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Morte - capítulo 5

5.

A briga com o arcanjo não reduziu a autoestima da morte. Afinal, ninguém era tão poderoso quanto ela. Nenhum arcanjo tinha um verbo para descrevê-lo, a morte tinha dois: o ativo, matar, é o passivo, morrer. Só ela era substantivo, adjetivo e objeto direto. Só ela contava com três conjugações no modo subjuntivo. Ninguém tinha medo dos arcanjos bundões, mal se sabia os nomes de dois ou três deles.  Ela sim, a majestosa, a enigmática, a temida morte era respeitada por todos, porque tinha ligação direta com o divino, entrava e saía da sala do "boss" quando bem entendia, sem precisar ser anunciada pela secretária otária. Chupa arcanjo!

De vez em quando tinha o desejo de que tudo acabasse, que o criador cansasse de tentar consertar a humanidade e mandasse um meteoro acabar com toda a folia, como fez com os dinossauros. Lembrou de quando Deus resolveu povoar a Terra e lhe disse:

- Mortícia (Ele a chamava carinhosamente assim), eu estou pensando em lançar um ser novo, o que você acha?

- Sei não, Deusdete (a morte também tinha o seu jeito carinhoso de folgar com o criador), acho que o senhor está procurando sarna pra se coçar.

- Não seja pessimista, Mortícia, eu vou colocar naquele planetinha lá no canto da Via Láctea. Vamos fazer o teste num local bem isolado.

- Essa história de ficar criando vida nunca dá certo. Não é perto daquele lugar que o senhor tentou com os marcianos?

- Sim, bem pertinho, mas é um planeta um pouco maior que Marte.

- Vai dar merda, escute o que eu digo.

- Desta vez vou fazer um ser à minha imagem e semelhança. Vou chamar de ser humano.


- O senhor está me arranjando trabalho. Olha o tanto que eu trabalhei pra recolher a galera de Marte.

- Deixa de preguiça,  Mortícia. Olha só,  eu vou pegar aquele macaquinho que tem lá, um tal de homo sapiens, e vou colocar uma alma imortal. Então eles terão inteligência e livre arbítrio. Se souberem usar poderão se unir e viajar para outros planetas. Quem sabe não chegam até aqui um dia.

- Ah, senhor, só chegam aqui se eu for buscar.

- Por isso te chamei aqui, pra dizer que suas férias acabaram. Agora você  vai ter que trabalhar.

- Sem problema, chefe, eu até que gosto da labuta. Vai dar quantos anos pra cada, uns mil?

- Nada disso. Uns cinquenta tá bom demais.

- Tá louco? O que vão aprender em tão pouco tempo? Quase nada.

- Se eles souberem utilizar a inteligência vão poder viver muito mais. Afinal, terão a minha essência. Com a ciência aprenderão a criar remédios e máquinas para prolongar a vida. Uns terão que cuidar dos outros, só a união de esforços os fortalecerá, porque terão corpo frágil. Mesmo assim serão os mais velozes no solo, na água e no ar graças às máquinas que irão inventar. Poderão se comunicar com outros seres humanos em qualquer lugar do planeta em fração de segundos e serão a personificação da harmonia.

Deus fez um gesto e um protótipo humano apareceu, ao que a morte criticou:

- Não parece muito com o senhor.

- Eu disse que é minha imagem e semelhança, mas cada um será diferente do outro. Só a união de todos eles corresponderá a mim.

- Não gostei da cor.

- Vai ter preto, branco, vermelho, amarelo, todas as cores e, ainda, a mistura delas.

- Não tá muito baixinho?

- Vai ter baixo, alto, gordo, magro, médio, todos os tipos.

- Vai ser andrógino?

- Não, já deu errado em Marte, desta vez vamos fazer macho e fêmea.

- Presta atenção no que eu digo, Deusdete, vai dar merda. Deixa o diabo chegar perto dele procê ver a merda que vai dar.

E deu, na visão da morte, deu a maior merda, pois teve que carregar bilhões e bilhões de almas de volta para o lugar de onde jamais deveriam ter saído. Algumas ainda fizeram mais merda e perderam o lugar garantido no céu para ir ao purgatório ou ao inferno. Tudo porque o Deusdete inventou de botar vida inteligente naTerra. Por isso achava melhor mandar um meteoro e plá, carregava toda a raça de uma vez e voltava ao seu repouso eterno. Mas o divino não a ouvia. Já havia mandado um dilúvio que só deixou viva a família de Noé e a bicharada. A morte fez a maior festa recolhendo as almas podres e levando direto para o inferno. Não adiantou nada, os descendentes de Noé fizeram a maior zona. Os gregos e depois os romanos dominaram o mundo, era uma putaria só. Teve o Alexandre, que se dizia grande, teve os Césares, tudo maluco, cada um com sua excentricidade.

Então Deus mandou o filho, coitado do piá, para consertar a bagunça que estava instalada. Que rabo de foguete. Como convencer uma humanidade materialista de que a coisa toda é um grande experimento de Deus? O moleque até que tentou explicar que nada deste mundo tinha valor, que só o que importava era estar junto do pai, mas quem escutou? Poucos, pouquíssimos. Convencer os retardados dos humanos de que os tesouros conquistados nessa bosta de mundinho não valem nada é como bater em ferro frio, os cabeças duras não entenderam nada. A morte carregava todo mundo, nada valendo os seus títulos mundanos, tudo lixo na contabilidade do Senhor. E Jesus conseguiu somente irritar os judeus, que esperavam um messias guerreiro para libertá-los, e também os próprios romanos, que não gostaram nada da conversa de que ele seria o rei dos judeus. Estes tramaram e o menino foi crucificado pelos tontos e manipulados romanos. Depois a religião criada pelos seguidores acabou se estabelecendo sabe onde? exatamente em Roma. A capital do império que oprimia os judeus e matou Jesus se tornou a capital da fé cristã no mundo.


O fato é que a morte trabalhou muito para recolher os cristãos perseguidos e dizimados até que a religião católica se tornasse predominante no mundo. O que teve de cristão assassinado e jogado aos leões nao foi brincadeira. Engraçado que isso só serviu para criar mártires e aumentar o número de adeptos. O playboy não conseguiu consertar as coisas na vidinha curta que teve, mas deixou uma mensagem de fé e otimismo que conquistou o mundo. Claro que o diabo não deixou barato e logo começou a fazer com que os cristãos agissem com idolatria exacerbada. A igreja começou a perseguir quem fosse contrário a sua doutrina. Daí a morte passou a recolher as vítimas dos cristãos, que eliminaram qualquer pessoa que fosse considerada herege. A doutrina passou a ser obrigatória, deixando de lado o livre arbítrio que o criador havia embutido na alma de cada ser humano. A morte foi se tornando cada vez mais ranzinza, pois havia previsto que isso iria ocorrer. A humanidade se dividiu em territórios, ideologias, religiões e castas. O que era para ser união se tornou egoísmo e exclusão,  o mundo não teve um só dia de paz absoluta. Os tesouros foram monopolizados e as pessoas escravizaram umas às outras. Mesmo aquelas supostamente livres se vendem pelo sustento e sobrevivência de seus corpos miseráveis, que têm duração tão breve. Enquanto estão vivas se preocupam com a estética, com coisas fúteis, afastando-se cada vez mais do objetivo inicial de viver em harmonia. A inteligência virou mercadoria e as grandes invenções são patenteadas para enriquecer seus criadores. O benefício à humanidade é precificado e acessível somente a quem pode pagar. Na prática existe uma horda de seres semivivos que não são considerados humanos. O macaquinho homo sapiens não se contentou em extirpar todas as raças de humanóides, conseguiu criar sub-raças para discriminar. De nada adiantou a alma divina que Deus lhe concedeu, o instinto animal prevalece. De nada adianta a inteligência, as invenções da ciência e da tecnologia, o animal continua prevalecendo sobre o divino. O homem continua sendo bicho.
Jocelino Freitas
Enviado por Jocelino Freitas em 04/10/2019
Reeditado em 05/10/2019
Código do texto: T6761483
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Sobre o autor
Jocelino Freitas
Curitiba - Paraná - Brasil
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