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NO NHUMIRIM, PERTO DA LAGOA - com prefácio de Helena sousa

Sua narrativa é uma renda, com um toque de JJ Veiga e um sopro de Rosa!
Menininho, homem grande! Que desse sonho você  mata o leitor que ficará completamente tonto de lindeza! Depois dessa leitura,  cada um ficará qual uma jiboia inchada de palavras brilhantes!
Ainda continuo alimentada de  brilho das palavras, mas  muito mais, pois olhei miudinho.
Vi o “silêncio de cobra”, aviso nas palavras da mãe, tecer a armadilha enredadora do caudal. E pontos finais apenas no primeiro e último parágrafos a dizerem que tudo que se conta é a própria “tromba d’água” já inscrita no destino bem antes do dizer em palavra.  Agora, tudo preso na folha de papel, afoga quem tem que se afogar e deixa na terra quem nela tem que plantar.
Equilibrado na pinguela,  o menino há de ser tomado da torrente que, quebrando-lhe as pernas, oferece-lhe nadadeiras para a vida inteira, na mão sempre restante do pai salvador.
Há na lagoa uma grande onda engolida, uma morte, uma ressurreição
“não queria deixar nada e juntava tudo de olhar, tudo o que podia precisar se um dia fosse. E de olhar pra tudo como se fosse um mapa eu me perdia”
Tomo que o dia de precisar o abraçou para sempre e vc está sendo bem guiado pelo mapa que se decifra ante suas palavras em busca do tesouro.
*
Helena Sousa

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NO NHUMIRIM, PERTO DA LAGOA

Na noite anterior, tudo parecia comum e de sempre.
Tão logo a lua se colocou crescente, equilibrada atrás e no alto do Majestoso, percebi as mudanças.
Primeiro nossa mãe saiu para o terreiro de avental sem bicos de crochê e varreu a terra pisada de lá pra cá e de cá pra lá umas mil vezes. Depois decidiu: “amanhã não levo o almoço de mutirão pros homens na roça”. Isso foi mudança grande mesmo não parecendo na hora, tem coisas que a gente só vê o tamanho quando depois de nós. Já as pequenas mudanças eu percebi duma vez
Lá em cima, a lua calou tudo — nossa mãe, os bichos, a mata, a restinga, a rifaina. Calada, ela resmungou: “dia de crescente a lagoa enche”. Dentro desse silêncio que ainda não tinha acontecido por aqui, um silêncio perigoso, a cadeia de eventos do dia seguinte apareceu para mim desenhada no céu por intuição
Olha bem, naquele tempo eu não sabia que estrelas ajuntadas chamava constelação, nem sabia que o tudo de estrelas é mapa seguro desde quando o homem foi inventado. Naquela noite anterior compreendi. As estrelas formaram no revelado o desenho de um menino andando de costas, se afastando para trás com as mãos esticadas pra um desejo sumido. O menino andava no céu de modo distraído sem sair do lugar porque andava para trás. Era andar de quem volta, o menino voltando devagar crescia virando homem. De tão bom que era ver, dormi no capacho que ficava estendido debaixo da eira. E sonhei
Sonhei isso que tinha visto no céu, do mesmo jeito com a diferença de ser cada estrela uma pessoa e o céu inteiro a lagoa do Nhumirim. Tudo crescia nadando para trás: a mata engolia o terreiro, a lagoa engolia o Nhumirim. E dos homens que trabalhavam restava apenas a mão de um. Tudo estranho como convém aos sonhos e aos olhos de uma criança. Tudo estranho até o dia seguinte
Logo o sol nasceu o dia apertou tudo dentro duma ideia: “eu mesmo levo o almoço dos homens”. E fui. Abençoado por nossa mãe que acrescentou ao de costume: “passe longe do bambuzal que é mais perigoso que silêncio de cobra”. Entendi a clareza disso e caminhei para fora do terreiro, para dentro da mata e logo achei o caminho da lavoura pequena onde os homens destroçavam a terra para semear o milho na próxima lua. Mas antes, a lagoa
A lagoa era pequena, sempre cercada pelo bambuzal lindo de ver. Juntas, nas grimpas das alturas e sobre o espelho d’água, o bambuzal deixava quase toda a luz de fora. A lagoa parecia uma clareira apenas iluminada por uma réstia na hora do almoço. Tão rasa, a lagoa. Dava pra ver os peixes que na verdade eram girinos; também lebistes coloridos. Transparente como um véu o fundo de pedras brancas que de vez em quando refletia meu rosto e na luz para fora d’água eu era arcos-íris e tingia os bambus. Tudo encantado, mas eu carregava na cabeça a panela bem grande embrulhada em panos para não esfriar a comida. Na cintura ia uma cabaça de água do poço porque a água da lagoa era salobra. Estava nisso entre querer ver de perto e o medo do silêncio das cobras quando
Do longe da roça veio o grito que passou pelos primeiros homens e chegou bem fraco: “tromba d’água!”. Mas eu já tinha decidido que ia levar para casa uns peixinhos e já estava com os pés na pinguela equilibrando o de comer dos homens dentro da panela, agachado com uma das mãos cortando a flor da água. Ouvi de novo e mais forte, “tromba d’água!”
Num instante a água foi ficando turva, nada de peixe, nada de nada colorido. A clareira não era mais, o céu escureceu e engoliu o escuro bonito de dentro do bambuzal: “tromba d’água!”. De novo o grito. Só depois de ouvir forte bem perto é que atinei o aviso. Dei conta do perigo e aprumei o corpo em cima da pinguela. Num relance de vista, percebi de um lado os homens correndo para atravessar para o seguro seco depois da lagoa e, do outro lado, o ermo duma onda arrastando tudo no leito do ribeirão. A lagoa, eu no meio, escuridão sobre a pinguela. Mas a comida dos homens
O de comer é sagrado, não se joga fora. Por isso meu pai plantava milho onde os torrões prendiam as raízes de pau sem uso da mata. Primeiro meu pai ajuntava homens que tinham a mesma fome, depois arrancavam juntos os pés-de-pau; era assim que chamavam o que não servia para lenha. O que servia de lenha ia para a casa dos fundos e virava carvão, o resto ficava na terra mesmo que era para desmanchar, virar terra de novo e receber o milho. Eu sabia de tudo sem roçar nada, não deixavam porque eu devia seguir outro rumo. Para mim o destino reservado era a escola quando fosse hora. Pra mim o destino era levar a comida dos homens no dia em que a lua deu de crescer perto da lagoa, no Nhumirim
Eu sabia que o caminho da escola era o da estrada longe da lagoa e dos lebistes e não queria nunca deixar nada. E depois que veio o asfalto, soube que ia ser no ano que vem. Meu coração, porque eu todo era um coração de menino, doía de pensar a vida longe do terreiro e da nossa mãe com a vassoura separando a rala miséria dos grãos de café, a palha das cascas secas misturadas. Sentia doer gostoso, não queria deixar nada e por isso juntava tudo de olhar; tudo o que podia precisar se um dia fosse embora. De olhar para tudo como se fosse um mapa que pudesse um dia usar para voltar eu me perdia
Sobre a pinguela, já com as águas sujas dando nas canelas, atinei paro o que vinha. Restei sozinho, os homens a salvo do lado mais alto da várzea e o meu pai
Tudo foi num estalo. A panela levou a comida na corredeira, a cabaça boiou endoidecida longe e a lagoa não parava de crescer. Percebi aquilo como último, ia guardar? Percebi que guardar era bobagem, tudo ficava arrastado. Então pensei: “antes tivesse ido pra escola” e fechei os olhos para morrer com tudo que tinha guardado
Esse que lhes conta, tudo conforme e no lugar, tem no Nhumirim um pedaço do coração flutuando na lagoa como lua minguante; o que não é destino resta. O resto é história
Meu pai surgiu de repente perto de mim como peixe grande fora d’água. Quando eu já não conseguia mais segurar em nada, a mão forte e calejada dele segurou a minha. Dei de banda que nem tambaqui fisgado, engoli água suja. Minhas pernas já eram nadadeiras de um peixe que eu ia ser depois no mais tarde. Quando não, de repente, fui tirado num solavanco para ver o meu pai cair em vez de mim no meu lugar dentro do ribeirão
Eu não sabia por que guardava cada coisa que via, ouvia ou cheirava. O pão no forno de barro antes varrido com piaçava e alecrim, a colônia de barba que meu pai usava ou o amargo do café torrado e moído de manhã. Eu soube dizer só mais tarde o quanto dói saber que nada se perde de fato
Toda vez que a agonia de rever meu pai tomar meu lugar na lagoa perto do Nhumirim cresce dentro de mim, o menino escreve coisas misturadas como se tudo fosse palha e grão.
*
*
Baltazar Gonçalves
Baltazar Gonçalves
Enviado por Baltazar Gonçalves em 18/08/2019
Reeditado em 19/08/2019
Código do texto: T6723153
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Sobre o autor
Baltazar Gonçalves
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