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Quinquagésimo terceiro dia

"A quarentena de um poeta"

Quinquagésimo terceiro dia:

Uma garoa cobrira o nosso lar naquela manhã e eu aguardara a descida rotineira e triunfal de Asaph que na noite anterior fizera uma de suas maiores travessuras:
O pirralho com seu uniforme tricolor subira em meu colo a me mostrar o escudo tantas vezes campeão. Pegara o meu ponto fraco que fizera com que eu o fotografasse a exibir seu manto nas redes sociais. Foram diversos comentários de torcedores fanáticos pelo clube olímpico e de toda parentela.
Asaph quando cedo acordara já tivera me dito que sua mãe lhe colocaria uma máscara e o levaria para andar de bicicleta na rua deserta do nosso bairro. A ansiedade para que chegasse o momento o deixara muito agitado e a psicologia de Aline para sossegá-lo fizera parte do processo da lida da quarentena. Ele voltara aparentemente sereno e programara um repeteco para o dia seguinte. Eu admirava aquela camiseta regata em seu talhe de atleta e ensaiava algumas embaixadinhas a receber sempre uma patada atômica, pois houvera naquelas pernocas musculosas pouca habilidade, porém muita precisão nos seus chutes que se não fosse a minha madurez de jogador ouvir-se-ia o grito forte de Maria.
A entrada da noite me convidara a ler um de meus romances de luz que me levara sempre ao mundo onde eu pudera viajar nos personagens que criara e torcera para que a vida real não se fartasse de catarses. Maria me servira a janta e quando avistara a rapa de arroz colado no fundo da panela, eu lhe despejara o prato e degustava a cada colherada a me lembrar de Tontonha quando Asaph se estacionara em minha frente a chamar a minha atenção:
- Vovô Pico! Não se come na panela.
Eu sorrira e lamentara a geração que nunca comera bolinhos de chuva acompanhados de refrescos de groselha. Ligara a televisão e sentara novamente na poltrona cativa do vovô e ouvira um repente de Maria:
- Asaph, o que você fez!
Fora picotada a camisa listrada próximo ao emblema com tesouradas afiadas.
O travesso menino estivera prestes a receber umas palmadas, mas subiu velozmente as escadas e se refugiara no colo do terceiro andar, o seu cafofo.
Passara alguns minutos e voltara o contrito moleque que sentara no primeiro degrau da escada a me chamar para uma conversa e me pedira desculpas. Eu dissera que estava muito triste e o deixara sensivelmente abalado. Não pudera resistir àquelas lágrimas de arrependimento e cedera a abraçá-lo e a enxugá-lo.
Quase na virada da noite eu subira para dormir e durante o meu ritual de orações, surgira Asaph maviosamente na escuridão ao lado de minha cama:
- Vovô! Eu quero te pedir perdão.
Eu tentara ser mais forte a dizer:
- Eu já te perdoei, durma com Papai do céu.
E a fala da mais doce criatura fora:
- Vovô Pico, amanhã compra uma camisa do Fluminense.

Fluminense

Quando o vi em preto e branco
Eu não imaginava o tom do seu manto
Foi quando apreciei suas cores
A ofuscar flâmulas outras

Foi Amor à primeira vista
Pelo verde, o grená e o branco
Era o início de uma conquista
Dos títulos tantos e tantos

O Verde do aroma e da mata
O Grená do sangue venoso
O Branco do véu da cascata
São as nuances do meu Glorioso

Por ti jamais sofrerei
É a certeza de grandes vitórias
“Vencer ou Vencer” gritarei
É o lema da nossa história
Ed Ramos
Enviado por Ed Ramos em 07/05/2020
Reeditado em 09/05/2020
Código do texto: T6940438
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Ed Ramos
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 60 anos
544 textos (6594 leituras)
23 áudios (1463 audições)
6 e-livros (1063 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 03/08/20 18:42)
Ed Ramos