Selvagem solidão

Que mundo encantador este, onde os bem-intencionados marcham com seus sorrisos ensaiados, distribuindo migalhas de compaixão como se fossem algum tipo de moeda divina. O amor, esse espantalho sentimental, serve apenas para mascarar o medo da própria insignificância. Abraços não apertam, apenas cercam, e as palavras são ornamentos vazios - como um colar de conchas ocas pendurado no pescoço da hipocrisia.

Dizem que a solidão é uma maldição, e que ninguém deveria carregar o fardo de si mesmo por muito tempo. Que bela mentira! A multidão, essa matilha disfarçada de sociedade, exige presença constante, proximidade vazia e acenos falsos em rituais sem alma. Querem que você pertença, que se dissolva no coro da conformidade, que se afogue em diálogos sobre o tempo, sobre as promoções do mercado, sobre os absurdos da novela da vez. Querem que você tema o silêncio, pois sabem que nele mora a lucidez.

Sim, a solidão é um território selvagem, mas ao menos é um território real. Nenhuma promessa de reciprocidade azeda o ar, nenhuma expectativa sufoca os pulmões. Daqui, ninguém finge se importar, ou lhe sorri esperando algo em troca. É um reino onde pensamentos podem, enfim, rasgar a pele do óbvio, e as palavras não precisam se vestir de polidez para serem aceitas. Onde a verdade, essa caquética cadela de rua que ninguém quer alimentar, corre livre, saudável e feliz entre ossos de conceitos mortos.

Há os domesticados, os que temem a sombra de suas próprias consciências. Pobres almas enjauladas em suas necessidades fabricadas, orbitando o medo de serem esquecidas, eternamente buscando uma audiência que as valide. Precisam ser amadas e lembradas, precisam que alguém lhes diga que tudo faz sentido. Tocam suas vidas como instrumentos desafinados, esganiçando notas de felicidade forçada, aplaudindo o próprio vazio com um entusiasmo histérico. No entanto, quando a noite cai e a máscara desliza, o pavor se insinua e o tique-taque insuportável da existência sem propósito martela suas mentes. Abraços mornos não aquecem o vazio, palavras sem ações não preenchem nada. E então, em desespero, eles se voltam contra os que não precisam, contra os que não mendigam, contra os que, ao contrário deles, suportam a própria presença. Chamam de arrogância, de frieza, de misantropia. Apontam os dedos em julgamento, recitam mantras sentimentais como preces de desespero, mas a solidão é um luxo pelo qual poucos podem pagar. O preço? Apenas a coragem de encarar a própria essência sem desviar o olhar.

Betaldi
Enviado por Betaldi em 30/03/2025
Código do texto: T8297508
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