Ah esses passarinhos
Ah, esses pássaros... Que cantam num regozijo permanente, dando vivas ao dia que chega de mansinho
Queria ser eu uma gota de chuva que se transforma em uma ave de cristal, cantando ao vento e anunciando o dia com uma voz de seda. Isso parece ser tão banal e comum. Mas ouvi dizer que na Europa a natureza é quase morta; não se ouve mais a revoada de pássaros, nem mesmo seus cantos
Ah, esses passarinhos que piruetam, correm em bando, esvoaçam, bicam-se a si mesmos, estão sempre prontos para a vida. Viver é como dançar no fio da navalha, um equilíbrio precário entre o céu e a terra. Nossa relação com eles é de senhores absolutos
Quando a infância ainda era um jardim cheio de flores silvestres, lembro-me de que saía para caçar rolinhas com a baleadeira na mão; dirigia-me à mata próxima e ia atirar nas rolinhas. A fô-pagô, o caldo de feijão, a cardinheira... Mas nunca matei nenhuma, porque era ruim de pontaria. Além disso, havia alguns pássaros que eram considerados sagrados e a molecada não matava: o cardeal, por exemplo. A coruja rasga-mortalha também não se matava
Os pássaros só são ameaças aos homens em algumas fábulas, como a águia que devora o fígado de Prometeu, ou o abutre que bica o personagem de Kafka, ou os corvos ameaçadores. A águia só é perigosa no entorno do seu ninho, quase inalcançável aos homens.
Nenhum pássaro é ameaça aos homens, nem mesmo os banais pardais e nem os singelos pombos. Os pássaros são como fios de ouro que tecem a tapeçaria da vida; acordam-nos toda manhã, abrem alas para o dia que chega. Nos encantam com seus cantos.