Quarto de hotel, confortável prisão. Cigarros, água, TV, papel em branco. Nada melhor para pensar e pesar a solidão estar longe de tudo. E imaginar tanta vida lá fora. Porque aqui dentro sempre se anuncia um terrível silêncio. Um silêncio só meu.
Cultivar de repente um ódio mortal pelas metáforas. Pois elas nem são mais aproximações; parecem apenas distanciamento. O amor é a maior e a pior das metáforas da vida, exatamente por ser mais distanciamento do que aproximação. O amor está sempre distante e inatingível, irrealizável. Sempre por se conquistar, dominar, entender. O amor está sempre por se fazer e se faz aos trancos e barrancos, mediante erros e acertos, tentativas. O amor sempre escorre pelos dedos, escapa do território da tranquilidade. Amar é sempre estar aflito, insatisfeito, inquieto e angustiado. No entanto, uma dor de barriga dói mais do que a dor do amor, ou uma dor de dente, ou uma dor de cabeça.
Assim pensava enquanto andava à noite, pelas ruas mais vazias de uma cidade estranha, estranha por não ser a minha, meu bairrro, minha rua, a porta de minha casa.
E a aflição de ver gente, não que não quisesse ver gente, apenas queria ver na gente que via gente nenhuma que havia. Gente é sempre coisa interessante e desinteressante ao mesmo tempo. Gente nenhuma era ele, gente nenhuma era nem menos e nem mais que ele, era só outra gente, uma gente totalmente desprovida de metáforas.
Nesse distanciamento completo de tudo, pensa em poesia. Liberta uns versos, acalenta um poema, ri, espanta-se, repete, esquece. Que versos explicam e que poemas confortam a mais completa falta de vontade de poesia? E que poesia acaso o salvaria do olhar inquisidor para a miséria de todos os momentos?
A maior e melhor metáfora, a mais significativa, é devorar a miséria de todos esses momentos...


(Araçatuba, em 18/08/2010 - 21:18)
Marcos Lizardo
Enviado por Marcos Lizardo em 19/08/2010
Reeditado em 05/08/2021
Código do texto: T2446430
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