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Homem de Cem Vidas e Uma Sombra
 
Já compreendo as coisas, sem interesse próprio. Às vezes sem nenhum interesse. Não me importam as vozes escorregadias.

Sou um só pra tão pouca gente e se me perguntam se atrás das portas se escondem fantasmas do passado ou espíritos presentes e oligárquicos, digo que sim, que fazem parte de minha seita de uma palavra só.

Posso dizer que estou refeito do susto. Ao meio-dia me passa um repentino que logo se desfaz. Sou compreensivo ao ponto de não entender nada. Sou pacífico ao ponto de me perder em minha própria floresta.

E se bebo, falo. E se não bebo, me calo igual às paredes caiadas, sem cor e indefinidas.

Tenho estilo, classe, mas me perco nas estrelinhas. Procuro atrás daquelas portas o que deixei de ver. Muita coisa, acho.

Mas não compreendo as coisas que se passam hoje. Não sou deste tempo e espero não ser de outro. Sou do tempo da aurora.

Outro dia, por parêntesis ou coincidência masculinizada, encontrei ao redor da rua um homem que tinha tudo.

Sua história era simples: ele era dotado pelos deuses. E por isso tudo o que fazia lhe cabia como uma pluma.

E era aplaudido por isso.
Ele contava ao meu avesso e corcunda, que tinha tudo o que queria.

Não sou meticuloso, mas displicente e acorrentado às promessas que nunca se cumpriram.

Ele era senhor de todas as guerras, dono de todas as portas. Fabricante de sapatos e sandálias. Vendedor de algodão-doce e motorista afeito. Dono de uma fábrica de sorvetes e outra de esquadria que só fazia caixões prateados.

Era perfeito. Tinha tudo. E isso me invejou ao ponto de lhe perguntar como havia sido dotado de tanto espanto e tantas surpresas que lhe caiam bem.

Ele apenas disse que antes de nascer sua mãe havia ido a uma mulher santa e de bênção em bênção, lhe havia santificado para o resto de sua vida.

Me intriguei, pasmo. Como um homem dono de alvenarias e pedreiras, locupletava-se em tamanha tristeza?

Esperei a resposta que não veio. Vim a saber por acaso que aquele homem que julgava admirável e dono de todas as coisas do mundo era simplesmente um viajante.

Viajante de cidade em cidade. Em cada cidade que ele ia, ele fazia um filho. Percorreu mais de cem cidades. E teve mais de cem filhos.

E naquela tarde amargurada o vi correndo pela rua principal de minha vila, que fica próxima a uma montanha muito grande e portentosa; um homem desgarrado, descalço e com os cabelos esvoaçantes.

Atrás dele corriam cem pessoas, entre homens, mulheres e crianças. O homem - dono do mundo - estava esbaforido de tanto correr.

E correram por ruas e ruas. Atrás, cem pessoas querendo agarrá-lo, para saudá-lo ou para matá-lo, não compreendia bem.

Então, resolvi contar quantas pessoas corriam exatamente atrás dele. E contei um tempão.

Cheguei a 99. Faltava uma.

E cheguei a triste conclusão: o homem que faltava correr atrás dele, para matá-lo ou amá-lo, era eu.

E num sobrepasso, calcei minhas sandálias e parti atrás do homem que, mais tarde, vim a saber, era também meu pai.

Pobre pai de cem filhos, cem mulheres e uma sombra.
José Kappel
Enviado por José Kappel em 19/07/2019
Reeditado em 19/07/2019
Código do texto: T6699939
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
José Kappel
Nova Friburgo - Rio de Janeiro - Brasil
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José Kappel

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