Decateradrônimos perpendiculares

Isso não é uma saída.

Eu atravesso a rua entre murmúrios de mudança, no precipício de tornar o agora em ontem. Estou à beira do desfecho de quem sou por ora, mas no futuro terei sido. O passado santificado pela miragem distante da pobreza. Fortuna e irrelevância separadas por única oportunidade. Minha pele folga, já frouxa. A carne desliza dos ossos. Por favor, penso: por favor. Eu quero ser extinto. Ver-me como alguém que conheci em algum sonho.

Certas épocas já parecem assim. Dezembro de 2012. 16 anos. Sozinho em uma noite de Natal. Séries americanas e pratos festivos deixados por familiares ausentes como as coisas de um cão. Rindo em uma casa muda. Saindo para caminhar por ruas desertas nos últimos minutos da véspera, as janelas fechadas sangrando tons sazonais no exterior monocromático. Vozes e silhuetas. Traços de dentro se "dentro" fosse outra dimensão inteiramente, experiência comum ao meu tipo, enfeitada. Só isso. Só um menino que fugiu da escola. Três anos sem contato com formas humanas. Três padrastos alcoólatras. Magro e pálido e translúcido e drogado embora oco. Eu era um fantasma no mundo. E mesmo ali, resignado a ser a falha e o erro, uma noção persistente insistia: isso não é normal... Você também sentiu? Quando dormiu no chão?

Somos interligados, se tanto, como as vítimas de um atropelamento. Duas entidades miseráveis que não conseguem achar outras do mesmo feitio e portanto se confundem semelhantes. As consequências de nossos progenitores. Você é um parasita que, quando canso de odiar, alimento. Você não existe. Um livro de trechos escritos por desconhecidos. Vinte anos sem resumo porque tudo foi um resumo, então qual deles? A impermanência das coisas espelhada em um caráter que não transcende, cria nada para ficar. Reinvenção sem a substância da autenticidade. Descobrimentos precisam ser validados. O que importa deixa marcas, temporariedades criando eventos atemporais. Com cores desbotadas, com traços de erosão, carcomidos, reescritos, restaurados mas idênticos em essência. Você nunca me fez feliz e você nunca será feliz porque você nunca será. Solo revirado não enflora, é apenas solo, como em sujeira.

Eu te amei plenamente. Com a liberdade de quem mobília um quarto vazio e a estupidez do suicida que se arrepende entre o parapeito e o asfalto. Eu acordo com o gosto do beijo e do sexo na boca, e mais cenas que parecem fictícias. Eu não consigo imaginar uma melhora. A pertinácia da minha tristeza me impressiona. Quando estamos sozinhos, silêncios deixam de ser pausa e viram condição. O tempo que se ganha é fino ou espesso demais. Banalidades são internalizadas sem compartilhamento, afogam-se no fluxo das veias, não importam. Ninguém te atesta.

E se cortássemos o bolo no início da festa, sem espera? Sem prender os convidados por horas, à mercê do relógio. Cativos na apatia de domingo. Pondo a jaqueta com glacê nos lábios. Se eu fosse deus, cortaria-se todo bolo imediatamente. Minha voz retumbante bradaria: fique quem quiser.

Rico Brugi
Enviado por Rico Brugi em 23/03/2025
Reeditado em 23/03/2025
Código do texto: T8292344
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