A Cortina de Poeira
Talvez aquele homem que dobra a esquina tenha ultrapassado todos os limites que o teriam impedido de conquistar sua posição confortável, pela maneira que anda despreocupado, e a quantidade de sacola de compras no braço. Talvez, ele não tenha precisado empregar muita força para romper com essas camadas, pois é asseado, e sua boa aparência pode ter lhe granjeado bons círculos e contatos.
No entanto, seus tênis esporte, e o relógio no pulso que responde ao toque, são evidências de alguém ativo e disposto a enfrentar qualquer obstáculo; mas o jeito que passa os dedos entre os fios de cabelo para manter a mecha assentada de lado pode demonstrar que talvez sua vaidade o impeça de se submeter a certos desafios que possam vir a ameaçar a ordem das aparências pela qual prefere ser visto.
No interesse de vislumbrar mais um pouco, no cuidado para não ter a curiosidade percebida, sabendo que para completar a imagem da importância que faz de si ele provavelmente adiciona à ela o status de homem casado, percebo que para pessoas assim o tempo se abranda com todo o respeito. O universo refaz as contas, reposiciona as estrelas e sopra, no caminho de personalidades como essa, todos os ventos da boa sorte.
A imagem que contempla com orgulho no reflexo antes de abrir de fato a porta do carro, o enlevo que todas as amenidades e o conforto ao nele se acomodar proporcionam, dão o ensejo para enxertar nele uma noção enviesada de si mesmo; e vendo o farol piscar antes do carro enfim partir, imagino o quão longe eu iria com essa noção que uma vida nesses recursos é capaz de instigar. Na cortina de poeira que me cobre, reflito se a tristeza que me toma as forças e o ânimo, derivada da frustração pela falta de boa aparência, talento, instrução e perspectiva, não seria uma imagem tão distorcida quanto a dele.