Queria ser como o vento
Andar descalço,sem hora, sem beira, inventando o próprio ritmo, ter como pai só o tempo que não faz escravos, dilata os movimentos,mostra que tudo é momento. Só os homens inventaram outro tempo e nele se afogam sem firmamento. O vento em perfeita sincronia sabre seu momento em alçar-se. Sai de seu espreito na montanha, desce ao largo a lamber o cume das árvores e matos. Invade choupanas, abana carrapatos. Alarga-se e visita a cidade, dá ânimo aos corredores, desliza brincando na voz dos cantores. Ai queria ser como o vento, fazer pregas na saia da moça, espalhar as palhas, refrescar o sabugo do milho, sacudir as roupas lavadas, entrar e sair sem pedir licença, bem isento dos regimes. Ser vento e sair debaixo do abanar da asa da pomba, soprar a vela da quiromba, viver sem saber, só soprar. E quando precisar, mostrar energia num constante refazendo, levantando casebres, deixando tontas as lebres, morrer ao sol da tarde, acordar cedinho sem alarde.Dar vida à nuvem tonta e torcê-la prá lavar a cidade. Espalhar o pó do homem morto em contrita caridade.