Holocausto Nunca Mais —PsyCity VI (Romance Neo-Pós-Moderno)

AS

MUTAÇÕES

POLÍTICAS

Após trinta e cinco dias ruminando as mais obscuras possibilidades, Hélio recebe uma cartaviso. Dirige-se no outro dia pela manhã ao posto médico. No caminho, lembra-se de uma atendente de cor, na ocasião do segundo exame, quando retiraram a outra mostra de sangue, para a confirmação do resultado anterior.

A enfermeira do posto médico cheia das piadinhas, a fazer gracinhas com a aflição das pessoas da sala de espera. A mulher talvez não estivesse se dando conta do sadismo para com os pacientes. Ou melhor, instigava deliberada e sadicamente a ansiedade deles em saber dos resultados.

Na ocasião, ela cantava, provocativa, para o divertimento das outras atendentes de descendência negra e das de descendência branca e oriental que trabalhavam com ela. Sorriam com as provocações, algumas, “educadamente”, de modo quieto e contido. Todas se divertindo em usar um momento difícil, de angústia, para atormentar os clientes que estão na sala, à espera de fazer um exame de confirmação, e buscar resultados para si ou para parentes próximos. O senso de humor negro delas, saía-se com jóias de provocação, tais como:

— Jesus, Maria José, encomenda essa alma que está de pé. Ah, ah, ah. Ri, ri, ri, risinhos abafados respondiam aos refrãos da enfermeira de cor:

— Glória, glória, aleluia, aleluia, Jesus está chamando. Ri, ri, ri, ah, ah, ah. As descendentes orientais sorriem apenas com os lábios, silenciosamente. O deboche e os risinhos idiotas continuam, em franca demonstração de desrespeito e maucaratismo pela situação de opressão dos clientes na sala de espera.

A ansiedade das pessoas era motivo para banalizar e censurar a conduta dos pacientes, possivelmente portadores de uma ou outra das doenças infecto-contagiosas, detectáveis via exame de sangue.

Desta forma, justifica Hélio de si para consigo, vingam-se dos maltratos profissionais e domésticos, jogando-os sobre pessoas que nada têm com eles. “O inocente paga pelo pecador”. Desde que não tem ninguém inocente, todos ampliam os ressentimentos quando os atiram em direção a outras pessoas. É a lei subliminarmente aceita nesses tempos de ultratensão, de desdobramento das solicitações sociais e políticas do “Reich dos Mil Anos”.

Hélio busca parecer calmo, mas está apreensivo. Afinal, se for portador de uma das variantes do H3V, a PUF, a FLP, a CLL, a BPP, a MAC, ou a PQP, serão breves os dias restantes de sua existência. “Afinal, a civilização danou-se” como diria quando, há trinta anos, chegou a São Paulo de uma capital do nordeste, enfrentando diariamente, preconceitos mal dissimulados contra nordestinos, comparáveis aos dos brancos do “movie” Mississipe em Chamas, recém exibido numa retrospectiva de filmes do século XX, que mostra imagens de comportamentos racistas contra os negros nos EUA.

Preconceitos pipocam na metrópole: contra negros, nordestinos pobres, descendentes de orientais, homossexuais das classe menos favorecidas. Esses, para se defenderem transferem os preconceitos para terceiros. Desta forma criam sua própria intolerância em resposta à exclusão social contra eles.

— É assim, balbucia entredentes, que o caldeirão desse inferno ferve. Leitor de Sartre lembra-se da frase: “O inferno são os outros”.

Hélio sabe, se estiver infectado, para combater o vírus, deve ingerir, por dia, nada menos de 28 cápsulas de diferentes medicamentos, combinados para fazer diminuir a quantidade da presença do H3V nas células. É dureza, e sem nenhuma garantia de que não haverá agravamento posterior do contágio.

As novas infecções viróticas usam a ação dos medicamentos para fortalecer as variações da constituição celular das mutações do H3V: Todas elas são mais letais que o original. Ainda não foi descoberto o coquetel de drogas capaz de impedir que os atuais medicamentos sirvam de alimentação virótica (ou não sirvam para nada) após certo período de uso.

O estômago nunca foi seu forte, nem os rins. Talvez porque quando criança o pai misturava pequenas quantidades de mercúrio odontológico no pão, no café com leite, nas refeições dele. As bolinhas prateadas no café com leite pediam para serem ingeridas, como se fossem confeitos. Sim, porque se o pai as lançava aos alimentos, e a mãe via e não dizia nada, era porque ingerir as porcariazinhas devia ser uma coisa boa. No limbo da inocência infantil, pensava que deveriam fazer alguma espécie de bem. Afinal, pais foram feitos para proteger e providenciar a saúde física e mental dos filhos, ou não?

Nem sempre. Os seus, com ele, faziam tudo ao contrário. Talvez porque fosse o primogênito de uma grande família nordestina, e o melhor mesmo que poderia acontecer, na opinião do resto da família, era ele ficar idiotizado ou morrer. Afinal, um imbecil não sabe que tem direitos à educação e a saúde, nem pode encher o saco dos pais, cobrando-os deles.

Seus irmãos eram incentivados, real e subliminarmente, a tratá-lo com se fosse um intruso, tolerado, aceito à contragosto por todos. “Por que esse filho da puta não morre ?” Era a pergunta calada que faziam. Ele não passava de estorvo persistente. Dureza aguentar os desdobramentos desses preconceitos do lar, no dia a dia da vida social em São Paulo.

Nesse clima de latente insanidade e rejeição, fora criado. Tudo bem, tudo isso é passado. Mas seu estômago e rins ficaram com as sequelas em longo prazo, devido a ingestão das bolinhas prateadas de mercúrio odontológico. Se uma única cápsula faz arder os ácidos estomacais, como será a ingestão de vinte e oito comprimidos a mais por dia ? Nessas condições, melhor morrer. Ora, outra vez derivando. A presença virtual do H3V, ou de uma de suas mutações, faz com que sinta-se um mero entretenimento experimental do vírus.

A mente de Hélio toma rumos diversos, como que querendo se afastar do trauma do momento: a possibilidade de estar infectado, de sua “educação” familiar estar contribuindo, em longo prazo, para diminuir suas possibilidades de prolongar a vida adulta atual.

Kafka, Poe, Camus, Dostoievsky, Nelson Rodrigues, Proust, Tchekhov, Orwell, H. Dobal, O. G. Rego e Vianinha, explicaram nitidamente para ele, os meandros burocráticos das emoções familiares, acadêmicas, que conduzem o homem a uma aposentadoria dantesca, a uma memória mergulhada no fúnebre formol das células avoengas.

Adentrando o carro num estacionamento próximo, pensa: Aqui estou outra vez, pagando para ouvir as gracinhas da mucambinha de franjinha, dessas branquelas e de sua particular platéia de olhos puxados. Um preconceito não justifica outro, mas faz a ansiedade diminuir. Sai do ambulatório. No carro abre o envelope, lê o conteúdo. Porra, afinal a maldita ânsia acabou. Não é hospedeiro do H3V nem de nenhuma das “mutações políticas” do vírus. Todo esse anticlímax felizmente para nada, quase nada: foi diagnosticada uma hepatite HFC.

Hélio descobre, satisfeito, ser hospedeiro de outro vírus menos fatal. Afinal, o equivalente político do vírus, é apenas um intelectual política e ecologicamente incorreto, que caça passarinhos a tiros, acerta em elefantes, e teve a cara-de-pau de confessar publicamente que o coração estava consternado porque um de seus amigos particulares, ex-ministro mão grande de seu governo, não era mais banqueiro.

A falta de ética na política chegou a graus tão deformadores da realidade, que as pessoas apelidavam as infecções viróticas fatais com o nome de participantes do "Pra Lamento", ou do Executivo, denunciando-lhes as mesmas características das viroses. Um ex-presidente de nome com as iniciais HFC, depois de seu período político no Planalto, ainda teve a falta de vergonha de escrever um livro denominado As Artes da Polícia Política (A História do Reich dos Mil Anos Que Vivi).

Outro ex-presidente, conhecido pela sigla CLL, a mesma de uma das várias mutações do vírus fatal, costumava berrar em seus discursos: "Não me deixem só". Obteve 36 milhões de votos. A característica virótica do CLL é que, em apenas duas semanas da penetração no sangue do infectado, consegue disseminar-se por 36 milhões de células.

A TERRÍVEL PUNIÇÃO

DOS “MUITO ANTIGOS”

A Expedição Norton encontra-se, afinal, em Nova Xavantina, cidade dividida ao meio pelo “Rio das Mortes”. Nome conveniente, a se considerar a grande quantidade de pessoas que perderam suas vidas, ou não mais foram vistas, sem explicação racional aceitável, quando próximas a determinados locais de suas margens. A Serra do Roncador já não está tão distante.

Através das péssimas trilhas esburacadas, pedregulhos e lama, a expedição segue em direção às frinchas, em algum lugar da parede de pedra, rumo às indicações mapeadas via satélite, e às reveladas, até então mantidas em segredo. Talvez, tais indicações coincidam com o roteiro indicado na 3ª Parte do “Arquivo Jângal”.

No diário Rossi escreve: “Ao final de dois dias chegamos a uma clareira que se estende em declive até um córrego. Árvores erguem-se altaneiras, frondosas, destaque para as samambaias, em meio ao mato e ao capim alto e espinhoso. Esse, certamente, é o Lugar ideal para fazer valer a lenda da cidade perdida: longos raios sanguíneos do sol iluminam as sombras errantes do crepúsculo, a outra metade da mata, aberta na brenha da selva, permanece sombria.”

As mochilas descem ao chão. Hermann e Vassari curvam e cortam galhos, folhas e cipós para fazer armadilhas ao redor do acampamento. Norton faz reconhecimento do terreno, Adriane e Rossi armam as barracas. Tauil comenta com ele a estranha falta de cansaço: é como se sobrasse disposição e força para mais uma semana de caminhada.

— A tensão, a ansiedade, a perspectiva dos acontecimentos, originam essa sensação, deduz Rossi. Não se permita iludir por ela. Também sinto isto. Estamos a absorver essa enorme energia telúrica. A intimidade inusitada da companhia da natureza neste ambiente de promessas e surpresas, nem todas agradáveis. Quero uma noite de sono como se estivesse na suposta segurança do condomínio, sem pensar nos perigos que possam estar à ronda.

— Que história aquela, a que afirma ser a motivação da Expedição vingança ? Adriane reporta-se à conversa interrompida na pousada em Canarana.

— Você presenciou a habilidade de Hermann na direção da lancha? É como se já tivesse percorrido muitas vezes esses caminhos.

— Não é normal.

— Se Norton falhar, as indicações da 3ª Parte do “Arquivo Jângal”, podem ser úteis na localização das frinchas de entrada.

— “Arquivo Jângal”, que é isso, um livro de Jack London? Que vingança você mencionou?

— É uma longa história, que me faz sentir preso à teia de aranha cósmica, à fiação de Ariadne. Cada fio puxa outro e mais outro, num enredo interminável. Você quer mesmo ouvir?

— Por favor, interessa-se Tauil.

— Vou resumir.

— Prossiga. A expectativa de Tauil fez-se eco através dos tons anasalados da voz. Deseja testar os conhecimentos de Rossi a propósito das verdadeiras intenções dessa viagem. Desafia o jornalista a surpreendê-la com alguma possível informação alheia a seus conhecimentos. A nuança da voz traduz a expectativa inconsciente.

— Voltaire e dois outros alunos da USP, Hermes Vikander e Isaac Rondon, viajam até Barra do Garça, cidade próxima à Serra do Roncador, divisa com Goiás, às margens do rio Araguaia. Objetivo: chegar à sede da seita “Núcleo Teúrgico”, criada por Udo Luckner, morto em 1986, não sem antes se proclamar “Hierofante do Roncador”.

— Para realizar esse objetivo, precisam localizar o casal Armanlubison, sua mulher Dercyna, de origem peruana, que realizam cultos, meditação, e moram no centro de Barra do Garça, para dali, com a orientação dele, seguirem em direção ao ponto “X” de um mapa desenhado a partir das indicações verbais do índio Ianpupiara.

— A motivação prevalecente dos estudantes, não é apenas a da pesquisa e da aventura, mas a confiança deles nas informações colhidas durante uma entrevista realizada num contexto muito raro e fortuito, ao qual Isaac Rondon teve acesso. A irmã de Isaac, Ruth Rondon, assim como seu companheiro, Leogiorusso, estiveram no Xingu, em visita turística e religiosa ao “Núcleo Teúrgico”, março de 1969, um ano após a fundação, quando Udo estava vivo.

— Na entrevista o “Hierofante”, seus principais crentes e assessores, Timothy Paterson, Nina Ibez, e o casal peruano, obtiveram valiosas informações de Ianpupiara, da tribo dos kalapalos sobre a “emboaçaba”, a passagem para a cidade subway. Valiosas porque os nativos sempre se negam a mencionar a menor dica sobre ela, assim como os contatos com OVNIs. Eles têm uma inabalável convicção de que nunca devem falar nada sobre os “Muito Antigos”.

— Daí, esse excessivo zelo pela tradição do silêncio. Guardar os segredos dos antepassados, por medo de represálias e castigos. Os que falam sobre eles, morrem de “acamundú”, uma espécie de hemorragia cerebral, ou desaparecem. Os poderes telepáticos dos lemurianos podem captar o sentimento de culpa do nativo que violar a lei do silêncio, e revelar os segredos da tradição. Daí esta entrevista ser um acontecimento imprevisto, raro e bem-vindo, ainda que, posteriormente, trágico.

— Após ter ganhado presentes do casal de visitantes, e muito bêbedo, Ianpupiara soltou a língua. Disse que os filhos de Fawcett, Jack e Rimell, haviam sido mortos pelos xavantes, agressivos guardiões das fissuras na rocha da Serra do Roncador, que conduzem às ocaras debaixo do chão dos “Muito Antigos”. O coronel foi poupado porque conduzia a estatueta de basalto, de 25 cm, com as inscrições supostamente atlantes. Segundo ele, os morcegos e xavantes foram instruídos por mensageiros, a protegerem e conduzirem o portador da estatueta até certo local no coração da selva.

— Ianpupiara contou que o grupo xavante que conduzia Fawcett pelas trilhas da selva fechada, foi interceptado, ao anoitecer, por “dois brancos muito altos, yucabaras de testas muito altas, olhos miúdos, brilhantes e encovados, muito para dentro da cabeça.”

— A descrição lembrou ao casal Sílvia e Leonardo, que antes de se mudarem para São Paulo moraram na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, o enorme rosto esculpido na rocha no alto da Pedra da Gávea, conhecido por “Caverna do Vicking”.

Os nativos têm superlativo temor deles, dos “Muito Antigos”, também denominados Caiporas, Canguaybas, seres cruéis que espreitam os índios nas matas próximas às ocaras debaixo da terra. Não os mencionam nunca. Não falam nem de suas raríssimas aparições: o tabu mais radical do Xingu é este. Nesta ocasião o casal não mencionou a semelhança entre a descrição física desses dois brancos altos, com a cabeça do Vicking, na Pedra da Gávea.

— Cercados por grande quantidade de índios da tribo dos morcegos, os xavantes não relutaram na entrega do militar inglês aos estranhos. Dalí, Fawcett foi conduzido “para os terraços, corredores e labirintos debaixo da terra. Nenhum índio sabe dizer esse caminho”. Do modo como foi dito, Ianpupiara queria dizer:

— Nenhum índio fala sobre este assunto proibido. Tabu. Não pode nunca fazer isso: homens brancos muito altos viver entocados debaixo do chão, não gostar. Índio falar e ficar jucapira, com dor de cabeça, sangrar pelo nariz, pelos olhos, morrer acamundú. Perigoso emboaba ser inimigo muito mal. Pode acontecer comigo que estou dizendo a vocês. Índio ter sonhos ruins, "yuruparí".

— Na ocasião em que Fawcett foi entregue aos dois homens altos, um adolescente de cabelos escuros, seguiu com o grupo xavante até o “Vale dos Sonhos”, a trinta quilômetros de Barra do Garça, ocasião em que outro homem branco, acompanhado de uma mulher muito alta e loura, após doarem muitos presentes, despediram-se, entraram numa perua e seguiram, segundo informes posteriores, pela BR-070 até Cuiabá, a aproximadamente 440 km do local, onde pegaram o rapaz.

— Vale lembrar que o neto de Ianpupiara, entrevistado em março de 2021, fala de acontecimentos ocorridos no Xingu com seu avô, em 1925, há 96 anos, quase um século. Talvez por isso ele tenha se permitido falar dessas histórias que a tradição verbal do Xingu nunca menciona, e muito menos mencionam aos não-nativos. Ele acreditou que depois de tanto tempo, ninguém mais se importaria com isso. Ledo engano.

— Os que buscam uma solução para o desaparecimento de Fawcett, têm nesta, uma boa história. Mas o objetivo de Vikander e seus companheiros de faculdade, está em entrar nos subterrâneos, encontrar a “emboaçaba”. Para isto precisam do apoio e da proteção mística de Dercyna e Armanlubison, amigos dos familiares de Voltaire. O casal aconselha os jovens a voltar para São Paulo, isto porque, o neto de Ianpupiara, o mesmo índio entrevistado há tantos anos, foi encontrado morto, com a morte dos que são punidos pelos “Muito Antigos”: hemorragia nos olhos, ouvidos e no nariz, precisamente dois dias antes deles chegarem.

Adriane mostra interesse na história contada por Rossi. Tira do termo um chá verde fumegante, oferece uma xícara. Ele aceita e prossegue a narrativa.

— Voltaire volta a se empenhar nas pesquisas bibliográficas, para que a tese não tivesse uma redação considerada incongruente pelo orientador, ou viesse a ser rejeitada com a marca registrada da tirania acadêmica: A manipulação obsessiva do conhecimento oficial, do saber conhecido, por mais obsoleto, nostálgico e pseudo científico que seja.

— Voltaire conversa via Internet com sócios do Clube de Leitores de Ficção Científica de São Paulo. Via e-mail obtém endereços internacionais de arqueólogos, antropólogos e filólogos. Pesquisa bibliotecas a navegar pela rede.

Consegue o site, endereço eletrônico do professor de Arqueologia da Universidade de Israel, Chaimcoch. Comunicam-se via Internet. Coch transmite a tradução de uma “biblioteca” de tabuletas de basalto, gravadas pelo extinto povo dos Naacales. A “biblioteca” havia sido encontrada pelo oficial do exército inglês, coronel James Churchward, durante a colonização inglesa da India, a mais de cem metros de profundidade, numa das incursões do oficial, por uma das inúmeras cavernas abissais de uma cidade no interior do país.

A DESCOBERTA

DO CEL. CHURCHWARD:

OS SUBMUNDOS NAACALES

Rossi prossegue a narração do texto maldito do “Arquivo Jângal”, de autoria de Voltaire, para uma Adriane cada vez mais atenta:

Está escrito nos hieróglifos em basalto pelos Naacales: MU, como era conhecida a Lemúria, tinha um território muito maior que a Atlântica, ocupava toda a área do Pacífico Setentrional, abaixo do arquipélago do Havaí, até a região das ilhas Polinésias. O lemuriano é o povo mais antigo da antiga Terra.

— A aparência pareceria grotesca, certamente incômoda, ao padrão da anatomia humana normal. Mas não é por isso que não se encontram lemurianos na superfície. As condições de radiação solar eletromagnética e cósmica, pressão atmosférica, interna e arterial, impeliram esse povo a construir seu habitat nos subterrâneos do planeta.

— Segundo os hieróglifos, que de tão remotos perdem-se na longínqua noite da antiguidade, os lemurianos habitavam a Terra antes da formação de seus continentes. Por isso são conhecidos na tradição esotérica de muitos povos “a raça dos Muito Antigos”.

Inesperadamente, as trevas envolvem os membros da expedição acampados ao redor da fogueira acesa para aquecer o corpo e as palmas das mãos. Percebem-se os ruídos dos pequenos animais da floresta. As labaredas fazem estalar os galhos úmidos e os pedaços de madeira. Fazer fogo pode ser perigoso, mas as noites são muito frias nas localidades próximas à Serra dos Carajás.

Adriane pergunta a Rossi, que interrompera por momentos a narração:

— Parou por quê ? Por que parou ? O jornalista parece, aos olhos da fotógrafa, concentrado em algum ponto longe da narrativa.

— Essa narrativa, por vezes, provoca arrepios. Das transcrições da biblioteca de tabuletas de basalto descobertas pelo coronel Churchward, saltam descrições de cidades subterrâneas. Elas seriam iluminadas por fótons de oxigênio à base de 20%; de nitrogênio a 79% de vapor d'água, dióxido de carbono e argônio.

— A telepatia lemuriana é exercida com intrepidez e crueldade: Eles simplesmente sabem como lidar com boa parte dos outros 93% da mente dos descendentes cromagnon. Berço da civilização humana, e de suas tradições, nas tabuletas de basalto está escrito que a Lemúria esteve no início e estará no fim da história do homem sobre a Terra.

Sentem a influencia da excêntrica, extravagante, luminosidade lunar entre as árvores da floresta Amazônica. Essa epifania, esse luar de prata, bem-vindo clichê literário, inunda o espaço em derredor.

Aos olhos do jornalista, eles não passam de membros provisoriamente decorativos da paisagem Amazônica. Conduzidos a prosseguirem a aventura, por essa força maior, estranha. Os ruídos bruscos dos animais da floresta voltam a se fazer ouvir. Rossi acredita que são provenientes de pessoas ou animais que estão a observá-los silenciosamente. Norton, Hermann e Vassari prosseguem empenhados em procedimentos técnicos, defensivos. Tauil está muito atenta ao relato de Rossi:

— Os índios não falam. Mas é do conhecimento geral as advertências vêm de grandes quantidades de pessoas que se embrenharam floresta adentro, em grupos, dos quais apenas uma e outra voltaram para contar a história. Tais grupos conseguiram chegar em locais não permitidos, muito distante dos limites do “cinturão de segurança” de alguns sítios misteriosos desse mundaréu amazônico.

— Quando alguém ultrapassa esses limites, não raro faz-se sentir a atuação dos “come-come”, que em outras regiões são conhecidos por “lobisomem”, “chupacabras” e outras denominações regionais. Segundo estudiosos desses fenômenos, cones de luzes sobrevoam as redondezas desses sítios, garantindo a distância regulamentar dos curiosos mais afoitos, e dos aventureiros que ultrapassam os limites das áreas consideradas Tabu.

— Essas luzes, por vezes provocam delírios ou desmaios: fazem reduzir, de maneira drástica, a quantidade de glóbulos vermelhos do sangue dos atingidos, provoca anemia, indisposição, vômitos, dores de cabeça, pesadelos e, por vezes, sérias queimaduras de pele e hemorragia nasal, tendo sido registradas ocorrências mortais com alguns dos atingidos. Os “lobisomens”, os “come-comes”, os “chupacabras”, minaram a resistência de centenas de curiosos dos mistérios dessas regiões.

— Voltaire se perguntava se não estava a meio caminho de acreditar numa hipotética conspiração subterrânea para conquistar luciferinamente o Ocidente, depois de ter submergido alguns povos asiáticos numa cultura tipo adoradores de vacas.

Os ruídos furtivos de folhas secas e galhos sendo pisados ao redor do acampamento acentuam a sensação de que estão sendo observados. Rossi olha Adriane como quem diz: “Você não está sentindo-se observada”? Ela, mais interessada na continuidade da história, responde:

— Continue por favor, são ruídos de animais curiosos, atraídos pelo fogo e a movimentação do acampamento. Rossi não estava muito certo de que era apenas isso.

— Quem, acima do fuhrer, queria o povo judeu nos crematórios? Que mestre da natureza irracional pôde violentar com tanta intensidade e barbárie, a sagrada vida de crianças, adolescentes, adultos e idosos? Onde estava latente tanta crueldade, em que cofres de bancos suíços do inconsciente coletivo, foi-lhes depositada ordens de crédito para serem agentes luciferinos do horror superlativo do “Reich dos Mil Anos”? Do Holocausto?

— As ponderações de Voltaire convidam ao raciocínio: Como um país europeu com uma economia arrasada, liderado por um austríaco maníaco e delirante, súbito se transforma na mais poderosa potência bélica do planeta? Que segredos esse médium negro buscou, com quem os obteve? Com que forças fez um pacto luciferino de poder, em troca do sofrimento e do sangue de sessenta milhões de pessoas, entre elas, seis milhões de judeus?

— Dia 1º de setembro de 1939, quando tropas e aviões do exército do 3º Reich invadiram a Polônia, aquele moço conduzido pelos xavantes até Barra do Garça, seria um adulto com 29 anos, aproximadamente.

— Poderia ter servido de veículo de comunicação mediúnica entre membros da Ordem Negra do fuhrer, e a recepção de mensagens psi, por telepatia, dos magos da capital subterrânea, a Tule dos “Muito Antigos”?: Tule: outra coincidência pertinente: era também o nome da sociedade secreta, com uma hierarquia que tinha como ápice a Ordem Negra do III Reich, sob comando, comunicação e controle do médium maligno Adolfo Hitler.

— O mundo subterrâneo mantinha uma embaixada no coração de trevas do “Reich dos Mil Anos”. Seu principal representante, embaixador e mestre-auxiliar da Ordem Negra, Rudolf Hess, era um dos 20 mil oficiais e altos dirigentes nazistas capturados, de um total de 70 mil deles. Hess era egípcio.

— Afora os que morreram nas batalhas da Segunda Guerra, onde estão os outros 50 mil oficiais nazis que nunca foram localizados e presos, é isso ? Rossi confirma a suposição de Adriane:

— Os pesquisadores das histórias subterrâneas à História, sabem que os fatos acontecem a partir da ação de motivações que atendem a interesses de domínio político e econômico, camuflados por discursos carregados de supostas boas intenções, das quais o inferno está saindo pelo ladrão.

Foi falar no ambiente infernal, para logo meia dúzia de seus representantes diplomáticos aparecerem. Adriane e Rossi levantam-se e recuam dos caninos selvagens pontiagudos, a projetarem-se dos focinhos e dos pescoços que se esticam para cima e para frente, a poucos metros deles.

Olhos azuis irados, o ladrar da matilha, os rosnados ameaçadores de meia dúzia de cães pastores alemães, e outros, com aparência de lobos selvagens, uivantes. Rossi pensou: são os adidos militares do comitê de recepção lemuriano. Certamente não estão querendo pular sobre nossas gargantas, ou já o teriam feito.

Vassari e Norton empunham metralhadoras portáteis de fabricação israelense. Hermann gira no calcanhar, joelho direito no chão, costa a costa com Vassari, como se para permanecer mais atento, apura a audição movendo o pescoço para os lados, enquanto os olhos fixam-se ora à direita, ora à esquerda das órbitas.

Os lobos levantam as patas, e ao posicioná-las outra vez no chão, recuam, a sugerir que devem segui-los. Ninguém se faz de rogado. Sob tal ameaça, “quem pode manda, quem tem juízo, obedece”. Pegam as mochilas e logo seguem a trilha, pela qual correm, em direção a algures. De quando em quando um deles salta mais alto no mato em volta, abrindo caminho à frente, indica, a cada salto, como se adestrados nesta finalidade, por onde devem seguir.

O sobe e desce das valas e valetas, à esquerda, à direita, a determinação dos animais em se fazerem acompanhar, o segue-segue, a pressa prossegue por trilhas insuspeitas. De repente... Surpresa, o imenso dorso de um réptil que, de tão longo, em meio ao matagal dos lados, não se vê as extremidades. Adriane e Vassari tropeçam nele.

Rossi anotou no diário: “Paramos por momentos. Os lobos não gostaram e começaram a rosnar, num balé ameaçador. Bramem, arreganham dentes. Ameaçados, continuamos a segui-los. A quantidade deles, talvez seis ou sete. Membros da matilha circulam por todos os lados, como se não quisessem perder ninguém de vista. Se o cão é o melhor amigo do homem, esses lobos são os melhores amigos de quem ?” Esta, a única coisa em que o jornalista consegue pensar. Teme chegar à resposta certa.

Após uma caminhada apressada de sessenta minutos, chegam a uma pequena clareira, extenuados pela pressão implacável da matilha, que, felizmente, desaparece como que por mágica, de vistas e de rosnados. Os cinco membros da Expedição Norton estão com a pele do rosto rosada, avermelhada. As bochechas afogueadas da Tauil, rubras rubi, as de Hermann e Vassari, sanguíneas como bandeiras nazis, as de Rossi e Norton como flores de papavera.

Olhar penetrante e sentidos aguçados, Tauil sente-se saída da fria e temível, para a quente e perfumada noite. Desconhece se os outros sentem a mesma coisa, mas ela sabe: Precisa abrir-se a essa espécie de erupção vulcânica da consciência. Ceder a essa perturbação, oportunidade única de encontrar uma maneira de se fazer aceita e agradar a esse musgo verdoso imortal, milenar, que se projeta das rochas, por obra de uma magia inesgotável. O musgo a observa e avalia, como se desejando achar uma oportunidade de poupá-la, do que quer que seja: do pior, de uma tragédia.

Tauil sente-se grata, busca não interferir no desdobramento dos fatos. Norton tem em mente que a panóplia das folhas, nesse matagal que se confunde com a musgosidade de púrpuras algas-marinhas, é uma metáfora delirante de rara qualidade natural, a preencher de impressões animadas e sempre pouco pacificadas, os membros desta expedição. Estar nesse lugar certamente não é um dos menores prazeres da vida.

Rossi estranha lembrar-se tão nitidamente de versos do poema traduzido das tabuletas de basalto encontradas pelo coronel James Churchward, transcritos por Voltaire na Terceira Parte do “Arquivo Jângal”:

Wilbe enreda você em sonhos

numa teia Andaluz de medo e vergonha

Sua mente é apenas um túnel

de acesso aos Senhores da Noite.

Em sua concha Wilbe sonha sonhos

para que tenhas pesadelos.

Wilbe, mestre das fadas madrinhas

das bruxas, raposas e doninhas.

O domínio, a única coisa que conhece.

Por que ardes em apressar esse ensejo?

Canta, há um réquiem em tua porta

Seu coração agita-se em melancolia.

Um dia tudo terá acabado numa zona morta

todos os unicórnios e centauros

e nenhum coração a pulsar pela poesia.

Vassari e Hermann se perguntam como, estando aqui, alguém poderia negar que a história desse mundo deve tudo o que é, e o que será, a esta força à qual pertence este lugar.

Por mais fortes e guerreiros sejam, tendo participado como mercenários de conflitos que exigiam plena disposição dos sentidos, para superar as mais diferentes estratégias de combate, aqui, agora, estão cientes do sentimento de suas fraquezas. Aqui, estas armas, fabricadas pela tecnologia de ponta do complexo industrial militar de Israel, valem, enquanto instrumento de ataque e defesa, o mesmo que se estivessem empunhando uma flor.

Os instintos naturais de defesa prevalecem, condicionados pelo combate em campo nas selvas asiáticas e latino-americanas, acionados via mecânica neural paranóica, e treinados para combater inimigos, com armas brancas, de fogo, ou apenas com mãos e pés.

— Nada mal manter o dedo na pinguela, rosna Hermann. Opinião com a qual Vassari concorda, apenas aparentemente. Qualquer inimigo que fosse atraído para essa arapuca, não teria a mínima condição de sair vivo de uma emboscada. Se quisessem atingi-los, já estariam todos mortos.

— Está tudo bem, exceto por esse bafo morno que está vindo de alguma parte da parede de pedra. Adriane sugere a possibilidade de ser uma fissura de entrada subterrânea.

— Não está checando com indicações GPS, duvida Norton.

— Vale investigar. Nesse lugar nada vai checar com suas precisas indicações via satélite, Norton. A garantia de Rossi: "Logo você não percebe isso"?

Vassari e Hermann aproximaram-se para trocar opiniões com Norton, se expressaram numa língua asiática, provavelmente permeada por códigos.

A coisa estava se encaminhando para algum tipo de desentendimento. Talvez estivessem sugerindo que, tudo bem, o pessoal do jornal está livre para fazer suas próprias pesquisas. Não precisamos deles. Os gringos talvez estivessem chegando a alguma conclusão desse tipo, quando se faz ouvir uma sonoridade longa e grave, uma nota musical que soa como um sinal imitando o piar demasiado prolongado de uma coruja. O som se repete, agora, como uma nota sol, soprada longe, de uma flauta andina.

Calam-se, ficam assuntando, os olhos atentos, imóveis, concentrados. De onde quer que tenha vindo, veio de algum lugar dentro do paredão da rocha: hei-lo outra vez. A busca durou uns dez minutos. Da encosta da Serra não há como prosseguir. Basta achar de onde está vindo esse “hálito”.

Meio encoberta por plantas silvestres que descem dentre as fissuras musgosas, mas não muito altas da rocha, a estreita passagem horizontal permite a entrada de uma pessoa por vez e por mochila. Antes de galgar o corpo inteiro para o interior da fissura, investiga a possível presença de serpentes e outros répteis, não querem ser surpreendidos pelos animais peçonhentos do lugar.

Norton consegue atingir este patamar, após subir com um dos pés, usando as mãos de Vassari enquanto estribo. Está a meio corpo para dentro da fissura horizontal, quase imperceptível, a dois metros e meio acima, no paredão da rocha. Após alcançarem a parte interna da fissura, Hermann e Norton acendem lanternas, mas não conseguem que permaneçam acesas por mais de quarenta e cinco metros.

A lanterna de Rossi arrasta a luminosidade meio hesitante do foco, pelo teto. Há pouco mais de um metro e meio de altura. Ao focalizar o quiróptero logo cima da cabeça, pergunta-se: “Essa espécie é hematófaga ou ictiófaga ? De qualquer forma, a coisa não está boa, tenho sangue nas veias e o signo em Peixes.” A décima segunda constelação do zodíaco.

O percurso apresenta uma série de desníveis que em nada facilitam o arrastar às mochilas em fila indiana, na direção do interior da profundidade subterrânea da estreita passagem cavernosa. Problema: as lanternas não têm mais foco. Não é bateria, elas são novas, ninguém vai atrás do que possa ser. O grupo consegue avançar cinquenta metros e pára. Norton passa óculos com lentes infravermelhas que permitem ver no escuro.

Rossi anota no diário: “Felizmente a hora é de parar. A sensação de euforia cede lugar ao cansaço físico. Amanhã, as seis, a façanha continua. Vassari acredita: talvez todos tenham pensado que essa pode ser a toca do ofídio gigante à filme de Spielbergson, visto quando corríamos com os lobos.”

Para Hermann, ficar sem dormir dois dias seguidos não é problema, é uma bem-vinda oportunidade da mente ficar ruminando pacificamente muitos dos horrores presenciados nas escaramuças das guerras de que participou: Aqui há outra espécie de inimigo, minha experiência beligerante, talvez, de nada sirva para enfrentá-lo. Censura-se por acreditar ter pensado uma bobagem. Está exercitando um velho truque de guerra: superestimar o inimigo, para fazer aumentar a adrenalina, o ódio e tudo o mais que a agressividade destrutiva, combustível inflamável do medo, possa trazer à tona, para melhor e mais fanaticamente enfrentá-lo.

Norton está simplesmente eufórico. Leu parte dos arquivos do coronel Churchward sobre o povo dos naacales. Sabe que nas lendas esotéricas desse povo, grandes serpentes de certa espécie, conhecem as propriedades da matéria primeira. Seus membros rastreavam o caminho até ela, em busca da pele que soltou-se da epiderme, para fazer um caldo, após adicionar algumas folhas de relva.

Aquela poderia ser a rainha das serpentes da lenda, a que absorve obrigatoriamente a substância primeva, azul celeste. Quem ingerir certas propriedades específicas de suas substâncias orgânicas (compostos específicos de carbono, hidrogênio, oxigênio e nitrogênio), dota-se de força oculta prodigiosa, de clarividência. Consegue submeter a vontade de outras pessoas. Fica invulnerável a qualquer intenção de terceiros. Rossi também não ignora os arquivos naacales. Acredita agora que a Expedição está no caminho certo. Ele começa a intuir algumas das motivações do mercenário Norton e de sua Expedição.

NO MOSTEIRO

SUBTERRÂNEO

DA AMAZÔNIA

A atmosfera de grotão e certo odor de enxofre são incômodos naturais. Adriane comenta que por essa não esperava: “O inferno ter mesmo odor de enxofre”. Rossi sorri do comentário enquanto matuta sobre a grana preta com os gastos da expedição. Norton não economizou: um óculo desses não está por menos de setecentos dólares, e aqui estão cinco deles. Poderiam ser quatro, três ou um. Para se direcionar, basta uma pessoa na frente em fila indiana.

— Melhor assim.

Meia hora depois, uma tênue luminosidade azulada faz com que os óculos não mais sejam necessários. As rochas não estão mais tão escuras, como se mescladas de piche. Rossi lembra dos versos de advertência, extraídos das tabuletas naacales, citados na tese do estudante morto por combustão espontânea:

As negras paredes das rochas

Sombrias e profundas

Escondem remotos segredos

Ilhados por advertências, incautos

Não percebem a hora de voltar?

A fria e profunda tumba

Esvai toda esperança do peregrino.

Os músculos do jornalista se retraem, ouve-se um estrondo, a impressão de que em breve serão esmagados por pedras enormes, a rolarem na direção deles. Logo não estariam vivos para contar a história. A montanha treme, a tensão aumenta. Felizmente pára. O que quer que seja, parece ter encontrado um encaixe.

A sensação de que seriam esmagados, aumentou a velocidade dos batimentos cardíacos. Haja adrenalina. Passado o susto, fica nítida a sensação de que, mesmo se alguém quisesse voltar, em algum lugar a passagem estará obstruída.

— Esse túnel deve conduzir a alguma espécie de inferno sem saída, comenta Tauil.

— Do contrário, confirma Rossi, como asilar os praticantes de satanismo do III Reich?

Vassari e Hermann começam a dizer coisas para Norton. O chefe da expedição permanece monossilábico, concentrando-se na sequência, mais uma vez imprevisível, dos acontecimentos. Apesar da pressa pronunciada das palavras, Rossi reconhece algumas. Eles falam iídiche, língua judaica-alemã, com inclusões hebraico-eslavas, usadas por grupos de judeus, do século XIV aos dias de hoje.

Após quatro horas e meia aprofundando-se pelas incômodas reentrâncias do esôfago da caverna, a garganta alarga-se, o teto vai ficando mais distante. Até aqui não tiveram de usar o oxigênio dos pequenos cilindros. A Expedição está com sorte. A progressão não encontra empecilhos. É como se estivessem sendo esperados, e o caminho aberto, sem maiores obstáculos. Fazem uma parada e começam a trocar impressões e idéias, quase involuntariamente, após esticarem os músculos intercostais:

— Apesar das aparências, este é um lugar "high-tech". Talvez de necromancia como fonte de magia. Não há segurança de que saiamos vivos daqui. A advertência de Rossi causa apreensão em Adriane:

— Se eu quiser voltar...

— De livre e espontânea vontade, pode ir quando quiser, garante Norton. Leve um dos óculos.

— Não compreende? Não há caminho de volta. Olhe.Todos se voltam para trás buscando uma resposta para o desafio de Adriane. Não há nenhum indício de que o caminho que haviam percorrido pudesse outra vez ser encontrado. Dezenas de trilhas e aberturas de retorno conduzem a um mesmo lugar: uma espécie de platô semicircular, a mais de meia centena de metros abaixo. Um vale cor de argila pardacenta, entre o amarelo flanela e o castanho. Nele encontram-se algumas árvores agrupadas que para Rossi se parecem com Castanheiros-da-India e Baobás.

— Estranha esta gigantesca árvore, Baobá: é originária das savanas africanas. No tronco espesso há grande reserva de água, o mais grosso tronco do mundo.

— Saint Exupery a estigmatizou enquanto um símbolo antiestético da natureza, no livro “O Pequeno Príncipe”. Ninguém se importou com a observação pertinente de Tauil.

— O império de Rama/Abim, exclama Norton, admirando-se. Vassari fala algumas coisas em iídiche. Norton confirma:

— Sim. Contemporâneo da Atlântida. Adriane pergunta a Norton o que Vassari disse. Norton não se faz de rogado:

— Enquanto a Atlântida se destacava por uma tecnologia inventiva, os ramas indianos se notabilizavam por um inacreditável desenvolvimento mental. Aquelas árvores eram conhecidas por Amrit, delas se extraía o elixir da vida, a vitalidade estável do Singh.

— Que isto quer dizer, Adriane repete as palavras Amrit, Sing?

— Amrit, o desejado elixir da vida, Sing na língua Punjab, a coragem e os poderes do leão. Se um dia você for à India, e se dirigir ao Templo Dourado, vai ver nas lojas de souvenirs próximas a ele, centenas de posters com cenas de batalhas contra os muçulmanos, milhares de cabeças decepadas.

— Nossa, por que todo esse... Rossi demora um pouco a achar a palavra... Deslumbramento? Norton responde, sem esconder este tom entusiasta na voz:

— Platão escreveu: "A Atlântida afundou precisamente em 8. 500 a.C., depois de uma existência de milhares de anos". O império Rama, fundado pelos naacals, tinha sua capital em Deccan no ano 7. 000 a.C.... Vêem como a coisa toda faz sentido?

— Claro, é isso, Vassari também acaba por descobrir a pólvora. A estatueta de basalto do coronel Fawcett encontrada em terras antigamente habitadas pelos descendentes naacals... As inscrições em dialeto naacal. Estamos em território Atlante, quero dizer: lemuriano. Fawcett estava se dirigindo para este lugar. Os lemurianos o conduziram até aqui.

Hermann volta de uma incursão pelos arredores, diz ter encontrado uma possível via de acesso ao “planalto”, que, por um paradoxo geográfico, está lá embaixo. Encontram uma escada precária. Dela constam 215 furos na rocha, distanciados, uns dos outros, por sessenta centímetros. Muitos desses orifícios seguem, ora para um lado, ora para outro, na parede da rocha, sem que se atine o porquê, ou o para onde conduzem.

Hermann desce seguido de Vassari, Rossi, Adriane e Norton. A descida é arriscada e incômoda, após sentir com os dedos a borda larga dos orifícios, a profundidade dos mesmos fornece uma certa sensação de segurança às mãos. Uma vez pegas as bordas, há apoio suficiente para sustentarem-se nos pés e mãos.

Vassari adverte que existem escorpiões com cerca de 120 mm dentro de alguns orifícios. A tensão de uma possível ferroada, mesmo sabendo-se que há antídotos na bagagem para essa espécie amazônica, uma variante do escorpião-grande ("tytius cambridgei Pocok"), popularmente conhecida por saraiú venenoso. Adriane, ao tentar tanger com um tapa lateral um deles que se alojara no braço esquerdo, quase perde o equilíbrio. Grita de medo. Por muito pouco não despenca.

Consegue segurar-se outra vez com ambas as mãos. Recompondo-se, busca manter o ritmo cadenciado da descida. Faltam uns vinte e cinco metros. Pouco depois, para provar que perigos e artimanhas nunca vêm sozinhos, uma aranha nanduçu entra pela barra da bermuda de Hermann, para logo depois ser esmagada pela manopla de Vassari que a prende e amassa entre os dedos, por sobre o tecido da bermuda da quase vítima.

— Desta vez você escapou, expressa-se Vassari, meio arrastado, e pela primeira vez à vista de Adriane e Rossi, em portunhol. Após subir dois metros através dos buracos na parede da rocha, apóia-se, por momentos, na perna esquerda de Hermann com uma das mãos, para, com a outra, alcançar condições de manobra e esmagar o aracnídeo, após apalpá-lo sob a bermuda de Hermann.

Adriane, ao olhar para cima, vê a aranha descer pelas costas de Hermann e avisa, gesticulando muito com o braço esquerdo, repete: “aranha, aracnídeo”.

Norton ouve os apelos insistentes, olha para baixo, chama a atenção dos companheiros, e Vassari escala os orifícios de apoio, para cima, a tempo de intervir de modo fortuito, enquanto Adriane exclama olhando para Hermann:

— Este cara está fazendo hora extra na vida.

Aranhas amazônicas venenosas andam aos pares. Logo a outra aparece por sobre a mão destra de Norton. Ele bate a manopla contra a rocha, esmagando de forma compulsiva o artrópode peçonhento, não sem um grito, como se houvesse sido picado.

— Não foi nada. E resmunga alguns sons ininteligíveis.

A escalada às avessas prossegue, agora com muito mais atenção. As tensões aumentam. Nenhum deles, talvez, saiba exatamente o que lhes está reservado. Não são os mesmos.

Sentem uma espécie de solidariedade enganosa, sincrônica. Estão contaminados por essa dimensão que ultrapassa claramente os limites de suas limitadas percepções. Há pouco estavam superenergizados, agora, como que enfraquecidos, concentram-se em cada movimento, como se deles dependesse a tênue sequência de suas frágeis, muito frágeis, existências.

Chegam ao chão mais cansados do que era de se esperar. Todos, enquanto armam as barracas e exploram os arredores da nova paisagem, parecem sentir que esse lugar contamina. Há nele uma invisível e inesgotável chama de poder operante. Seus corpos sentem-se invadidos, devassados, postos a descoberto, por sequências de suaves sonoridades.

Elas trazem perspectivas perceptuais que conduzem ao sono.

Os integrantes da Expedição estão a fazer parte dos estímulos e motivações de sua estrutura. Não se pode estar próximo dessa energia, e de alguma forma não ser parte dela. Já agora suas aspirações se fazem integrantes da ressonância magnética da força do lugar.

O cansaço, a necessidade de relaxar, dormir. Talvez seus corpos se adaptem às incessantes ondas do fluxo magnético do local, sem provocar essa sensação de estafa, estresse, esgotamento. A diversidade da excentricidade da experiência provoca um certo desequilíbrio, uma sensação de pertinente estranheza.

Os membros da Expedição Norton encontram-se absorvidos por um processo comunicativo subliminar. Estão sendo assimilados por essa veemente intensidade que ao mesmo tempo esgota e estimula os sentidos. Sentem-se solicitados a participar de uma aprendizagem perceptual. Essa aprendizagem permite uma superação qualitativa de seus conteúdos culturais, em curto prazo. O que virá depois, só Deus sabe. Que Ele tenha piedade e possa poupar-nos do pior, subjetiva Rossi olhando para Adriane.

O que quer que seja que os absorve e sujeita a esta exposição sumária, deve ser equivalente a um computador eletrônico emocional, blasfemo e sem preconceitos. É como se estivesse analisando o desenvolvimento de cada segmento delineado no código genético de cada um deles. Cada uma dessas vibrações intrusas identifica-se com uma variante de seu próprio projeto de desenvolvimento biológico. Reelaboram e reescrevem, redefinem os critérios de mérito de cada um e todos eles, como se tivessem, por momentos, o poder de investigar e mudar segmentos de seus códigos genéticos.

A situação, longe de ser cômoda, porque incontrolável, produz, ao mesmo tempo, evasão da consciência e uma falsa onipotência, desde que os sentidos mergulham numa espécie de zombaria interior das complexidades, dos paradoxos que os manipulam, completa e informalmente, como se fossem meros seres cibernéticos. Sentem suas almas sob comando, comunicação e controle dessa força estranha. Tentam manter-se em vigília. Gradativamente, apagam, desmaiam. Dormem. Sonham.

Uma frequência, ora sincrônica, ora diacrônica, paradoxal, inespecífica, domina as vontades. Rossi consegue manter-se desperto por mais tempo. Ao observar o sono inquieto de Tauil, lembra de uma frase de Fidelino de Figueiredo, quando da relação entre dois eventos sincrônicos: “Toda gente sabe que os sentidos se extinguem sem sincronismo com a extinção da consciência”. Desconhece o porquê da presença da citação da frase de memória. Está aqui e ao mesmo tempo no passado, lendo na Biblioteca Mário de Andrade o livro Entre Dois Universos.

Através da parede lateral semitransparente da barraca, sem ânimo para levantar-se, mal consegue manter as pálpebras entreabertas, Rossi vê semblantes indistintos, vultos e sombras, muitos espaços obscurecidos em volta do acampamento. Movimentam-se ao redor das árvores, dos sonhos. Muitos sonhos. Mais que sonhos: viagens mágicas, telúricas, astrais.

Tauil imagina, ainda não totalmente distante de uma última solicitação do estado de vigília, se será capaz de selecionar, interpretar, lembrar, quando voltar a estar desperta, desses códigos inconscientes nos quais submerge, como se provenientes de potenciais universais de uma linguagem onírica inata, muitíssima antiga. A tradução, a chave para entrar nos portais dos significados mais ocultos dos sonhos, raiz da criação universal, em qualquer lugar do cosmo. Ela acredita que o sonho não é mais do que um treino, uma revelação precisa de como enfrentar os problemas que surgem na vigília. O sonho não é um se desligar do mundo, ao contrário, é uma advertência dos riscos a que está sujeito quem dele se desliga.

Uma linguagem de arquétipo para arquétipo, associando-se ao sistema neural tipo Internet, nivelando, horizontalizando, padronizando as percepções. De alguma forma cada um dos membros da Expedição Norton volta a ser criança e adolescente, e a poder escolher uma alternativa para seu desenvolvimento, com todo o suposto saber de sua cultura.

De alguma forma aprendem consigo mesmos a mágica da autosuperação. Apresenta-se a oportunidade que todo ser humano gostaria de ter: poder escolher o impulso vital de suas vidas em direção a um lugar onde possam exercer suas virtualidades.

DECIO GOODNEWS
Enviado por DECIO GOODNEWS em 23/04/2011
Reeditado em 12/12/2013
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