Páginas em branco...
Pingos de chuva escorrem pela minha janela e, confesso, já perdi a noção do tempo. A caneta e o papel aguardam minha atenção, convidando-me a escrever. Levanto-me, prendo o cabelo em um coque e sigo até o banheiro. A água quente que escorre se mistura ao som da chuva lá fora. Na neblina do vapor, avisto novamente aquela velha mensagem escrita no espelho, acompanhada de um desenho de coração. Sorrio para meu reflexo, borrifo um pouco de perfume na nuca, visto meu roupão e sento na cama, esperando que as palavras e ideias se acalmem.
As ideias começam a fluir, e o frescor de um corpo renovado tranquiliza a mente. Escrevo sem pressa, pois quem tem pressa, tropeça. De repente, fragmentos de vida se desenham em minha mente, e me pergunto: será que a vida é realmente passageira?
Ouso afirmar que não. A vida não é passageira; é complexa, indefinível, em constante movimento e, acima de tudo, justa. A vida poderia ser a motorista? Quem sabe. Eu diria ainda mais: a vida é a estrada, a paisagem, o veículo que nos transporta. É aquilo que nos conduz e, ao mesmo tempo, permite que sejamos meros observadores, passageiros que confiam e deixam a jornada seguir, mas que muitas vezes permanecem inertes. Eis algumas opções.
A vida é, sem dúvida, justa. Assim como um grande livro que se escreve a cada dia, ela se constrói de memórias e histórias que despertam em nós diferentes e incontáveis sensações. Haverá algum atalho para vivermos algo mais profundo?
A vida é justa; o atalho de hoje pode ser a pedra que nos faz tropeçar amanhã. Quem tem pressa, tropeça. O atalho de quem é mero passageiro é diferente do atalho de quem conduz o veículo, aquele que vê a longa estrada — também chamada de vida — repleta de possibilidades à sua frente.
O livro, cheio de páginas em branco, volta a ser aberto. Diante dessas páginas não escritas, não vividas, encontro três palavras que se perdem no abismo de um encontro: paz, amor e felicidade. A dimensão e o significado de cada uma delas, quem sabe um dia, serão capazes de preencher o vazio deixado por todas aquelas páginas em branco, paradas, inertes no tempo daquele livro.
O desejo se dissipa em mensagens, e os indivíduos parecem esquecer o “como” e o “para onde” têm permissão de ir. O querer se confronta com o poder, paralisando as narrativas que poderiam se desdobrar. As linhas permanecem em branco, as margens, inexploradas.
Enquanto isso, ideias e tarefas cotidianas começam a invadir minha mente. O corpo clama por um momento de oração, o estômago anseia por uma refeição cuidadosamente preparada, e a vida simplesmente continua...
A chuva persiste em sua queda, algo que testemunhei... talvez, naquela hora, eu ainda não estivesse verdadeiramente acordado. Deixei que a imaginação falasse por mim. E agora, questiono: seria, de fato, um sonho?