[Esperar... sim, mas só se a cobra estiver morta!]

[Agir sempre, mas sem esperança!]

Sei que as coisas são impermanentes... há no mundo um perene suceder das coisas... umas saindo de outras, negando-as, substituindo-as. Esta dialética do mundo bastaria para instituir em mim o senso de espera... esperar... esperança... Mas não; para mim, toda espera supõe uma audácia [ou uma coragem?] que eu quase não tenho — a disposição de crer! É como se um vento seco, quer dizer, um vento portador de umidade zero, secasse, até o limite da ardência, os olhos que eu tinha para lançar em esperas... Meu peito foi espremido até a quase total aridez pela descrença em esperas, e o meu coração não sabe de sobressaltos; não sei que coisa pode acelerar-me o pulso... a não ser um sobressalto causado pela trivialidade do instinto do animal que vive em mim [incluo aí, neste território, o desejo? Que animal sou eu... quando a minha boca seca de tanto desejo?!].

Certa vez, eu esperava por uma condução... esperava... esperava... há horas, eu esperava sentado num barranco à beira da estrada ainda úmida da chuva de uns três dias atrás; eu olhava meus pés, minhas pernas, meus joelhos.. Eu sabia que podia simplesmente sair andando estrada afora, sem esperar mais, mas eu escabreei... e fiquei esperando. De repente, olhando no chão, vi uma enorme cascavel estendida junto ao barranco, rente aos meus pés. Num um salto animal, vi-me na outra margem da estrada! Olhei para trás, e lá estava cobra, estendida... morta!

O sobressalto cortou totalmente o meu senso de espera; eu tinha de salvar-me da cobra, e tinha salvar-me no “aqui e agora” do susto, e não, ao depois! Sentindo-me ridículo, eu compreendi a inutilidade do salto instintivo: se a cobra estivesse viva, eu teria morrido na espera...

Menino observador do trabalho miúdo da Natureza contra a gente, e sempre investigativo de ideias absurdas, eu sorri para mim mesmo, ou melhor, sorri do absurdo desta ideia aqui: espera... esperar... esperança... sim, mas só se a cascavel que está junto aos meus pés [locomotores até sem eu querer], estiver morta, bem morta...

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[Desterro, 02 de março de 2013]

Carlos Rodolfo Stopa
Enviado por Carlos Rodolfo Stopa em 02/03/2013
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