Não queremos amores mornos
Já não sou a que rastejava em nome do amor — esse falso deus que me pedia sacrifícios diários em altares de ausências. Já não me ajoelho em corredores frios esperando que mãos distraídas me acolham. Se o amor quer partir, que leve também as migalhas com que me alimentava.
Aprendi com o tempo — esse carrasco gentil — que há solidões mais férteis que certas companhias.
E que o corpo que suplica por presença muitas vezes está gritando por si mesmo. Não me dou mais em pedaços a quem não sabe devorar com os olhos e cuidar com os dedos.
O silêncio me fez amante. Na ausência de escuta, fui obrigada a ouvir meu próprio ruído interno — o sopro das vontades, o grito das veias, o desejo cru, sujo, impaciente, que se esconde debaixo das palavras que finjo dizer.
Não quero amores mornos.
Quero os que queimam a língua, que rasgam as costelas, que ferem — mas com propósito. Amores que olham para mim com fome e não apenas com fome de mim. Amores que sabem que minha carne é templo e terreno, que meu gozo é revolução e abrigo.
Não preciso convencer ninguém do que sou. Meu valor não está no reflexo que projetam em mim, mas na escuridão que habito com elegância.
Porque, no fim, aprendi:
há beleza no abismo, há poesia no sangue, e há liberdade, enfim, em não se oferecer mais a quem não sabe o que fazer com tamanha entrega.