Dentro da noite escura e fria
Dentro da noite escura e fria,
perambulamos com alguns farrapos no corpo.
O moço passa por nós, indiferente, olhos voltados para uma tela reluzente de um belíssimo aparelho celular.
Ri de uma realidade virtual, banalidades do mundo contemporâneo.
A moça que o acompanha esquiva o olhar
da miséria que não acredita estar presenciando.
Não. A noite fria e nebulosa desceu. Já não enxergam seus irmãos.
O casal busca refúgio em um abraço apertado. Ela, sensibilizada, quase volta o olhar. Mas, com receio de encarar cena tão inquietante, continua representando seu típico papel de burguesa "não tenho nada com isso".
Não era necessário muito. Uma palavra era o que nós queríamos.
Mas nunca nos veem. Nunca nos dirigem uma palavra..
Estão sempre apressados. Olhos atentos à realidade virtual. Ou extasiados diante das vitrines e das promoções milagrosas.
"- Pai, por que me abandonaste?"
Vencido pelo cansaço, pela fome,
sento-me debaixo da marquise do Banespão.
Pouco ou quase nada resta a se fazer.
O corpo entanguido, em posição fetal, lentamente vai sendo tragado pela escuridão.
Os últimos versos que balbucio são pouco conhecidos:
"A noite anoiteceu tudo.
O mundo não tem remédio...
Os suicidas tinham razão...."
As pálpebras pesam e a alma flutua sobre a cidade, a cidade que não para.
As luzes se apagam definitivamente.
Mas "o sol há de brilhar mais uma vez
A luz há de chegar aos corações
Do mal será queimada a semente
O amor será eterno novamente
É o juízo final
A história do bem e do mal
Quero ter olhos pra ver
A maldade desaparecer
O amor será eterno novamente
O amor será eterno novamente"