Medos privados, lugares públicos
Existe um breve instante, cravado entre um lapso do que somos e o que mostramos, envolto em um véu invisível, de onde encaramos nossos abismos. Medos privados espreitam dos cantos da alma, enquanto sorrimos em lugares públicos e interpretamos versões de nós mesmos diante de espelhos que não refletem, projetam.
Atravessamos ruas, digitamos palavras e ajustamos nossas posturas e tom de voz como se cada gesto fosse uma peça de teatro silencioso, o teatro do medo. Medo de ofender, de não pertencer, de não corresponder. Olhares alheios são platéias e juízes invisíveis, e a condenação pode vir em forma de uma sobrancelha erguida, um silêncio prolongado, uma curtida que não acontece. Quem aceitaria o caos que nos habita? Entre o desejo de sermos autênticos e o pavor de sermos rejeitados, escolhemos um sorriso amarelo, a maquiagem, a legenda perfeita na foto - onde ninguém verá o suor frio ou o tremor das mãos.
Nas redes sociais, tudo é vitrificado. O sofrimento vira legenda motivacional, a angústia é editada com filtros coloridos, afinal, a fraqueza não tem curtidas, vulnerabilidade não viraliza. Vivemos cercados, mas não expostos, revelamos, mas não mostramos. Lugares públicos exigem polidez e coerência, uma ilusão de plenitude que sufoca a verdade de ser imperfeito.
Colecionamos versões, apagamos rastros, sorrimos para tirar fotos em que não nos revelamos. Mas... no silêncio da madrugada, quando não há público ou palco, será que ainda nos reconhecemos?