Das observações padece o poeta
E poe - se a refletir - fim de tarde olhar perdido, frio que se apresenta, cheiro de cerrado queimado que vem de longe adentra as vidraças, invade o ambiente, impregna, incomoda. A vida tem desses momentos do - cheiro do cerrado queimado - lembranças que adentram os pensamentos, os sentidos, invadem, tomam conta, incomodam.
Na percepção do cotidiano o poeta sofre de doença chamada observação.
Na observação da vida vazia, do falso moralismo, das falsas verdades, dos trejeitos treinados, da sensualidade inventada pelo olhar de quem as cria. O poeta sofre pelo fel que escorre da boca de quem incentiva a miséria e se delicia com a miséria de quem cai. O poeta sofre nas observações - onde vê a leviandade do conselho mal dado do incentivo ao dito erro que levam alguém a definhar. O poeta sofre com o uso, o abuso, a manipulação, e o escárnio de domínios produzidos pela falta de razão.
O poeta sofre pela inveja vista, inveja agregada que descocontrola, penetra sutilmente pele, veias, artérias em viagem silenciosa. O veneno da inveja toma conta do ser. O poeta percebe, se cala, sofre e recua.
O poeta sofre os erros que a natureza lhe impõe e sabe dos finais dos textos escritos nas linhas de suas profundas observações, sabe porque viveu, o poeta sabe do fim porque escreveu.
Quem então amará e estará perto de quem observa tão profundamente e se cala? Quem estará perto de alguém os lê?
O poeta é mentalmente solitário, observador, prudente...porque sabe...sabe como a vida enlaça e desenlaça...como a vida consome, como a vida se perde.O poeta sofre e sofre porque sabe que nada passa em branco abaixo do sol...
- Goiás, meu segundo amor - 2018.
- Da maturidade.