Uma outra, segunda
Imagina só, pensei que eu fosse cética!
Hoje percebi que sigo um ritual; todos os dias quando me preparo para o almoço - com as mãos cheirando a cebola depois de uma hora e meia de mais sal menos tempero e mais aroma, degusta, só beijo - pego um prato no armário e disponho o prato próximo ao fogo. Destampo a panela escapo o bafo da fervura.
Volto ao armário sem perceber que volto e pego outro prato pensando que é o primeiro. Despejo a concha cheia no segundo prato no mesmo momento que relembro o primeiro prato próximo do fogo somente quando o revejo.
Outro dia, mamãe perguntou: "quem é que come" comigo "todos os dias?". Senti inveja da observação, pois não suporto a sagacidade e a sede do seu olhar perto de lábios tão finos e boca tão pequena e certeira. Me limitei a fazer cara de tonta e nos outros dias continuei o ritual desavisadamente.
Em contrapartida (essa expressão não cabe aqui), algo saiu do lugar num dia que nem me lembro se ainda está perto ou se já faz parte das lembranças que se confundem com a imaginação. Talvez seja mesmo uma imagem difusa a desse passado que acontece hoje.
Pego um prato. Ponho perto do fogo. Pego o prato. Disponho a comida. Pego o terceiro (?!), ignorando que já me servi.
Porque uma segunda companhia?
Me indignei com essa invasão! Hoje eu não comi¹.
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*Mentira. Nunca deixei de comer depois de sentir o cheiro da coisa pronta. Nunca vou conseguir explicar como cabe tanta fome num corpo como o meu.