Salvação miúda

 

 

Em minha peleja pela vida, a fome era uma chaga que devorava minha dignidade. O rosto vencido, a cara de manufatura, se ia, surgia outra, abambalhada, apartada da inocência, descida, depauperada, fraca.

 

Aprendi a calar-me e a não resistir. Aceitei os golpes do destino como um triste salmo. À noite, o vento empoeirado e as estrelas me humilhavam em sua fixidez

 

Cochilava, já com o dia, com receio de que alguém atentasse contra a minha vida, que não valia muito

 

Algumas vezes, me amparei na água ardente e na fumaça das pedras de perdição. Experimentei o êxtase e a queda. Desci  ao mundo dos malandros, ladrões, bandidos, rufiões, proxenetas, cafetões .
 

Me afastei com muito custo dessa perdição. Ainda assim, repartia a última migalha de pão

 

Aprendi a conviver com a falsidade cotidiana e com a suja salvação do dia a dia. A solidão dos sozinhos me perseguia, a perambular em desvario, à procura de uma fresta que me conduzisse à esperança

 

 

Labareda
Enviado por Labareda em 22/03/2025
Código do texto: T8291878
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