Diz a noite: Não durma! É a morte que espreita!
Avança uma madrugada de esquecimentos
Impossíveis pensamentos retintos requentados
Eu que muito andei a recolher todos os cacos
Sinto o absurdo de lamentar que o dia amanheça
Visto meus trapos, e ainda envergo farrapos
E entendo de escombros e de seus assombros
Trago nos ombros toda a dor de viver cada dia
Em que me engano sem calcular muito os danos
E de desenganos se tivesse que viver, viveria
Para ver não nascer mais esse dia que se anuncia
Vago de satisfações e repleto de melancolia
Eu traria no peito o doce gosto de uma lembrança
Mas esqueço rostos, esqueço sorrisos e palavras
Esqueço por aí nos becos os poemas que escreveria
Com o sangue infame dessas horas tristes e vazias
Aquela única janela acesa traz presa uma pressa em mim
E o silêncio assim de me trazer as coisas de onde virem
Se me virem haverão de rir de quem vive à esmo
Perdido em si mesmo com mil perguntas sem fim
Uma cena no parque, entre as árvores silenciosas
Pisando as folhas mortas do que a poesia não escreveu
E mais ainda do que em mim a poesia esqueceu
Caminharia essas ruas mortas mirando as portas
Andaria os ermos dos meios termos do que não foi dito
E seria maldito esse sentimento de não ter feito nada
Por essas calçadas o grito de meus lânguidos passos
Por entre as cobertas a saudade de muitos abraços
E além da janela essa solidão que se espalha infinita
Inundando a cidade e os telhados das casas dessas coisas
Dessas coisas que se não fossem o que são seriam bonitas
Esse desprezo que por mim nutrem as quietas escadas
E as ridículas luzes das janelas dos prédios imitando as estrelas
Esse fluxo de pensamento, esse refluxo de sentimentos
Uma mãe que morre, um amor que se vai, saudade do pai
E os filhos que crescem me transformando em história
Na memória das incertezas um girassol sobre a mesa
No pretenso reviver de momentos um cheiro de incenso
Mas para quê? Todos dormem agora, não vão ouvir
E quem entende que o que se sente intensamente
Marca para sempre a gente e profundamente?
Delírios que são na verdade martírios do pensamento
A imaginação vadia que vaga na noite solitária e fria
Cobra-me caro o que não me deu e me abandona ao dia
Vai-se a hora, não estou pronto para jogar tudo fora
Não tiro as coisas do lugar porque não há lugar para elas
Senão aqui mesmo, dentro e fora de tudo que sinto e senti
Quando o que me resta é suplicar que me ouçam ao menos dessa vez
Eu preciso que a paz que eu tenha me mantenha de pé
Exatamente na hora do mais imenso desespero
Mas não! Vai haver sempre esse terrível silêncio
O mesmo silêncio que se apodera de todos os sorrisos de outrora
E que me trazem agora nesse delírio a incerteza do agora
Agora que já é outra hora de ainda recolher os infinitos cacos
Dos escombros amontoados de minha casa de espelhos...
Marcos Lizardo
Enviado por Marcos Lizardo em 19/05/2010
Reeditado em 07/08/2021
Código do texto: T2265802
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