Salvação miúda
Em minha peleja pela vida, a fome era uma chaga que devorava minha dignidade. O rosto vencido, a cara de manufatura, se ia, surgia outra, abambalhada, apartada da inocência, descida, depauperada, fraca.
Aprendi a calar-me e a não resistir. Aceitei os golpes do destino como um triste salmo. À noite, o vento empoeirado e as estrelas me humilhavam em sua fixidez
Cochilava, já com o dia, com receio de que alguém atentasse contra a minha vida, que não valia muito
Algumas vezes, me amparei na água ardente e na fumaça das pedras de perdição. Experimentei o êxtase e a queda. Desci ao mundo dos malandros, ladrões, bandidos, rufiões, proxenetas, cafetões .
Me afastei com muito custo dessa perdição. Ainda assim, repartia a última migalha de pão
Aprendi a conviver com a falsidade cotidiana e com a suja salvação do dia a dia. A solidão dos sozinhos me perseguia, a perambular em desvario, à procura de uma fresta que me conduzisse à esperança