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“DE MANHÔ


Valdemiro
Mendonça



           Acordei com o canto dos pássaros, e me virei devagar na cama para não despertá-la, foi gratificante vê-la dormindo um sono tranquilo e fiquei procurando entre as marcas do tempo os traços outrora juvenis de quando nos conhecemos, ri das minhas conjeturas.

           O tempo foi menos duro com você, ainda tem o mesmo rosto angelical, sua pele macia e aveludada e o porte elegante ainda atrai os olhares masculinos e mesmo após tantos anos o meu olhar se compraz com esta sua beleza que me faz admirá-la como a uma deusa grega ansiando pelos seus carinhos, agora ainda mais importantes, pois, nossas vidas vão caminhando para o desfecho natural e somos a âncora a nos sustentar neste mar bravio para não soçobrarmos nas ondas do desgaste conjugal.

            Menos afoitos e menos ativos para os arroubos do acasalamento, hoje temos a paciência para o dialogo e a compreensão de estarmos vivendo sobre os alicerces solidificados nas vidas dos frutos desta união e com todos as cicatrizes da longa batalha e os louros das vitórias que nos seguiram através do tempo, se mostram agora como despojos da conquista maior que foi percorrer juntos os caminhos cheios de pedras e chegar ao fim com nosso amor inteiro e mais forte que as intempéries vencidas.

           Tento sair da cama sem perturbar o seu sono, mas seus olhos verdes se abrem e o sorriso marcado pelas lindas covinhas no canto da boca rosada me premia e o bom dia soa como um bálsamo que curaria qualquer ferida ou mágoa na alma se acaso eu as tivesse. Diz-me que ainda vai dormir um pouco mais e me levanto com o timbre gostoso da sua voz nos ouvidos e vou em silencio fazer minha higiene matinal, com a certeza de que meu dia será perfeito e sem surpresas.

           Com se isto fosse obrigação do dia, quase que instintivamente pego umas das minhas cinco violas que tocara na noite anterior e tendo a certeza de que está afinada, subo para o terraço passando pelo túnel de uvas e me sentando de frente aos pés de pitangas nesta época sem frutos, mas verdes como todas às árvores da chácara vizinha.
           Quando ponteio alguns acordes me soam desconhecidos e gosto do que ouço, me enlevo com a beleza do som e de repente um pássaro preto que deve ter se cansado de viver no campo e veio conhecer à cidade grande, canta como se respondesse ou quisesse fazer dueto com a viola, o momento foi mágico e agora sim tenho que dirigir meus pensamento ao grande Pai por ser tão abençoado nesta minha vida rica de pobreza e pobre de riquezas, mas que eu não trocaria por nenhuma outra se tivesse que escolher um recomeço.

         Obrigado grande Deus e criador da vida.

Trovador das Alterosas
Enviado por Trovador das Alterosas em 03/02/2013
Reeditado em 03/02/2013
Código do texto: T4120810
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Sobre o autor
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