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O INSPETOR

(Linguagem coloquial)

 
     O prefeito Justino de Almeida de Pirambeba do Norte, “cidade com mil trezentos e treze habitantes, e que completaria mil trezentos e quinze no próximo mês quando nascessem os gêmeos da filha do vereador João de Deus no interior do grande estado de Minas Gerais”, deu um suspiro profundo quando com um pouco de dificuldade acabou de ler a missiva que acabara de receber da cidade comarca de Barão de Piranhães.

      Ficou por um longo período meditativo e por fim um pouco a contra gosto chamou seu secretário “José Dorceu” que entrou quase no mesmo instante no simples, mas amplo escritório da autoridade máxima de Piramba, assim carinhosamente chamada pelos habitantes da simpática cidade. Mostrando uma carantonha preocupada ele falou com sua voz de barítono mostrando involuntariamente a gravidade dos acontecimentos que a tal carta trouxera. O secretário evitou qualquer pergunta já que o semblante do chefe não parecia querer dar no momento nenhuma explicação. Não se importou, saberia dos fatos antes do final do dia e saberia disfarçar sua curiosidade, apenas ouviu as ordens: Ô Zé, ocê vai inté a casa da prefessôra Maria Candó e mim traiz ela cá nu meu iscritóri mordi qui ieu tenhu uma prosa quela. José Dorceu apenas respondeu já tô inu sô Justinho, o prefeito retrucou: Contas veiz ieu pricisu di falá procê qui o meu nomi é Justinu, ocê num aprendi mermu né Zé? O sinhô adiscurpi mordi qui minha língua num da pra falá “Justinu”, apois dexa acumu tá, vai fazê o queu mandei, é pra já seu Justinho. Meia hora depois ele estava voltando com Maria Candó que vinha preocupada com o que o prefeito queria, será que ele tinha alguma reclamação de algum dos pais dos seus alunos?

     Chegou à porta do escritório e pediu licença para entrar e ouviu aquela voz que ela achava poderosa, grossa e potente: a sinhora podi intra dona Maria Candó, senta aí na minha frente ca nossa cunversa vai sê brevi. Ela se sentou depois de ter cumprimentado o mandatário com uma reverência e as palavras, bãu dia pru sinhô sô prefeitu, ele respondeu e ela se sentou, ele estava com a carta na mão e novamente releu algumas linhas, as mais importantes a seu ver e depois se dirigiu à mulher falando sem ser interrompido: Essa carta foi ixpidida pelu consei da iscola da cidadi comarca di Barão di Piranhães. O assuntu quela ta tratanu é cum respeitu a vóiz mecê i a iscola du nossu municipi, e mordi di que, quês tão falanu qui vau mandá um inspetô pa sabatiná us mininus qui istuda ca sinhora, mim inxprica o qui qué dizê essi tar di sabatiná? A professora sorriu por dentro da pouca sapiência do político, e ficou feliz de mostrar seus conhecimentos respondendo: Ah issu é facir sô Justinu, é fazê prigunta prus alunu, ah intonci é issu, dona Maria, os seus alunu tão prontu pra arrespondê as prigunta? Oia nóis num tem anssim separação di crassi, mordi quelis istuda tudu juntu, né mermu? Os alunu qui ta mais diantadu e lenu o quartu livro, é só a Margot, fia do Antoin Bigodi, o Juca du Jampruca a Teresa fia da cunceiçãu e o mais diantadu qui é o Zé Broinha, aqueli mininu é muitu intiligenti, us otru ta mei atrazadu ainda.

     Bãum, ês receberu cunformi ta iscritu aqui uma dinuncia qui nossa iscola num insina dereitu us mininu, agora a sinhora faiz la o qui pudé mordi caqui ta todu mundu sastisfeitu cu trabaio da sinhora e ieu num vô dexá a sinhora na mãu não, a sinhora podi cuntá cumigu, mordi queu sei qui issu é intriga da upusiçãu qui tãu fazenu o maió fuxicu pensanu qui vau ganhá as inleiçãu anu qui vem fazenu essas bestera. A professora agradeceu a confiança e fez questão de afirmar que ela ia fazer campanha para o candidato da situação o Vereador João de Deus desde já. O prefeito agradeceu e recomendou-lhe muito sigilo sobre aquele assunto entregando-lhe a carta e pediu que ela não mostrasse a ninguém e nem comentar a respeito do assunto, depois que ela lesse lhe entregasse pessoalmente para ele arquivar como documento da sua gestão no governo de Pirambeba do Norte. Ela após jurar que manteria silêncio e apenas comentaria com os meninos sobre a vinda do tal inspetor, mas sem falar da carta, se retirou e se enfiou no seu quarto e leu e releu a carta pelo menos vinte vezes até decorá-la palavra por palavra e voltou ao escritório entregando-a na mão de Justino conforme o combinado. Voltando para casa meditando na forma de como abordar o assunto com seus alunos no outro dia. Dia seguinte, seis horas e meia, ela já tinha aberto à escola e sentada à sua mesa tentava se concentrar num livro de língua pátria, mas ansiosa para a chegada dos alunos.

     Sete horas fez soar o sino e os alunos entraram passando por ela em pé perto da porta, cada um que passava fazia uma reverência e lhe dava bom dia, alguns trazendo frutas, as mais abundantes eram goiabas e mexericas e algumas laranjas que ela agradecia e pedia para colocarem sobre a mesa. Após a chamada e a constatação de que todos os alunos estavam presentes, ela pediu silêncio e atenção de todos dizendo. Crassi... Tá vinu aí um inspetôri da iscola da cidadi de Barãu, e eli vem ca mordi fazê sabatina em ocêis. Ocêis num pricisa di priucupá muitu, cus mais preparadu, na hora queli priguntá eis levanta e arrespondi, viu Zé Broinha, ocê a Teresa a Margot e o Jampruca, num ispera não, condi eli priguntá um docêis si alevanta e arrespondi, ieu vô armá um pranu condi ieu cunversá queli, achu qui vai da certu. Ieu queru pidí pru Chicu Capoti, o Tarcilu, o Jeromi a Nicota, a Serma e o Jãozim mordi nesti dia ocêis num vim na iscola ta bãum? É coceis ainda tãu muitu trasadu dus otru i é meió ocêis num ta qui e corrê riscu di arrespondê uma prigunta erradu. Oia vamu repassá as liçãu tudu, pa num corrê pirigu. Vamu vê: Giografia, ô Broinha qualé a capitár do Brasil? É Brasia fessôra! Oia Broinha num discuida, a genti tem di falá Brasilia, ah sim sinhora vô isquecê mais nãu, E quar a capitár di Mina Gerais, é Bel Rizonte, oia num isqueci é Belu Rizonti. A Ingraterra fica im quar cuntinenti? Nas Oropas, ta bãu... Eli num vai repará, i carqué coisa ieu falu que é o mordi di nóis da roça cunversá.

     Margot, Ritimetica procê, Condi ocê racha uma mixirica nu mei quantas banda fica? Fica duas fessôra, e condi ocê racha in cruiz? Fica quatru pedaçu fessôra. Final da aula que nem teve recreio os garotos já tinham repassado o primeiro, o segundo terceiro e quarto livro e a tabuada inteira, a di mais, a di menus, a di murtipricá e dividi. A professora estava aflita e ela própria procurou melhorar seu vocabulário, repassando os livros de língua pátria, e conjugando verbos. Ieu vô, tu vai, eli vai, nóis vamu, vóis ídis e elis vãu., Ieu fui, tu fostis, eli foi, nóis foi... “Né sim não” é nos fomu, vóis fordieis... chu qui issu né sim nãu, fordieis? Sei lá dexa sim mermu, o urtimu é, elis foram. Ah tô cansada minhã ieu istudu mais, já vai batê deiz hora. A semana inteira a molecada ralou até no sábado teve aula e o tal inspetor não apareceu, outra semana e nada, os garotos já estavam afiados e a professora satisfeita, treinava falando difícil com as pessoas, passou a falar você, Boa tarde, em vez de batardi, bom dia em vez de bãu dia, hoje vou almoçar mais cedo ao invés de hoji vô cumê mais cedu.

     O pessoal da cidade comentando, gente a prefessôra ta é falanu difici sô, inté o prefeitu botô reparu nas mudanças no palavrório da Maria Candó e até comentou: cêis vê cumé as coisa, foi só a prefessôra sabê qui vem um colega dela ca pra cidadi i ela já currigiu as cunversa tudu, ieu falu coceis, pressa cidadi nossa qui é piquena num prercisa di prefessôra mió é nada. Todo mundo concordou, afinal quem estava elogiando era o prefeito, tipo: “falou ta falado”! Para garantir que tudo sairia direito, o prefeito no domingo matou um garrote e fez um churrasco para os companheiros políticos e mais tarde, se reuniram no pomar deixando alguns jagunços tomando conta do portão com ordens para ninguém entrar, e perto do açude fizeram o conchavo elaborando o plano para que a vinda do inspetor fosse satisfatória e ele voltasse satisfeito para a cidade grande. O prefeito falou para o secretário, Zé ocê percura meu capataiz na fazenda, qui ieu já falei preli intregá um capado de arroba e meia procê, ocê dá um banhu nu poicu, i dexa eli iscundidu naqueli quartu nus fundu da prefeitura e na hora cu homi chegá ocê já leva eli la e da para eli, mais num fala qui ieu qui dei, fala qui é um presenti di nóis tudu, i fala preli qui é preli num pegá muitu pesadu cus mininu e dexá u indereçu qui nóis manda intregá o capadu na casa dele. Aí ocê leva eli nu meu iscritóri queu vô da um contu di reis preli, agora ocêis vai tê di assiná um paper preu botá issu na conta da prefeitura. Todos acharam que estava certo, afinal o prefeito não podia arcar com tal prejuiso sendo que ele estava fazendo isto para o bem da cidade.

     Na quarta feira de manhã, chega um carro preto na cidade, Chevrolet quarenta e oito rabo de peixe, capota conversível com placa branca e escrita, “oficial” rodou devagar pela avenida principal da cidade “e também a única” as pessoas acenavam da janela e o chofer, na verdade o próprio inspetor acenava de volta até encostar o carro na casa onde se via em letras enormes escrito: “Prefeitura de Pirambeba” Em baixo as palavras? “Uma obra do governo do prefeito Justino de Almeida” Zé Dorceu todo solícito abriu a porta do carro e fez o importante figurão adentrar à prefeitura antes lhe dando um afetuoso abraço e se apresentando, guiou o quarentão pelos corredores da casa e o levou até o tal cômodo escondido e já lhe mostrou o capado, o homem aceitou e agradeceu e quanto a mandar entregar, ele pediu ao secretário para matar o bicho e limpar que ele mesmo levaria o presente, Zé sorriu satisfeito e passou a cantada: Pois é inspetô nóis se juntemo pa comprá essi presente pro sinhô, mordi qui nóis ca gosta muito da iscola e da prefessôra e nóis qué cu sinhô alivia as prigunta prus mininus da iscola. O homem falou que sim, ele faria algumas perguntas, mas coisa que qualquer menino daqueles dias saberia responder. Voltaram e ele já entrou no escritório do prefeito apresentando o inspetor Genivaldo e conforme o combinado antes pediu licença, saiu e trancou a porta deixando a sós os dois figurões.

     O prefeito querendo se fazer de importante já foi logo falando, Inspetor ieu sei cu sinhô tem um trabaio pa fazê ca na nossa cidadi, mas tumem sei cu meu secretáro já deu procê um agradim qui nóis comprô e pidiu procê da uma ajuda pra nóis nessi casu, oia ieu tenhu mais um agradu procê, vô ti da quinhentus mirreis mordi cê dexá quetu essi trem ca upusiçãu aprontô cunóis qui é da situaçãu, só quessi dinheru e du meu borsu i ieu fiz essi arricibu aqui ó, procê assiná ieu fiz di um contu de reis, mordi qui u sinhô sabi, só vô arrecebê essi dinheru daqui uns seis mêis isntoncis tenhu di levá arguma vantagi né? O inspetor Genivaldo estava se rachando de rir por dentro de tanta felicidade, quinhentos mil-réis era vinte vezes o que ele ganhava por mês do estado, para ser inspetor do colégio Barão de Piranhães e por aquela grana ele era capaz de ensinar os meninos da escola até se formarem, mas quem disse que ele ia entregar a rapadura assim, nana nina, ele era ali alguém importante e tinha de mostrar isto. Assinou o recibo, agradeceu e disse, o estado paga muito pouco, e por isto vou aceitar seu agrado e ver o que eu posso fazer para ajeitar as coisas, mas espero que a professora tenha preparado bem os alunos. Perguntou para que lado ficava a escola e de posse da informação, despediu-se do prefeito e se dirigiu no seu carro na direção indicada.

     O secretário já havia corrido até a escola e avisado à professora que agradeceu e ele deu um jeito de sumir de perto da escola, ela mandou embora os alunos mais fraquinhos e ficou nervosa esperando o inspetor. Quando viu o belo automóvel encostar defronte à casa da escola seu coração gelou, suas pernas tremeram e ela só não chorou, porque tinha que dar exemplo e coragem aos seus alunos, aguardou a chegada do figurão e quando ele subiu os três degraus da escada ela estava no topo com as duas mãos estendidas o convidando a entrar e num gesto gracioso sorriu lhe dando as boas vindas escorregando nas palavras sem, no entanto ver qualquer demonstração do homem de desaprovação. Ela disse, seja bem vindu, o sinhor num repara nas humirdadi da nossa iscola pruquê ela é pobre, mais nóis tem muito amô purela. O inspetor pensou pela professora da para saber mais ou menos com são os seus alunos, mas o calor do dinheiro no bolso e a lembrança do porco que ele ia saborear o fizeram ser condescendente, apenas respondendo o cumprimento e dizendo que sua permanência seria breve, quando então se dignou a olhar à classe.

     Os alunos sentados, estavam limpos embora sem uniformes, a um olhar da professora os garotos se levantaram e o saudaram com um sonoro bom dia pru sinhô. Ele educadamente respondeu e mandou que se sentassem. Depois de acomodados ele tossiu para limpar a garganta e fez um, prelúdio do que seria seu trabalho ali. Quando se deu por satisfeito, dirigiu-se à professora pedindo autorização para iniciar a sabatina e ela concordou apenas pedindo para dirigir algumas palavras aos alunos e esperta disse: Para num da muito trabaio pru isnpetô, conde ele fizé a pregunta, “mudou de prigunta para pregunta” o alunu qui súber si levanta logu e respondi mordi eli é um cavaleiro muito ucupadu “quase acertou” e seu tempu vali oru. Aí até mostrando mais segurança fez um gesto com a mão direita estendida em direção à classe e disse; as ordes inspetô. Os alunos estavam confiantes, o inspetor dissera que faria perguntas simples e eles aguardavam. Ele fez à primeira ressaltando, vamos ver como estamos de geografia: Quem pode me dizer em que região está situado o estado de Minas Gerais? Os espertos, um esperou pelo outro e ninguém se decidia, como o mais sabido era o Broinha, mesmo não sabendo bem como responder, sentiu que era sua a responsabilidade e se levantou, Oia sô inspetô, aqui im Mina Gerais a maioria fica é ca religião catórica mermu, crente tumem tem, mais catórico é muitu mais. O inspetor Genivaldo já ia xingar um “puta que o pariu”, mas se conteve, coçou a cabeça e relevou dizendo ao Broinha pode se sentar.

     Ele sorriu até as orelhas pensando essa eu ganhei di premera! Maria ficou meio cética, pensou achei qui tinha erradu, intindi ca pregunta era rigião. Bãu, si num é o Broinha... Si fossi ieu tinha erradu! Muito bem, vamos ver: como se chama o satélite do planeta terra? Margot olhando a cara de assustado até da prefessôra falou essa mandô nóis pa lua, “ela falou alto pensando que estava só pensando e pimba”! O inspetor que já estava quase apostando em mais um resposta errada, ouviu e aí ele é que fico espantado, disse entusiasmado, ótimo quem respondeu? Margot meio encabulada levantou a mão e ouviu do inquiridor um elogio, muito bem senhorita, é isto mesmo o satélite do nosso planeta terra é a Lua parabéns. Ai quem quase xingou outro puta que a pariu, foi a professora, onde é qui essa minina aprendeu essi trem sô, uai... Ieu num dei essa aula. Bem, falou o inquiridor, esta resposta até já me faz pensar que em geografia a classe esta bem, vamos ver aritmética? Pergunto: a metade de vinte, mais dois, quanto é? Zé Broinha sabia essa de cor e salteado, por isto mesmo pensando em fazer bonito esperou que alguém se habilitasse, neste instante, levantou um garoto que ainda estava lendo o primeiro livro chamado Moacir mas era chamado pelos amigos de macizinho e respondeu calmamente são dozi seu inspetô, ouviu um, muito bem, pode sentar-se. Na hora que o Macizinho se levantou quase que Maria Candó mandou ele se sentar de novo e pensou... Prontu cagou pra fora du pinicu vai errá, mas quando ouviu a resposta do garoto as lágrimas vieram aos seus olhos e ela pensou, não que o garoto era esperto, mas que ela era “meiór prefessora du qui pensava”. Sorte que o garoto era quem media o leite da fazendinha do pai e sabia fazer estas contas.
     
O inspetor fez outra pergunta desta vez de fração sem avisar, Eu tenho uma maçã e divido ela em oito pedaços, como um oitavo desta maçã, quantos oitavos me sobram? Pronto agora ferrou, nem a professora sabia. Só que Zé Broinha desta vez apressado e certo de que sabia a resposta, se levantou e aí esqueceu como era a pergunta, olhou meio envergonhado para o inspetor e disse: pode ripiti a prigunta pra mim? Genivaldo entendeu o palavrório do roceirinho, e repetiu a pergunta, Broinha ouviu e ficou pensativo, olhou para a professora que quando ele se levantou pensou, nossa o Broinha vai sarvá a lavora!

Quando ele olhou para ela implorando por socorro ela pensou desiludida, “ara mais seli num sabi pruque alevanto”? Broinha quase chorando falou, oia inspetô ieu pensei qui sabia mordi qui nóis já feiz essa liçãu cum laranja, mais cum maçã ieu num sei num sinhô. Aí o inspetor falou e alto, puta que o pariu, se arrependeu e pediu desculpas, mandou o garoto se sentar e pelo desabafo fora do contexto ele não falou mais nada e passou para outra lição. Os garotos quando viram esta reação e até a professora, ficaram com medo da braveza do inspetor, aguardaram as outras perguntas nervosos e um olhando para o outro e pensando no que às vezes a professora para lhes fazer medo contava: que, no colégio da cidade onde ela estudara quando os professores ficavam bravos com os alunos batiam com palmatória até as mãos dos alunos ficarem sangrando. Mentira deslavada o pouco que sabia, aprendeu com a avó que sabia ler e escrever e era bem inteligente. Bem vamos ver se sabem história geral. Quem descobriu o Brasil? Teresa se levantou confiante e respondeu Foi o Pedro Alvres Cabrali. Genivaldo apesar da pronúncia errada agradeceu à garota e deu-lhe os parabéns, mandando-a se sentar, Aí disse vou fazer apenas mais uma pergunta e espero que alguém me saiba responder. Depois que eu fizer a pergunta vou dar um tempo para pensarem e aí sim eu vou dizer que pode responder, quem souber.

Muito bem... Aguardou que todos estivessem prestando atenção e fez a pergunta: Quem foi que colocou fogo na cidade Romana? Repetindo, quem foi que colocou fogo em Roma? Pensem bem vou lhes dar três minutos, tirou seu roscoff patente do bolso, fingiu que olhou a hora e o guardou novamente, “fita” a porcaria do relógio estava quebrado há mais de dois anos e ele não tinha dinheiro para o consertar. A professora abriu a boca e ficou com ela aberta os garotos olhavam um pro outro e perguntava onde qui fica essi trem dessa cidadi? Dois irmãos, Valdemar e Adilsom “o primeiro chamado pelo povo de Wardemá o segundo chamado de Adirsu”. Eles eram os garotos mais traquinas da escola, só viviam aprontando já tinham amarrado cinquenta bombas de São João no rabo de um gato, tocaram fogo e o bicho saiu disparado e entrou no canavial maduro, no ponto de corte e incendiou a roça de cana e o pai teve que pagar o prejuiso deu um bode danado, viviam arranjando encrenca perseguindo as meninas quando saiam da escola, volta e meia o pai dava uma boa coça em cada um e ele ficavam uns tempos quietos depois começavam a aprontar de novo.

Os dois começaram a cochichar... O Adilson falou : Wardemá, foi ocê qui pronto essi trem? Ieu não sô, nem sei ondi fica essa tar di cidadi, aqui, oia lá em Wardemá, tevi um dia dessis cocê garro a égua do pai i sumiu u dia interu, si foi ocê, é meió contá logu mordi qui ieu num vô pagá pru coisa qui ieu num fiz di jeitu ninhum. Waldemar retrucou, dexa di sê besta Adirsu, ieu já falei procê qui eu fui cumê a égua du pai i ela disparo cumigu e nóis caiu na ribancera i custei pra mordi saí di la sô. Cê acha qui ieu ia botá fogu ni cidadi dus otru? Sei lá, ocê veve fazenu trapaiada e sempri mim meti nu mei. Podi ficá sussegadu, fui ieu nãu. Bãu sô cê feiz ô nãu o meió é fica quitim e num falá nada sinãu é capaiz di nóis apanhá ca tar di parmatóra e adespois o pai inda mata nóis di pancada. Waldemar armou uma tromba e ficou quieto no seu canto, mas Broinha que estava de olho nos dois irmãos e os vira cochichando, comentou com a Margot, aí tem o dedu daquelis dois, apostu quelis qui prontaru essi trem, Margot respondeu tumem to achanu qui é elis.
     
     Passaram um pouco mais de três minutos e o inspetor levantou a mão para chamar a atenção e logo a seguir falou, muito bem, podem responder: quem colocou fogo em Roma? O broinha se levantou e novamente achou que era dele a responsabilidade de tomar a frente da coisa. Oia aqui sô inspetô, queru falá pru sinhô qui ieu num sô di falá coisa qui ieu num possu prová, purissu achu qui quem feiz a trapaiada devi si alevantá e cunfessá o mar feitu, num vô apontá ninguém imbora aqui todu mundu magina quem qui é. Ieu vô falá pru sinhô, ieu num fui qui fiz essi trem! E indignado, como o mais probo dos meninos sentou-se. A professora se levantou e num arroubo de coragem e desprendimento defendeu o seu aluno mais querido! Oia seu inspetô, essi minino aí ieu cunheçu desdi di condi eli era pititim i cunheçu o pai a mãi i a famia deli tudu. Botu minha mãu nu fogu queli num feiz nada dissu, num possu falá pru tudu elis mais a maioria aqui é di mininu bãu e num ia fazê um trem dessis. Falou e também si sentou dignamente tendo a certeza de que cumpriu com o seu dever. A meninada falava incentivada pela coragem de Broinha e da professora, ieu num fui, ieu tumem num fui e ai di quem falá qui ieu fiz um trem dessis, Margot falou alto e até meio brava: ieu seis tudu mim cunheci, i sabi qui ieu num gostu di trem erradu. Si arguém mim botá nu mei dessi trem vai tê di si vê é cum meu pai coceis sabi muitu bem qui num carrega disaforu pra casa, acabou di falá e como a desafiar o mundo, fuzilou com um olhar de raiva a todos os colegas.


     Bem, desta vez o inspetor soltando fogo pelas
ventas não falou, gritou merda, bosta e olhando para a professora disse a senhora passe muito bem com os seus alunos, dona professora de soldadinhos de chumbo que talvez saibam mais do que seus, seus... Não achando a palavra certa desceu a escada entrou no carro e rodou duzentos metros, parou, chorou, deu meia volta encostou de novo o carro e novamente pediu desculpas pela sua atitude descortês tanto com os alunos como com a Maria que estava atarantada e chorosa. Ficou ali conversando com todos sem que ninguém desse um pio e depois que repetiu as desculpas e ouviu de Broinha as palavras, u sinhô tumem devi di discurpá nóis, mordi qui aqui nóis é gente dereita e si nóis num feiz um trem erradu nóis num fica caladu mermu.

     Esta bem, então eu estou desculpado? Falou e segurou a mão de Maria que foi às nuvens e na hora já começou a rezar para o tal inspetor ir para o céu quando morresse. Genivaldo mais calmo voltou a funcionar o carro e deu partida parando apenas quando chegou à prefeitura, entre a cruz e a espada, pensava em devolver o dinheiro e recusar o porco e cumprir o dever, por outro lado era muita grana. Ninguém jamais iria saber o que se passara ali...
     
Deu-se conta de que o secretário estava junto ao carro e lhe deu atenção, José Dorceu lhe falou: Oia o sinhô manobra aí o seu tumóvi e incosta ali di ladu daquela porta que us homi tá isperanu pa botá o capadu dendu guarda mala. Oia nóis limpô bem dereitim e inrolô cum foia di bananera e saco di istopa podi ficá sussegadu qui num vai saí sangui. Ele decidiu a ir em frente e fez o esperado, a operação foi feita num piscar de olhos e ele voltou com o carro e parou na frente da prefeitura, desligou e entrou no prédio acompanhado do secretário, entraram no escritório do prefeito que foi perguntando curioso em saber o resultado da tal sabatina.

     E aí acuma foi la cus mininu? O inspetor primeiro cumprimentou os presentes, desta vez o escritório estava apinhado de gente, alguns de pé, por estar faltando cadeiras. À cadeira de frente ao prefeito estava vazia e como era destinada a ele, sem cerimônia se sentou. Esperou o povo fazer silêncio e respondeu, vou ser breve, pois, meu tempo está pouco. Olhe senhor prefeito, sua escola precisa melhorar e com muita urgência, peça a professora para se esforçar mais e exigir dos alunos, mais empenho. Vou contar para os senhores algumas coisas da sabatina, Perguntei a classe, tendo eu uma maçã, e a dividindo em oitavos e comendo um oitavo desta maçã, quantos oitavos restariam? Um garoto se levantou e me respondeu depois de muita lengalenga, que sabia fazer esta conta com laranja mas com maçã ele nunca tinha feito.

     Os presentes ficaram em silêncio e o prefeito resolveu dar uma satisfação ao homem, oia aqui sô isnpetô, intoncis ele respondeu inté certu, mordi qui aqui nóis num tem essas fruita não, aqui o sinhô sabi, né gente? Nóis tem goiaba, laranja, mixirica, pitanga, tem um monti, mais nossus mininu num cunheci essas fruita istranjera não, ieu mermu nunca cumi essa tar di maçã. Mais o qui mais deu erradu lá?

     O inspetor balançando a cabeça contionuou Bem até que no computo geral eu estava aceitando como regular, mas aí eu fiz a última pergunta e a coisa realmente mostrou que a sua escola precisa de mais afinco no ensino. Imagine que eu perguntei e olhe que eu dei tempo para eles pensarem na resposta. a pergunta é fácil... Quem colocou fogo em Roma? Acreditem senhores, todos responderam que não tinham sido eles, até a professora saiu em defesa de um aluno dizendo que punha a mão no fogo que o menino é direito e não faria tal coisa.

     O prefeito meio sem graça disse: Oia seu inspetô, o sinhô arrelevi este trem, nóis já feiz um acertu né? Intoncis vamu dexá quetu, nossus minino aqui só pricisa na verdadi di aprendê assiná o nomi pa votá, ô intoncis pa contá bizerru nus pastu, mordi qui dinheru aqui corri muitu pôcu né gente?Todos fizeram coro e o inspetor vendo que não adiantava argumentar, se levantou se despedindo para partir e antes ainda ouviu o prefeito dizer, aqui sô inspetô, falou alto para que todos ouvissem, cum respeitu aqueli assuntu do fogo, ieu achu qui é um trem seriu, mais pá num criá casu pru mordi di bobagi e nossa gestãu pulitica ficá mar, faiz anssim, o sinhô da pra nóis um zoiáda nessa tar cidadi quês botaru fogu, nóis num acha qui podi sê genti daqui, só si fô di upusição, mais num vamu mexê quissu não, o sinhô oia nessa tar cidadi, vê contu qui é o prijuizu ca perfeitura paga né mermu genti? É uai! O inspetor se foi, pedindo para o prefeito esquecer-se da tal cidade que pegou fogo e quando o carro sumiu o prefeitu falou, bãu deu inté certu, mas oia vamu apurá essi trem aí da cidadi, ieu inté falei qui pagava mordi que ocêis sabi ca famía dus perera tem aquelis mulequis, o Wardemá e u Adirsu e ês num é fáci, ieu num vô intra nissu não, mas ô Liru ocê é cumpadi du pai delis, leva uma prosa cum eli e manda eli dá um apertu naquelis mulequis si fô elis apostu quês conta, pruquê o pai delis bate pa machucá mermu, e si num fô elis, fica pru conta do quês aprontá pa dianti. Ah oceis viu cu tar du inspetô falô inté palavra sem arrespeitu? Aqui, ieu ia inté ritrucá, mais achei mió dexá pra lá pra num piorá a situaçãu. O secretário falou: pois é mermu, foi condi eli falô nu tar di computu gerar, eli divia de sê mais craru, vai geralizanu anssim né, é chatu, ieu quais qui distrambéio, só guentei pru respeitu du sinhô. É mais já cabô. Vamu sussegá, no sábado vai tê o jogu de trucu nóis vai divirti e vê a upusiçãu passá reiva pruque o ques aprontô num deu resutadio.


“Trovador”
Trovador das Alterosas
Enviado por Trovador das Alterosas em 07/11/2016
Código do texto: T5816302
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