enfim, Cuba (VIII)

continuação...

HAVANA:

Chegamos ao entardecer, após trinta e cinco minutos de vôo acompanhado de muita reza. No aeroporto doméstico outra grande falha da empresa de turismo. Ninguém a nos esperar. Desta vez não era apenas Sandra e eu, mas um grande grupo de turista, entre eles quatorze brasileiros. A gente já estava acostumado, os outros ainda não. Sandra quis tomar um táxi. Discordei. Queria saber quanto tempo levariam para pegar a gente. Isso também é cultura. Depois de uma meia hora de espera, chegou uma van, apanhou alguns estrangeiros. Logo após chegou outra, levou o restante, menos nós brasileiros, que tínhamos outro hotel por destino. Chegou um ônibus. Perguntamos ao motorista se era o nosso. Ele respondeu negativamente, dizendo que estava aguardando um avião de Varadero. Nós todos ali aguardando. Com muitas reclamações, descobrimos que não havia nenhum avião vindo de Varadero. Insistimos com o motorista do ônibus. Ele mostrou a ordem. Tinha que esperar o vôo de Varadero que não existia. Nisso chegou uma mensagem pelo o rádio, a ordem fora errada, o vôo que ele devia esperar era o nosso. Cronometrado, tudo levou uma hora e dezoito minutos de espera no aeroporto vazio.

A primeira noite praticamente sem programa. Ficamos no bar do hotel. Aqui a prostituição é mais ostensiva, chega a ser descarada. Jantamos num dos restaurantes – o mais sofisticado – a mesma falta de gosto nos pratos. Salva a música. Como tem músicos em Cuba! Todos tentando vender suas fitas ou CDs, e sempre com um pires para as propinas.

Logo cedo, partimos para Havana velha. Estávamos morrendo de vontade de voltar. Alí nos perdemos pelas ruas, apreciando os prédios, a música que envolve toda a cidade, a história e, principalmente o povo.

SAÚDE/ MULHERES:

Falar sobre a saúde em Cuba é abundar. A literatura e a mídia já falaram muito sobre o assunto. É direito de todos, os médicos são ótimos, muitos estrangeiros vão à ilha em busca de tratamentos, etc. Mas pelo menos uma falta de especialidade médica existe. Não deve haver endocrinologistas. As mulheres são, na maioria, enormes. Banhas caindo por todos os lados, principalmente nas bundas. Os homens são mais atléticos. Mas as mulheres, como dizem os advogados, data venia, devem cultivar a gordura. Mesmo as magras e esticadas cultivam as bundas. Sejam brancas, mulatas ou negras. Mais ainda: encurtam as saias e vestidos na parte de trás, para dar destaque. Em Cuba, bundas abundam.

Fica aqui uma sugestão para os facultativos especializados em regimes. A obesidade é uma doença generalizada no país de Fidel. Bom campo para exercer a profissão.

***

Embora não querendo abundar, falando sobre a saúde em Cuba, é interessante a seguinte informação: em 1999, Cuba ostentou um índice de mortalidade infantil de 6,4 óbitos para cada mil crianças nascidas vivas, o mais baixo de sua história (no Brasil o índice é de 36 óbitos para mil crianças e, nos Estados Unidos, o índice é de 7). Na ilha não há casos de paralisia infantil, malária, difteria, sarampo, rubéola, caxumba, tétano neonatal, a síndrome da rubéola congênita e a meningoencifalite pós caxumba. Administram-se vacinas preventivas às crianças contra 13 doenças. A mortalidade materna continua abaixo de 3 nos últimos quatro anos.

***

EMILIANA:

Conhecemos Emiliana nas ruas. Representante típica cubana. Negra lustrosa, enorme de ombros, barriga, peitos e bunda. Um metro e setenta de altura e uns cento e dez quilos de peso. E só anda de sapato alto, empinando a bunda mais ainda. Aspecto saudável e sorriso contagiante. Vinte e três anos de idade. Educada, prestativa e alegre. Eu estava querendo comprar um boné desde Santiago e só havia encontrado nas tiendas. Mas os preços eram salgados, vinte dólares. Foi Sandra quem a abordou em uma esquina. Solícita, boa de papo, foi nos acompanhando. Não encontramos o boné, tive que morrer com o preço pedido na tienda. E aqui outra sugestão para empresários que quiserem investir: uma fábrica de bonés a preços populares.

Depois de uma voltas pela cidade, resolvemos parar no “El Patio” para uma hidratada. Sandra pediu um suco. Emiliana e eu cerveja. Ela deve ter tomado umas dez e fumou todo o meu maço de cigarros. Disse ser professora primária, mas que estava de licença por três meses e, assim, estava procurando ganhar alguns dólares dos turistas. Disse baixinho:

- Por favor, se algum polícia ou fiscal perguntar, digam que sou amiga de vocês. Que foram vocês que me convidaram.

Realmente. Nós quem a convidamos. Mas perguntei:

- Por que?

- Existe uma lei em Cuba que proíbe o assédio ao turista. Ninguém respeita, mas é bom não abusar.

Pensei: No Brasil nós também temos lei que não entraram na moda.

- Vocês querem comprar charutos?

Antes de qualquer resposta, foi dizendo: - Nas fábricas e nas tiendas os charutos são muito caros. Eu tenho um primo que trabalha enrolando charutos e ele consegue por preço bem mais em conta.

- Como?

- Ele pega na fábrica.

- Ele furta?

- Não. Tem um esquema. Ele consegue por preço muito menor.

Fiquei interessado em saber como ele conseguia. Como pagamento? Algum trambique? Fiz várias indagações, mas ela não deu nenhuma explicação satisfatória. Apenas disse:

- Ele tem um jeito.

Depois descobri que em Havana há multidão de cubanos tentando vender charutos por preço menor para turistas. Mesmo na porta da fábrica encontrei meia centena deles assediando os turistas para esse fim. Ou seja, infringindo a lei ostensivamente. Tudo sob as vistas dos policiais, que são muitos pelas ruas.

Me recusei a comprar os charutos.

- E rum? Deseja?

- De rum eu gosto.

- Tenho um cunhado que trabalha numa destilaria. Consegue mais barato?

E repetiu a história. Repeti a pergunta: - mas como ele consegue? Ela: - ele dá um jeito.

Falou do racionamento e das dificuldades para conseguir produtos melhores. Houve tempo em que Fidel teria dito que a revolução só terminaria quando acabasse o racionamento. Quando isso acontecesse ele rasparia a barba. Pelo visto, a barba dele ainda vai crescer por muitos anos, pois cada dia o racionamento é maior. Mas isso não assusta muito, todos comem nas escolas e nos locais de trabalho. Como disse, a obesidade é que é um problema.

Levou-nos no paladar.

Enquanto tomávamos cervejas, esperando o pedido, ela pediu licença e saiu para a rua. Voltou com um rapazola.

- É meu irmão. Está indo para o trabalho.

Não devia ser verdade. Convidei o menino para almoçar com a gente e ele, sem se fazer de rogado, também pediu cerveja e encomendou uma lagosta. Mas são tão simpáticos, tão informativos do que queríamos saber, que achamos ótimo.

Ela contou que foi mãe com dezesseis anos de idade. O pai de seu filho fugiu para Miami. Não manda um centavo sequer.

- Mas vocês aqui tem saúde. Há médicos, hospitais...

- Mas não têm remédios. Não existem remédios nas farmácias. Se você

tem uma dor de cabeça, não encontra aspirina. Tudo existe, mas apenas para quem está hospitalizado. Sem hospital não tem remédio. Em Cuba falta tudo. O que mais tem em Cuba é falta.

A certa altura disse para ela que estava interessado na Santería. Disse que era de Ogum.

- Eu tenho uma madrinha que é santeira. Se quiser vamos lá depois. Eu estava brincando. Mas aceitei o convite.