Carta ao meu Pai

Pai , passei a vida inteira ensaiando palavras tentando elaborar meus sentimentos, sem poder entender o que era ser filha e pai. E não era apenas em dia dos pais, muito menos a condição de doar um presente, eu queria sentir o afeto, o abraço, a conversa regada de boas palavras, sem violência. Uma infância inteira de ausência mesmo na presença, que eu não podia entender. Mesmo quando colocavas na mesa o pão, a minha alma estava sempre faminta, sedenta de alimento que a nutrisse, alimentasse o coração.

Nunca teus olhos demoraram-se nos meus, o medo não me deixava fitá-los. E não lembro, eram teus olhos verdes, azulados, cor de mel a me amar?

Eu guardo nas lembranças sua pele negra do sol castigante, dia após dia na lida, do roçado às serras, arando a terra , plantando, aguardando a chuva, e na seca caçando juriti, rolinhas, pebas, qualquer bicho também faminto buscando mantimento pra prole, tu trazias no bisaco para encher as panelas vazias de nossa casa, junto à uma fruta de cardeiro, dos espinhos, o doce nos oferecia.

Eu lembro pai, que se faltava palavras afetuosas, teus braços fortes enchiam os potes com água, vinda de léguas distantes em barris sobre o lombo de um burro, enquanto tu andavas a pé, com os calcanhares rachados, calçando apenas alpagartas de couro já bem usadas. Era tua forma de amar, derramar suor e sangue para não deixar o básico faltar, água e pão.

Teu silêncio pai, me fez adolescente bradando raiva, ecoando revolta. No entanto, o tempo, melhor professor ensinou-me a gerir tudo, me fez poeta. E em cartas ou poemas, eu escrevia as palavras que você não sabia ler, nem podia dizer, mas sempre em pequenos gestos nos dizia: Cuidar é amor.

Uma vez outra, tuas mãos calejadas estendiam um cruzado novo à uma das tuas filhas, e a mãe sábia transformava em um pedaço de tecido para vestir iguais todas as outras. Teu amor não era palavra, era cobrir, era trabalho, era real.

Na tua pobreza, nossa casa com poucos móveis remetia ao que era mesmo importante, e não supérfluo, pois nunca nos faltou o teto.

Eu lembro pai, das madrugadas que saías ao trabalho e voltavas tarde, tão cansado, mas lembro também, das noites de festa do padroeiro, que deixavas teu enfado e tua rede guardada no torno, para nos levar ao parque.Uma volta no carrossel, e eu voltava tonta pra casa, mas imensamente feliz.

Pena pai, que eu só entendi teu jeito de ser já adulta. Só compreendi o teu jeito de amar quando entendi que o amor não é presente, muito menos uma palavra, é um sentimento que se constrói na dor.

Só aprendi teu silêncio, quando em mim já oculta, a mágoa calou-se, e minha alma amante fez-se canção para poder explicar que todo teu modo de ser, mesmo errante, sério e pouco gentil, também não sabia expressar com ternuras que o amor é esse todo:

Na falta, provê.

No cuidar faz crescer.

No trabalho educa, na dureza ensina valores.

O amor protege mesmo quando falta o abraço, e fala mesmo sem palavras.

Pai, só depois que virei poesia, hoje entendo você.

Paula Belmino