Eu vejo tudo de perto

(Um texto-poema longo, se tem mais o que fazer vai logo fazer para não ficar reclamando de ler um texto que era longo)

Eu vejo tudo de perto, bem de perto

no tempo e no espaço, no vento e no regaço

duas grandes guerras, as mães de todas as guerras

as Coréias, Vietnan, Afeganistão, Sérvia, Tchetchênia, Líbano, Irã, Iraque, Síria

as cidades em escombros, jerusaléns de hoje e sempre

Alepo, Kosovo, Bagdá, Beirute, Teerã, Damasco

África com fome, miserável, violenta e invisível, inexistente

Essas bombas certeiras que transformam cidades diferentes

em cidades todas iguais Hiroshima e Nagasaki

A CIA em cada tiro no Palácio de la Moneda

Em cada conversa conspirada nas ditaduras latino-americanas

América Latina nossa toda feita de saques e golpes,

latrina dos EUA cafetão e da Europa cafetina

enquanto panelas batem na Marcha pela Família com Deus e Liberdade, indisfarçável licenciosidade libidinosa,

os imbecis de 1964 só são mais velhos em 2016

em 2050 estarão todos mortos, mas vivem em suas tocas em 2020

o fatídico e inescapável ano de 2020, ensaio do apocalipse:

nunca conhecereis a verdade, porque a verdade vos cegará...

Vejo bem de perto a consciência apodrecida, silenciosa e oca

de quem matou Marielle e Anderson, George Floyd, Evaldo dos Santos Rosa, João Alberto de Freitas, 111 no Carandiru, 8 na Candelária, incontáveis na favela, um tiro, dois tiros, 17, 81 e mais um, sempre mais um, uma arma para cada um, cada um por si...

balas que se perderam na vida e nunca mais foram encontradas

nem as balas nem as vidas, 160 mil de uma gripezinha, mais uns incontáveis nas aldeias lá do norte, nas fazendas, nas terras invadidas, na terra queimada, na esperança arrasada.

Eu vejo tudo bem de perto, tão perto que cheira mal

Zumbis nos comentários atrozes a polêmicas inventadas,

cadáveres intelectuais, a morte da beleza, o reino da tristeza,

o império do ódio, o escritório do sadismo e da crueldade,

seres de escuridão, que escurecem todo um Amapá, que tem velhos, moças, crianças, cavalo, gato, cachorro e papagaio.

Escuridão capital nacional, Brasília branca e curva, cidade mausoléu,

covil, açougue, cidade sem mistério, cidade cemitério.

Dali sai todo o mal para tudo e todos, o fogo na floresta, o veneno nas plantas, veneno nos rios, a merda nos rios, merda da cidade, da fábrica, a merda da incompetência bem administrada,

esses distintos detritos e meus indistintos conflitos, tudo veneno,

veneno nas mentes, veneno nos corações, todo o veneno em nome de deus que é meu pastor,

igual aquele pastor ali da igreja que tudo me tirará, nada me dará.

Vejo de bem de perto, e com tamanho medo, como você e eu, nós todos que, de tanto não reagir, nos tornamos iguais a esses que tais, e talvez não sejamos nós mesmos nunca mais. Os atos de violência, as ofensas, o despudor, coisas tão normais,

e nossas dores e lágrimas, a indignação, não saem nos jornais.

Vidas tão violentadas, emoções anestesiadas, mortes tão banais.

Vejo de perto um mundo estranho que querem

Sem lei nem justiça, sem humanidade, sem alguma verdade, sem beleza nem esperança, sem arte, sem alegria, sem prazer, sem amor, o último significado a abandonar cada palavra.

Logo queimarão os livros com a gente dentro, e as casas e nossas memórias, queimarão nossa história, extinguirão nossa memória,

tudo para por no lugar algo novo, que já vem embolorado,

como esse capitalismo que dá certo para meia dúzia de gente,

que compram e vendem a gente como mercadoria barata e farta

e a gente foge com uma granada no bolso, um boleto na mão,

e um aperto bem ali no peito, um desespero que já é doença.

Vejo bem de perto este mundo um grande deserto,

aqui e ali um oásis com cerca eletrificada,

vida longa e próspera à elite, a ela tudo, tudo, tudo

toda a terra onde jorram leite e mel, Chivas Regal, Balantines,

Möe Chandon, e abundam ferraris e jatos gulf stream,

limusines e mais limusines e a porra toda dos busines

porque a vida é uma coisa e outra coisa são busines

a vida é nada e busines é tudo, nada é pessoal, é tudo busines!

E eu vejo tudo tão de perto que dá nojo...

(23.11.2020 - 10:49)

Marcos Lizardo
Enviado por Marcos Lizardo em 24/11/2020
Reeditado em 23/04/2021
Código do texto: T7119338
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