UMA CONCLUSÃO
Escrevo sob o signo da extravagância. Escrever é uma atividade extravagante. E não sei o que me move, o que me motiva e nem o que, digamos assim, me inspira.
Muitas vezes há a nítida presença da razão. É quando as palavras são buscadas num repertório mínimo, resgatadas a muito custo da memória, tiradas do arcabouço de minhas emoções mais baratas.
Outras vezes não sei como é. A palavra simplesmente vem sem pedir licença e passa por mim. Sinto-a passar como a um espectro de forma indefinível, não sei o que é e nem de onde vem. Se carregam de passagem algo caro de minhas emoções eu nem percebo. A palavra se impõe à necessidade de dizer e, dita, a palavra diz por si mesma e não cessa de dizer.
Acho que se dá aproximadamente assim. Desaba do nada um silêncio indecifrável que me obriga um outro olhar sobre as mesmas coisas,
É isso que, em mim, precariamente chamo de fluxo de pensamento, águas de um rio revoltoso que não pode ser contida, estouro de manada terrivelmente perigoso, relâmpagos poderosos que vem de onde vem e não podem ser evitados. Fluxo de pensamento é diferente de não pensar, é um pensar liberto de peso e de amarras, imune a controles, deixando fluir aquilo que nasce como pensamento para morrer em palavras. Essa leveza da palavra supõe um voo e esse voo obriga a um desapego a o que quer que seja que tenda ao chão. Escrever é sair do chão repentinamente. E facilmente. É voar repetidamente, posto que a distância das coisas é que proporciona esse outro olhar. Mas é um olhar à distância que sempre implica uma devida aproximação, um necessário aprofundamento.
Já com a poesia a extravagância é ainda maior. É extrema. A poesia prescinde do racional e mesmo do emocional. É intuitiva como o pressentimento da coisa que deve ser exatamente o que é. A poesia não sei se escrevo, se a sinto ou se penso nela, se a concebo em pensamento e ponho em palavras, se tudo isso ou nada disso. Aliás, talvez tudo isso a um só tempo de modo a ser muito mais que isso. E é ainda mais que o olhar, mas sim o olhar que dirige o olhar. É mais que imaginação e inspiração; é algo de que se formam a inspiração e a imaginação. É além e é um passo antes. Não é olhar para a coisa tal como ela é, mas através da coisa tal qual sempre foi e sempre será.
Dizer como se dá a poesia é impossível. Sei que é o que é quando é. Sei que é essa entrega, essa busca, essa fuga, esse tudo e esse nada.
O que faço da poesia não sei, assim como não sei o que ela faz de mim. Sei apenas de um conselho dado a um jovem poeta por um poeta que terá pensado bem melhor todas essas coisas. Sei que não poderia viver sem o toque sublime e sutil da poesia.
(Mirandópolis, 19/08/2010 - 11:00)
Escrevo sob o signo da extravagância. Escrever é uma atividade extravagante. E não sei o que me move, o que me motiva e nem o que, digamos assim, me inspira.
Muitas vezes há a nítida presença da razão. É quando as palavras são buscadas num repertório mínimo, resgatadas a muito custo da memória, tiradas do arcabouço de minhas emoções mais baratas.
Outras vezes não sei como é. A palavra simplesmente vem sem pedir licença e passa por mim. Sinto-a passar como a um espectro de forma indefinível, não sei o que é e nem de onde vem. Se carregam de passagem algo caro de minhas emoções eu nem percebo. A palavra se impõe à necessidade de dizer e, dita, a palavra diz por si mesma e não cessa de dizer.
Acho que se dá aproximadamente assim. Desaba do nada um silêncio indecifrável que me obriga um outro olhar sobre as mesmas coisas,
É isso que, em mim, precariamente chamo de fluxo de pensamento, águas de um rio revoltoso que não pode ser contida, estouro de manada terrivelmente perigoso, relâmpagos poderosos que vem de onde vem e não podem ser evitados. Fluxo de pensamento é diferente de não pensar, é um pensar liberto de peso e de amarras, imune a controles, deixando fluir aquilo que nasce como pensamento para morrer em palavras. Essa leveza da palavra supõe um voo e esse voo obriga a um desapego a o que quer que seja que tenda ao chão. Escrever é sair do chão repentinamente. E facilmente. É voar repetidamente, posto que a distância das coisas é que proporciona esse outro olhar. Mas é um olhar à distância que sempre implica uma devida aproximação, um necessário aprofundamento.
Já com a poesia a extravagância é ainda maior. É extrema. A poesia prescinde do racional e mesmo do emocional. É intuitiva como o pressentimento da coisa que deve ser exatamente o que é. A poesia não sei se escrevo, se a sinto ou se penso nela, se a concebo em pensamento e ponho em palavras, se tudo isso ou nada disso. Aliás, talvez tudo isso a um só tempo de modo a ser muito mais que isso. E é ainda mais que o olhar, mas sim o olhar que dirige o olhar. É mais que imaginação e inspiração; é algo de que se formam a inspiração e a imaginação. É além e é um passo antes. Não é olhar para a coisa tal como ela é, mas através da coisa tal qual sempre foi e sempre será.
Dizer como se dá a poesia é impossível. Sei que é o que é quando é. Sei que é essa entrega, essa busca, essa fuga, esse tudo e esse nada.
O que faço da poesia não sei, assim como não sei o que ela faz de mim. Sei apenas de um conselho dado a um jovem poeta por um poeta que terá pensado bem melhor todas essas coisas. Sei que não poderia viver sem o toque sublime e sutil da poesia.
(Mirandópolis, 19/08/2010 - 11:00)