EPITÁFIO PARA UMA NOIVA
Dentro de si aquele embaraço das ideias e tudo fazendo voltas sem fim e tornando sempre ao mesmo lugar , aconchegos para a própria solidão, aconchegos de abraços no travesseiro , de cheirar o próprio suor, o cheiro de bicho meio estropiado e mãos sem paradeiro.
Era noite e ela lambia os quadros da memória ...de tempos de vida que vivera como se fossem pra sempre, enganoso é o nosso desejo de perdurar...
Ao lado daquele túmulo era o corte da vida pela pedra fria , pedra fria é faca amolada e corta e recorta imagens e lembranças, tudo indo assim ladeira abaixo ... nunca mais a sua vida de volta, a sua casa agora um labirinto sem começo nem fim, entrava por muitas portas e não achava saídas... Aonde a sua trilha de mulher amada ? Ficaram os retratos...
. Pula neste precipício agora, joga nele estes retalhos confusos que não mais se encaixam, o teu lugar será ali debaixo da fria pedra e logo mais somente restará a foto de noiva que tanto queres ver exposta, etérea e branca sob luares infinitos, e tu caminhando a tua jornada de morta e sorrindo ao retrato daquele dia de moça em flor, de rainha vestida em organza. Eras tão diáfana e agora os teus pés de morta pisam o solo onde pisaram os teus pés vivos, ora decompostos, florescidos em cinzas e mortalha. O precipício da morte é fundo de levezas e frios milenares, arrepio de alma em voo de libertação. Pula neste precipício como borboleta em voo repentino, surgindo das folhagens e pairando no ar como uma deusa única e bela.
Tresnoitada a tua face lívida de fantasma errante, e no entanto airosa em porte esguio , diáfana em tons fugazes por entre as tumbas, será tua a noite eterna e não mais lágrimas, apenas gélidas transparências úmidas , estremecimentos de misteriosas brisas, ruflar de asas invisíveis , farfalhar de sedas de onde despontam lírios intumescidos de sufocante aroma.
Acordando o dia, ouvirás os pássaros da aurora e tornarás ao avesso das horas, sombrio refúgio para aquela noiva, ora sorrindo na fotografia. Teu leito de heras e de musgos te fará dormir no tempo esquecido dos mortos, aconchego singelo de corpo sem fome, sem medo, sem dono. Dorme a paz branca e sonha os dias que não viste , as mãos que não te tocaram, os olhos que não te olharam quando os teus eram só súplica. Dorme a infinita ternura guardada, tesouro jamais encontrado no teu corpo de carne em solidão. Vê que na morte se abrandam as ânsias e tudo se iguala neste murmúrio de vozes vagas dos que já não desejam, nem ardem...