REDESCOBERTA
Em criança, nunca me imaginei adolescente.
Já adolescente o meu pensamento flutuava livre, leve e solto por tudo que eu poderia e seria capaz de desfrutar, me revelando o prazer de viver.
Quando adulta, as responsabilidades por mim escolhidas, o casamento, a formação da família, a faculdade, a chegada dos netos, tudo isto e algo mais, revelou-me que a vida não é apenas deleite e prazer e que muitas renúncias, dores e sacrifícios passariam a fazer parte dos meus dias.
Agora, adentrando a velhice, quando as folhas do meu diário de vida foram quase todas utilizadas, percebo que muitas delas se espalharam como as folhas das árvores se espalham pela fúria do vento, e não posso mais ajuntá-las para dar continuidade ao que ali está registrado.
Filhos que se foram para distante, filha que se foi atender o chamado de Deus, netos que crescem distante de mim, amores que passaram e se perderam ao longo da caminhada, tudo isto permanece como se não pudesse ser alterado embora eu saiba que muda a cada dia, à medida que de mim, se distancia.
Percebo que eu posso comparar a minha vida a uma árvore frondosa cujas raízes fincaram-se com acirrado apego à terra sugando-lhe a seiva necessária à sobrevivência, à manutenção dos seus galhos e das suas folhas e, que o tempo, carinhosamente foi derrubando folha após folha ao solo, como se estivesse preparando-o para o seu repouso final quando não mais circular a seiva pelos seus vasos e os galhos estiverem totalmente ressequidos.
Neste processo, quando olho e vejo tantas folhas espalhadas ao meu redor,me sinto e me redescubro mais fortalecida espiritualmente e bem mais fragilizada fisicamente, sabendo-me, no entanto, capaz de enfrentar as intempéries que ainda estão a caminho.
soninha