemos exportar. Basta um pequeno capital. Pouca coisa. Negócio de futuro.

Levou o parlamentar tupiniquim para conhecer sua oficina. Um barracão modesto, na periferia de Havana. Fez demonstração de seu trabalho. Convenceu. Para a empreitada bastaria que fossem adquiridos poucos equipamentos. O investimento seria pequeno, não mais que vinte mil dólares. Tentadora a proposta. Aceitou. Antes de voltar para o brasil, para arrumar o dinheiro, o futuro sócio cubano solicitou: - poderia me emprestar mil dólares? É para ir cuidando da papelada.

Como negar atender?

Antes de voltar para o Brasil, deixou lá a grana pedida.

Um mês depois, retorna a Havana para iniciar a empresa. Cadê o cubano? Nem o barracão existia mais.

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continua...