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“PESCANDO LEMBRANÇAS”.



                                      Valdemiro Mendonça


Iiiiiiiiiihuuu ta no papo, hoje vai ser a zero, tome uma que aí vem mais! Pô Henrique, sua anta giratória... Nem joguei o anzol ainda! Era o meu parceiro, que já tinha fisgado sua primeira traíra, e estava já contando com a vitória, sobre nossa costumeira disputa de quem pegaria mais peixes, ele sempre ganhava, era um exímio pescador.

Eu não me importava em pegar os peixes, gostava mesmo era de deitar-me no meio do capim, e ficar olhando as estrelas, ouvindo o que parecia um milhão de sapos nos seus coaxares em busca de uma companheira pra vadiarem ou... Acho que deveria dizer “sapearem” uma noite juntos. Os bichos nunca têm problemas, hoje com a sapa, amanhã com a perereca, depois de amanhã com a sogra, tudo beleza!

Os peixes sempre davam um tempo, de repente sumiam, depois voltava, eu sabia que o Henrique também estava deitado, ele me ensinara a não ter medo das criaturas da noite, ele se criara entre os bichos, eu assimilei facilmente aquele jeito de ser: “parte da natureza”.

Antes de conhecê-lo tinha pavor até do escuro, depois de dois anos juntos, sempre que tinha uma folga, nem me importava mais... Já tinha acontecido de uma jaracuçu passar sobre minhas pernas e eu continuar na mesma posição sem me assustar, embora nestes casos o meu amigo sempre me instruíra bem! Sempre vestíamos roupas grossas e calçava-mos botas de cano alto, uma boa proteção nunca era desprezada. Nunca tivemos acidentes com animais, a não ser vespas, mas, esta é uma história que outro dia eu conto, hoje só estou saudoso.

Agora estou olhando para uma estrela, especial, a mesma que nós víamos: ela... – ela – ela! Será que ela alguma vez ainda olha nossa estrela? Nossa estrela... Às vezes depois de um embate amoroso no pequeno jardim de inverno ela ficava acariciando meu peito, e pela abertura retangular víamos a mesma estrela e que combinamos ser nossa se algum dia ficasse longe um do outro, nos uniria sempre que a olhássemos. Era tudo tão lindo que nunca passou por nossas cabeças que um dia iria terminar, mas, ele chegou... Uma proposta destas que chamamos de irrecusável, trabalho, estudo, carreira, longe, muito longe, eu fiquei. Não era dono dela, era dela, ela não era minha ela se dava pra mim, ela se foi, sem levar mágoas, sem deixar mágoas.

Eu a vi caminhar para o embarque vi o avião taxiar, fiquei olhando quando ela entrou no ônibus que a levou até o aparelho. Enquanto ela subia as escadas eu ouvia o ruído das turbinas que ficaram gravados na minha lembrança. Fiquei ainda com a esperança de que poderia vê-la na janela daquele pássaro brilhante, que roncou e disparou pela pista e de repente subiu pelos ares em direção ao céu. Enquanto eu vi a silhueta da aeronave, acenei, enquanto eu acenava as lágrimas escorriam livres pelo meu rosto, era um pranto sem choro, eram lagrimas que saiam do silencio da dor de minha alma ferida...

O mesmo silencio que está fazendo agora, o mesmo que sempre volta quando olho para nossa estrela. Será... Quem sabe ela se lembra de olhar ainda a  nossa... A minha, a sempre minha luminosa estrela. Pronto... A anta giratória do meu parceiro acaba de dar outro grito, esta noite ele não vai me deixar dormir, vai me azucrinar, e quando eu conseguir dormir, ele pega dois malditos gatos e joga por cima da parede, em cima de mim. Mas tem nada não, outros dias virão.

Se alguém estiver lendo, já deve estar com sono. Então ta, boa noite. Ah... Pois é, o Henrique já foi... Ele viajou antes do combinado, se ainda estiver dormindo, deve estar lá perto daquelas estrelas... Lá, nos caminhos de São Tiago... Ô gente sabe não? Na tal de Via Láctea... Não? Ah, sei... Caminho de adão e Eva, ta... Então ta! E ela onde estará? Há! Quer saber? Vou pescar.


                                                   Trovador

Trovador das Alterosas
Enviado por Trovador das Alterosas em 27/05/2012
Código do texto: T3690433
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
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